É uma das estrelas do mundo da dita “medicina e nutrição integrativas”. Sara Marilyn é presença frequente em eventos de pseudociência, onde promove a sua marca de biohacking – prática que diz optimizar o corpo e a mente através da tecnologia – e dá conselhos sobre saúde, como uma alimentação baseada em carnes vermelhas. No Instagram, acumula mais de 64 mil seguidores, onde colecciona vídeos com centenas de milhares de visualizações.
Apresenta-se online como “Dra. Sara Marilyn”, mas não está inscrita na Ordem dos Médicos, nem tem formação em medicina convencional – diz, ainda assim, que tem um mestrado em medicina dentária. “Impactei a vida de milhares de pessoas com a medicina integrativa e o biohacking”, afirma ao PÚBLICO.
Sara Marilyn vende “consultas” e “mentorias” que podem custar até 100 euros por hora, bem como “desafios” e “cursos” que variam entre os 45 euros e os 97, prometendo curar “doenças modernas com hábitos ancestrais e sem medicamentos”. Vende, além disso, retiros de três dias de “regeneração do corpo e da mente através do jejum”, que podem chegar quase aos 700 euros por pessoa.
O PÚBLICO analisou as dez publicações do Instagram desta influenciadora com maior taxa de interacção dos últimos três anos. Trata-se de um indicador de atenção aos conteúdos, que corresponde à média de interacções que um conteúdo recebe por seguidor. Por exemplo, um dos vídeos ultrapassou as 230 mil visualizações e outro chegou às 835 mil.
A análise mostra um padrão consistente: todas as publicações de Sara Marilyn contêm desinformação ou teorias da conspiração.
A grande narrativa (falsa)
“A demonização da gordura saturada é a maior fraude de todos os tempos.” É nesta tese conspirativa que assenta a maioria das publicações de Sara Marilyn, que mobiliza a sua história pessoal para concluir que hábitos alimentares “ancestrais” têm sido injustamente demonizados.
“Nas últimas décadas, sofremos uma lavagem cerebral colectiva. Campanhas massivas – financiadas por indústrias alimentares e farmacêuticas – manipularam estudos e gráficos para convencer o mundo de que a gordura saturada era a vilã.”
Incentivando os seguidores a fazerem “o oposto do que as directrizes mundiais de nutrição recomendam”, Sara Marilyn aconselha o consumo alargado e excessivo de carne vermelha, gordura saturada, ovos e sal.
Confrontada com o facto de o seu discurso ser incompatível com o consenso científico nestas matérias, a influenciadora respondeu ao PÚBLICO que “a ciência é questionável e por isso é que se chama ciência, senão vira um dogma e isso seria uma religião.”
Os factos
A influenciadora digital insinua que, no passado, os humanos viviam melhor por comerem mais gordura animal, mas não há base científica que fundamente tal afirmação. Por um lado, “usar populações antigas para inferir sobre indicadores de saúde é muito problemático, pois o contexto de vida, as causas de morte e a esperança de vida eram muito diferentes”, sublinha Gabriela Ribeiro, professora de Metabolismo e Nutrição na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.
Por exemplo, em Portugal, em 1970 a esperança média de vida à nascença era de 67 anos e, em 2024, ultrapassa os 81 – segundo o portal Pordata. Por outro lado, “as dietas humanas ancestrais eram muito heterogéneas, variando fortemente com a geografia, o clima e a disponibilidade alimentar”, acrescenta.
A especialista em nutrição clínica recorda ainda que a ingestão de gordura saturada deve ser a mais baixa possível, e só se deve comer até um ovo por dia, no contexto de uma dieta equilibrada. Não é aconselhável consumir mais de três porções de carne vermelha por semana. E, quanto ao sal, devemos ingerir menos de cinco gramas por dia. São estas as orientações das principais autoridades e organizações científicas a nível internacional.
Sara Marilyn usa, na maioria das publicações em análise, o mesmo “padrão argumentativo”, observa Gabriela Ribeiro. Parte de uma verdade parcial, como “carne é rica em nutrientes essenciais” ou “ovos são uma fonte incrível de proteína”, para abusivamente recomendar o consumo excessivo de gorduras saturadas, carne vermelha, sal e ovos.
Nenhuma destas recomendações que chegaram a milhares de pessoas nas redes sociais se baseia nos melhores estudos científicos. E acreditar que uma dieta só por ser “ancestral” é melhor corresponde a “uma extrapolação ideológica, não a uma demonstração causal”, conclui a professora da Universidade Nova de Lisboa.
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