Concerto para Lídia Jorge leva Amélia Muge e Filipe Raposo ao palco do Maria Matos

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É mais uma inédita parceria musical, das muitas que têm unido a cantora e compositora Amélia Muge e o pianista e também compositor Filipe Raposo ao longo de anos. E nasceu de uma proposta algarvia, mais propriamente do Festival Literário Internacional de Querença (FLIQ), no concelho de Loulé: criar, para a sua 5.ª edição, a de 2025, um concerto baseado no universo literário da escritora homenageada nesse ano, Lídia Jorge, não só a partir da sua poesia e literatura, como dos poetas do seu universo pessoal. Aceite o desafio, o concerto teve estreia absoluta no segundo dia do festival, 20 de Setembro de 2025.

Algarvia de nascimento (em Boliqueime, concelho de Loulé, no dia 18 de Junho de 1946), Lídia Jorge tornar-se-ia, no final desse mesmo ano, a primeira escritora a ser distinguida com o Prémio Pessoa (e a sétima mulher, em 39 edições), e o concerto criado por Amélia e Filipe veio a ter uma segunda versão na cerimónia de entrega, que decorreu na sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, no dia 18 de Junho de 2026. Agora, é a vez de tal concerto ganhar uma sala lisboeta, mantendo mas ampliando o seu sentido original. Será no Teatro Maria Matos, na noite desta quarta-feira, 26 de Maio, às 21h, e Lídia Jorge assistirá.

A casa como espaço poético

“Este concerto vem nessa continuidade mas não vai ser igual”, diz ao PÚBLICO Amélia Muge. “Tem transformações, o contexto é diferente e há coisas que substituímos, com um trabalho de inovação para este concerto. Além das coisas feitas no âmbito do festival e que não estão gravadas (são originais), há outras que vêm de autores que eu já musiquei e estão presentes no meu trabalho, mas a escolha fez-se sobretudo à volta das temáticas que, sobretudo nos versos de Lídia Jorge, lhe são muito queridas, com a ideia da casa, da natureza, da utopia, da infância. Acabámos por organizar o concerto de um modo em que os versos passam uns para os outros, quase uma conversa entre os poetas que ali estão.” Que são, entre outros, Luís de Camões, António Ramos Rosa, Herberto Helder ou Hélia Correia.

Amélia dá um exemplo: “Depois de cantar Fernando Pessoa, com o Sono de ser, o seguinte vem alargar o sentido desse poema, por isso é mesmo uma conversa entre temas.” Três dos quais são novos, criados para este espectáculo a partir de poemas de Lídia Jorge: Sou de vidro e Assim a casa seja, por Amélia Muge; e Cai a chuva no portal, por Filipe Raposo, que vai tocar também instrumentais seus. “Serão duas composições do meu último disco, Variações do Brancø, diz ao PÚBLICO Filipe Raposo. “Todos eles relacionados com este Sul e mediterraneidade presente neste alinhamento: Búzios mudos, maus agoiros e Da minha janela vejo o grande sul. E a seguir tocamos o Ramos Rosa, Entre o deserto e o deserto, portanto há ali uma continuidade geográfica mas também poética, mesmo sem palavras.”

O tema Cai a chuva no portal, que Filipe Raposo escolheu musicar de entre os poemas que Amélia lhe enviou, “também tem essa dimensão da casa” que dá título ao espectáculo, explica Filipe. “A casa como espaço poético, que no fundo é o fio condutor do recital.” Ao longo da noite, serão lidos também curtos excertos literários, a ligar as várias canções.

Memória de Mísia

O concerto dedicado a Lídia Jorge tem ainda outra homenageada: a cantora e fadista Mísia (1955-2024). “A Mísia foi a primeira pessoa (e acho que única), antes de nós, a cantar poemas da Lídia”, recorda Amélia. Como este espectáculo se realiza também por iniciativa e produção do Museu do Fado, isso vai ser assinalado em palco, com a participação especial de Ricardo Parreira na guitarra portuguesa. “Ele vai ajudar-nos a recriar essa memória na segunda parte do espectáculo, com os poemas ligados à Mísia e com outras coisas.”

Ao longo da sua carreira discográfica, Mísia gravou quatro fados com poemas de Lídia Jorge: Sou de vidro (no Fado Santa Luzia) e Fado do retorno (no Fado Estoril), ambos no álbum Garras dos Sentidos (1998); Tarde longa (no Fado Menor), em Senhora da Noite (2011); e Fado gigante (no Fado Alexandrino), no derradeiro Animal Sentimental (2022). “Dos quatro poemas da Lídia que vão ser cantados”, diz Amélia Muge, “dois deles têm muito a ver com a homenagem à Mísia, que é o Tarde longa (que, respeitando a escolha dela, vou cantar no Fado Menor do Porto) e Sou de vidro, que cantarei no Fado Corrido.”

Unidos por uma cumplicidade antiga em composições e gravações discográficas, Amélia Muge e Filipe Raposo já somam várias parcerias na criação de espectáculos originais. Antes deste, Assim a Casa Seja, estreado em 2025 e agora recriado, apresentaram-se em duo no Misty Fest de 2012 (no CCB, em Lisboa, em Novembro desse ano) e assinaram Ondula como um Canto (estreado na Casa Fernando Pessoa em Março de 2017), Com o Passo das Árvores (estreado na Culturgest em Junho de 2017) e Pelo Fio dos Versos, criado em homenagem ao editor Hermínio Monteiro (1952-2001), durante anos rosto e cérebro da Assírio & Alvim. Estreou-se na sua terra natal, Sabrosa, em Setembro de 2019 e foi depois apresentado em Sever do Vouga (Outubro de 2020) e Vila Real (Setembro de 2022).

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