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O mineiro Carlos César de Lima, 77 anos, decidiu aproveitar uma viagem de férias a Portugal para comprar um apartamento em Lisboa. Para isso, tinha acertado, ainda no Brasil, se encontrar com uma corretora que lhe mostraria uma série de imóveis para que escolhesse o que mais gostasse. No dia combinado, porém, a profissional teve um imprevisto e pediu que o marido dela, advogado recém-formado, o atendesse. Conversa vai, conversa vem, o advogado recomendou a Carlos que falasse com o chefe dele sobre suas pretensões. E assim foi feito. “Quando disse para aquele senhor que era construtor no Brasil, ele me perguntou por que, em vez de eu comprar um imóvel, eu não construía um em Portugal. Fique com aquilo na cabeça”, conta.
Sem fechar negócio, o mineiro de Juiz de Fora seguiu com a mulher para Paris. Lá, no entanto, com aquela conversa em Lisboa fervilhando na cabeça, ele enviou uma mensagem para um amigo das antigas, Wallace Lima — eles se formaram em engenharia em 1971 e não são parentes, apesar de terem o mesmo sobrenome —, perguntando se ele toparia investir na construção civil em Portugal. Era maio de 2016. “Pensei comigo: se for fazer algo, não seria sozinho. E, para, minha supresa, ele gostou da ideia de estarmos juntos naquele projeto”, relembra.
Foi tanta a sintonia entre Carlos e Wallace, que, em agosto daquele mesmo ano, nascia a Construtora CinzelMarco, já com a compra de um prédio que estava em ruínas na capital portuguesa. “Investimos, em todo o empreendimento, 2 milhões de euros”, diz o empresário. A empolgação inicial com o negócio esbarrou, porém, na burocracia da Câmara Municipal de Lisboa para aprovar o projeto. “Foram três anos de espera. Das ruínas nasceu um prédio com 10 apartamentos e uma loja no térreo. “Eu fiquei com um apartamento, e Wallace, com outro. Os restantes e a loja, vendemos”, acrescenta.
Entraves
O sucesso, contudo, não se repetiu com outro empreendimento na mesma localidade, a Rua de São Bento, próximo à Assembleia da República. Ali, afirma Gabriel Polizzi, 46, que é sócio da construtora, foram investidos 950 mil euros também num prédio que estava quase desabando. “Nesse caso, a burocracia falou mais alto. Foram tantos os problemas, tantas ressalvas feitas pelo engenheiro, pelo arquiteto e pela historiadora destacados pela Câmara Municipal para avaliar nosso projeto, que desistimos. Sequer poderíamos mudar a escada de lugar para instalar um elevador”, ressalta.
O jeito foi passar adiante o empreendimento, que, pelo desenho definido pela construtora, ganharia mais dois andares, totalizando cinco, mais o rés do chão (térreo). “Vendemos o prédio por 920 mil euros, com prejuízo de 30 mil euros”, destaca Carlos. A transação ocorreu em janeiro de 2025 e, até hoje, tudo continua como antes, um prédio em ruínas.
“Creio que o novo proprietário ainda não conseguiu os alvarás para a construção”, frisa. No entender de Gabriel, o excesso de burocracia é um entrave para um país que enfrenta uma grave crise habitacional. Procurada pelo PÚBLICO Brasil, a Câmara Municipal de Lisboa não se manifestou até o fechamento desta edição.
Preferência por Lisboa
Decepção à parte, a CinzelMarco continuou caminhando e investiu em um empreendimento na Calçada da Memória, no bairro da Ajuda, em Lisboa. “Ali temos um prédio com apenas três apartamentos grandes. A perspectiva é de que estejam prontos nos próximos três meses”, comenta Carlos. A empresa também comprou um terreno na freguesia de Melides, que pertence ao município de Grândola, no Alentejo. O empreendimento, que vai consumir cerca de 25 milhões de euros em investimentos, está no início.
“Será um hotel para moradia com oito apartamentos de um quarto, 12 de dois dormitórios, oito de três e quatro de quatro quartos. O prédio terá todo o serviço de hotel, com ampla área de lazer, como sauna, piscina, quadra de tênis, academia de ginástica”, detalha Gabriel, que é genro de Wallace. Ao lado desse empreendimento, batizado de Ruína do Malhadal, a construtora tem outro terreno, de 55 mil metros quadrados, no qual será construído mais um prédio, nos mesmos moldes, em uma segunda etapa.
Ao mesmo tempo em que tocam as obras, Carlos e Gabriel prospectam novas oportunidades de negócios. “Não está fácil encontrar terrenos e prédios devolutos (abandonados) a preços mais acessíveis. Como os imóveis para moradia se valorizaram muito, quem tem terreno ou ruínas está pedindo muito alto. Mas temos certeza de que vamos encontrar algo bom, em que possamos investir”, sublinha Gabriel. Ele deixa claro que as prioridades CinzelMarco são Lisboa e o entorno dela. “Não temos planos de ir para o Norte de Portugal, por exemplo”, complementa.
Trabalhadores em falta
Dispostos a ampliarem os negócios em Portugal, os sócios da CinzelMarco estão negociando com a direção da Câmara Portuguesa de Minas Geral uma forma de tornar mais fácil a contratação de profissionais da construção civil no Brasil. “Estamos lidando com sérias restrições de profissionais qualificados para as obras. E essa situação vem de antes de o governo de Portugal restringir a legislação para imigrantes”, enfatiza Gabriel. “Não há jovens portugueses para trabalhar nas obras e os imigrantes disponíveis não têm a qualificação desejada”, completa.
“Faço parte do Conselho da Câmara Portuguesa e o nosso pleito é de que a entidade negocie com o consulado de Portugal em Belo Horizonte, capital mineira, uma forma de levarmos mão de obra para Portugal legalmente, com todo mundo documentado”, diz Carlos. “Temos bastante trânsito com o consulado português em Minas”, garante. Ele afirma que o programa “Via Verde”, criado pelo governo luso para facilitar a contratação de profissionais no exterior, não atende às pequenas e médias empresas, apenas as grandes.
Para acessar diretamente o “Via Verde”, as empresas devem ter pelo menos 150 trabalhadores contratados diretamente e faturar mais de 20 milhões de euros por ano, exigências que, na largada, exclui, a maioria das firmas portuguesas, incluindo muitas das que mais precisam contratar. “Nós estamos fora desse programa”, assinala Carlos. O “Via Verde” completou um ano recentemente e, nesse período, foram apresentados pedidos para apenas 1.935 trabalhadores, com 1.305 vistos concedidos.
Gabriel conta que, para as obras da construtora que estão em andamento, a opção tem sido por contratar diretamente alguns profissionais, como engenheiros e encarregados, terceirizando as demais funções por meio de empreitadas. “Não há dúvidas de que a escassez de mão de obra é um dos principais entraves para a construção civil em Portugal”, reforça o executivo. Ele afirma, ainda, que os custos com a guerra no Oriente Médio já começam a aparecer, mas sem restrições de matérias-primas. “Esperamos que essa guerra acabe logo”, destaca.
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