Ciência, inovação, comunidade

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Quando se fala na ligação da ciência à inovação, a tendência é imaginar novos tratamentos médicos e processos revolucionários, energias renováveis, ou qualquer coisa que envolva inteligência artificial. No fundo, conhecimento que possa gerar startups, patentes, serviços ou ideias de negócio. Mas não é esse o único tipo de valor que a ciência pode oferecer em termos de inovação. Sobretudo se não estiver sozinha, mas ligada a outras forças públicas e privadas que possam desempenhar diferentes tipos de papéis. Um excelente exemplo decorreu (e decorre) na localidade de Idanha-a-Velha (distrito de Castelo Branco), apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Fundação laCaixa e BPI, para além de autoridades e associações locais. O projeto “iDanha, novos links, novas leituras históricas criativas” tem tudo o que de impactante a ciência pode fazer no contexto específico de uma comunidade.

Desde logo porque, para além de diversos tipos de entidades, envolve várias instituições académicas (no caso, a Universidade de Coimbra e a Universidade Nova de Lisboa), de uma forma verdadeiramente colaborativa. Depois, porque Idanha-a-Velha representa (também) uma espécie de microcosmo simbólico da realidade nacional, e do interior em particular. Uma localidade que já foi muito importante e teve tempos de glória (durante a ocupação romana e, mais tarde, enquanto sede de bispado), que agora luta com as adversidades de ser periferia e interior desertificado. Mas onde há também movimentos de revitalização, regressos e integração. Com quem partiu (em movimentos de “emigração interna”) a querer, empenhadamente, ajudar.

Se o projeto começou com escavações e trabalhos de arqueologia sobre as diferentes dimensões do passado da terra (da agricultura à organização social), e que treinaram gerações de estudantes (incluindo os coordenadores do projeto), estendeu-se de forma orgânica, interdisciplinar e integrada, tocando diferentes aspetos num local onde todos se conhecem. E não se trata apenas de recolhas de canções populares ou dinamização da produção de produtos regionais (bicas de azeite, borrachões) ou o revisitar contemporâneo da gastronomia romana. Mas onde, por exemplo, novos habitantes olham de forma consistente para o olival tradicional, incluindo introduzir a pastorícia como alternativa sustentável à cultura intensiva.

O projeto transformou-se, pois, em comunidade. Um local onde se trocam ideias e se alicerçam novas iniciativas de cocriação, diálogos entre iguais que sabem coisas diferentes. E é isso que a ciência também pode (e deve) promover. Ser um polo agregador de vontades com potencial transformativo, e não algo que se esgota em trabalhos académicos, relatórios, entregáveis (deliverables) e marcos (milestones), por muito importante que tudo isso seja. O documentário, realizado no âmbito do projeto (e programado no DocLisboa), iDanha – Aldeia Histórica, Cidade Antiga procura sintetizar todos estes aspetos, e revela também as dicotomias que se têm de trabalhar. Se investigadores privilegiam a dimensão histórica e as lições do passado (no fundo, o que os trouxe ali), os atuais habitantes preferem olhar para o presente e, sobretudo, projetar o futuro. Têm ambos razão.

Para quem acha que a inovação baseada em ciência só tem um tipo de caminho, tem aqui um excelente exemplo alternativo, sobretudo se diferentes disciplinas se juntarem de forma construtiva. Haverá certamente outros, e só naquela região há inúmeras oportunidades transformativas similares (como Monsanto, cenário da série House of the Dragon).

Na verdade, tivessem os colegas envolvidos um ínfimo da vontade e capacidade para autopromoção que vejo noutros contextos, e este tipo de projetos seria (mais) celebrado como um (bom) caso do estudo daquilo que podemos fazer, com recursos modestos, para ajudar a melhorar de forma concreta o território nacional, e ajudar quem lá mora e quer morar. Claro que há senões, e um deles é, infelizmente, também algo previsível. Desenvolver uma (muito interessante) aplicação web imersiva, que permita a um visitante conhecer melhor o passado e presente de Idanha-a-Velha, só funciona de forma eficaz se houver um bom sinal de rede. Sem resolver estas coisas, que atualmente se querem básicas, não tiraremos mais partido de toda a vontade e recursos que temos. Mas são lutas que valem a pena, uma barra no telemóvel de cada vez.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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