O rio Paiva, um dos principais afluentes do Douro, estende-se por 115 quilómetros numa região fustigada por graves ameaças ecológicas. Nas últimas décadas, a expansão das monoculturas de eucalipto e pinheiro, os incêndios recorrentes e a proliferação de espécies invasoras sufocaram a paisagem. Mais ainda, a conectividade natural do curso de água foi fragmentada pela construção de cerca de 130 barreiras físicas. Como libertar um rio dessas amarras?
Para Edna Cabecinha, investigadora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a resposta não se encontra fechada nas gavetas da academia. Durante muito tempo, as universidades viveram focadas em produzir artigos científicos com pouca utilidade prática. É crucial, explicou-me, desenvolver ciência aplicada a problemas reais e promover uma troca de conhecimento recíproca com as populações. Foi com esta premissa que coordenou em Portugal o projecto Alice, entre 2017 e 2021, focado na implementação de soluções baseadas na natureza na bacia do Paiva.
O sucesso da recuperação — que levou esta experiência a figurar entre estudos de caso destacados num relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) em matéria de soluções baseadas na natureza — assentou na criação de um “fórum de stakeholders” que rompeu “silos institucionais” e reuniu actores frequentemente distantes: entidades governamentais, autarquias, empresas do sector florestal, ONG de conservação e dinamizadores turísticos. O passo inicial consistiu em estabelecer uma linguagem comum, desmistificando conceitos técnicos como os “serviços de ecossistemas”.
Neste ambiente colaborativo, conta Edna Cabecinha, a academia percebeu que não detinha a totalidade do saber: foram os próprios habitantes que alertaram, por exemplo, para os graves impactos das cheias repentinas, um tema fulcral que estava ausente das prioridades científicas iniciais.
A experiência demonstrou que as barreiras burocráticas são, muitas vezes, mais difíceis de transpor do que as físicas. Frequentemente, as próprias entidades do Estado não partilham informação entre si — um obstáculo que o fórum conseguiu contornar ao humanizar as relações entre a academia, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a sociedade civil. Edna Cabecinha é categórica: sem o envolvimento da população, os projectos de restauro correm o risco de morrer assim que os financiamentos europeus terminam. E, de facto, mesmo após o fim do financiamento oficial do projecto Alice, o bichinho da conservação continuou vivo na comunidade local.
Este despertar está a ganhar tracção à escala nacional. A APA lançou no início do ano o Pro-Rios 2030, um programa dedicado à reabilitação ecológica de rios e ribeiras em Portugal. Na apresentação do programa, José Pimenta Machado, presidente do conselho directivo da APA, reconheceu os graves erros de ordenamento das últimas décadas. Nos anos 1980 e 1990, a visão dominante era estritamente hidráulica: “Escondíamos os rios, fechávamos os rios, emparedávamos os rios.”
O novo paradigma visa inverter este cenário, explicava, passando por “renaturalizar as margens, dar espaço aos rios, evitar inundações e cheias” e “devolver o rio às pessoas e à natureza”.
As metas são ambiciosas: mais de mil quilómetros de rios e ribeiras reabilitados até 2030, com um financiamento estimado em 187 milhões de euros. O investimento visa, entre outros objectivos, proteger as mais de 105 mil pessoas que vivem em zonas de risco significativo de inundações em 100 municípios do país.
Mas José Pimenta Machado avisa que este não pode ser um esforço isolado do poder central: “Nós sozinhos seremos mais lentos, obviamente, e portanto trabalhamos sempre em grande parceria técnica e financeira com os municípios.” Para o responsável, “a liderança política faz muita diferença” para garantir que os projectos saiam do papel.
Como se liberta, então, um rio? Liberta-se, antes de mais, assumindo as responsabilidades. As inundações destrutivas e a degradação dos ecossistemas não podem ser eternamente justificadas usando as alterações climáticas como bode expiatório: são, em grande medida, o resultado de décadas de impermeabilização de solos, de estrangulamento dos leitos e de inacção humana.
A renaturalização exige um esforço contínuo que une engenharia, ecologia e sociedade. O sucesso não se mede apenas pelo número de barreiras obsoletas removidas ou pela extensão de margens replantadas — mede-se pela capacidade de garantir que a vontade de conservar permanece activa a longo prazo. Só com vontade política, cooperação genuína, monitorização contínua e a consciencialização de que o rio pertence à natureza e às pessoas será possível deixar as águas correrem, finalmente, de forma livre.
A partir de domingo, acompanhe a nossa série especial de reportagens “Como se liberta um rio?“ No dia 22 de Abril, dia da Terra e o 4.º aniversário do Azul, junte-se a nós na Cidade Azul, a nossa conferência anual sobre cidades e o desafio da sustentabilidade. Na 3.ª edição desta iniciativa, juntamo-nos à Universidade de Aveiro com o tema “Universidade e Sociedade: Acção no território“.
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