O cometa interestelar 3I/ATLAS, que fez em Dezembro a sua maior aproximação à Terra, formou-se num sistema planetário gelado dos primórdios do Universo, há 10 mil milhões a 12 mil milhões de anos, e é provavelmente o objecto mais antigo alguma vez observado a atravessar o sistema solar. A conclusão é de um estudo publicado nesta segunda-feira na revista científica Nature, que analisou a composição química do cometa.
A idade estimada do Universo é de 13,8 mil milhões de anos, o que significa que o 3I/ATLAS remonta a uma época em que o cosmos teria apenas cerca de 13% da idade actual, o chamado “meio-dia cósmico”, o período de maior formação de estrelas no Universo.
Detectado pela primeira vez em Julho do ano passado pelo radiotelescópio ALMA, no Chile, o 3I/ATLAS é o terceiro objecto interestelar confirmado a atravessar o sistema solar, depois do 1I/’Oumuamua, em 2017, e do 2I/Borisov, em 2019. Tem um diâmetro de cerca de 2,6 quilómetros.
Os cientistas estudaram a composição química do cometa a partir de observações feitas com o telescópio espacial James Webb, quando o 3I/ATLAS começou a afastar-se do Sol, em Dezembro, depois da sua maior aproximação à estrela. O gelo antigo do cometa, aquecido nessa passagem, transformou-se numa coma de gás brilhante, ideal para observação.
“Nunca tínhamos visto um objecto como o 3I/ATLAS”, afirmou Martin Cordiner, astroquímico do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, em Greenbelt (Maryland), e autor principal do estudo. Para o investigador, tratou-se de uma oportunidade única para estudar um objecto antigo, provavelmente anterior ao Sol e ao sistema solar: “Por um lado, obtemos uma visão directa daquela época e daquele lugar distantes e, por outro, aprendemos algo sobre quão invulgar o nosso próprio sistema solar pode ser.”
De acordo com o estudo, a água do 3I/ATLAS contém 30 vezes mais deutério, um isótopo do hidrogénio, do que os cometas do sistema solar, apontando para uma origem num sistema gelado, numa fase inicial da história da galáxia. Os investigadores estimam que o cometa se terá formado numa nuvem gélida, a cerca de 243 graus Celsius negativos. Um ambiente muito mais frio do que aquele em que a Terra e os restantes corpos do sistema solar se formaram, há cerca de 4,54 mil milhões de anos.
As proporções de carbono revelaram também apenas vestígios do isótopo carbono-13 face ao isótopo carbono-12, mais leve, um outro indício de uma origem muito antiga. Os sistemas estelares vão-se enriquecendo em carbono-13 ao longo do tempo, à medida que sucessivas gerações de estrelas nascem e morrem. Por comparação, o sistema solar, formado relativamente há pouco, apresenta níveis mais elevados deste isótopo.
Segundo Cordiner, em declarações à Reuters, o 3I/ATLAS será um fragmento que sobrou do processo de formação planetária em torno de outra estrela. As observações do James Webb indicam que esse sistema de origem era distinto do nosso, “provavelmente mais frio e menos rico em metais, e mais intensamente irradiado por radiação ultravioleta e raios cósmicos”.
A incursão do cometa para fora do sistema em que foi formado terá acontecido devido a interacções gravitacionais com planetas, embora não esteja fora da equação a possibilidade de uma colisão que tenha desviado o 3I/ATLAS da sua rota.
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