Cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos foram dispensadas por dia em 2025 em Portugal continental, totalizando quase 29,4 milhões, o valor mais elevado da última década, com encargos do SNS a rondar os 152 milhões de euros.
Em 10 anos, a venda de antidepressivos e antipsicóticos cresceu 82% e 72%, respectivamente, enquanto as benzodiazepinas (ansiolíticos, sedativos e hipnóticos) registaram uma queda de 6,9%, revelam os dados avançados à agência Lusa pela Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed).
Especialistas em saúde mental apontam como explicações para este aumento o maior diagnóstico e o acesso mais alargado ao tratamento, a substituição progressiva das benzodiazepinas por antidepressivos e antipsicóticos, bem como factores como o aumento de residentes e turistas e as dificuldades no acesso à psicoterapia.
Os dados dizem respeito a medicamentos prescritos e comparticipados, dispensados nas farmácias comunitárias entre Janeiro de 2015 e Dezembro de 2025, período em que as embalagens de psicofármacos aumentaram de 21,6 milhões para cerca de 29,4 milhões (mais 36%). Este aumento teve impacto nos encargos do Serviço Nacional de Saúde, que subiram de 123,1 milhões de euros para 156,6 milhões (mais 24%).
Os antidepressivos foram a classe com maior crescimento, passando de cerca de 7,6 milhões de embalagens para perto de 13,8 milhões (aumento de 82%). A despesa associada aumentou de 33,7 milhões de euros para 63,6 milhões (mais 89%).
O consumo de antipsicóticos, utilizados sobretudo no tratamento de perturbações como esquizofrenia e transtorno bipolar, também aumentou de cerca de 3,2 milhões de embalagens, para 5,5 milhões (mais 72%), mas a despesa pública baixou de 68,8 milhões de euros para 65,7 milhões (menos 4,5%).
Já as benzodiazepinas registaram uma descida, passando de cerca de 10,8 milhões de embalagens para 10,1 milhões (menos 6,9%). Apesar da redução no consumo, os encargos aumentaram de 20,6 milhões de euros para 23,4 milhões (mais 13,5%).
Diagnóstico mais atempado
Num comentário aos dados, a psiquiatra Ana Matos Pires, da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, afirmou que o aumento da prescrição de psicofármacos “é sempre um indicador” de que pode haver “mais pessoas em sofrimento”, mas também que se está “a diagnosticar e a tratar a doença mental grave mais atempadamente.
“Claro que nunca é bom que haja doença mental grave, mas é muito pior que ela exista e não seja tratada”, sublinhou, ressalvando que os antidepressivos não se restringem à depressão, sendo também utilizados em perturbações como ansiedade grave, perturbação obsessivo-compulsiva e dor crónica.
Ana Matos Pires destacou ainda como “boa notícia” a descida da prescrição de benzodiazepinas devido ao risco de dependência. “Estes dados descansam-me porque aquilo que era, e é, uma preocupação de saúde pública, a grande prescrição de benzodiazepinas, está a baixar”, afirmou.
No seu entender, os dados também reflectem maior consciencialização para a doença mental grave e uma procura mais precoce de ajuda, associada à reforma dos serviços e à expansão de equipas comunitárias de saúde mental, que “apanham as pessoas mais rapidamente”.
O presidente eleito da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Albino Oliveira-Maia defendeu, por seu turno, que os dados devem ser analisados, tendo em conta factores como alterações demográficas e a inflação.
O psiquiatra e director da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud afirmou que, com o aumento de residentes e turistas, é de esperar maior necessidade de cuidados, reflectindo-se na venda de medicamentos, incluindo psicofármacos.
Considerou ainda que parte do aumento pode resultar de substituições terapêuticas, sobretudo pela redução da utilização de benzodiazepinas. “Há uma tendência crescente de evitar estes medicamentos”, disse, explicando que alguns antidepressivos e antipsicóticos podem ser utilizados em doses baixas para tratar insónia.
Para Albino Oliveira-Maia, este aumento também pode reflectir uma melhoria no acesso aos cuidados de saúde, mas, alertou, “apesar de estar a melhorar, não está, nem de perto nem de longe, nos níveis” desejados. “O acesso, por exemplo, a outros meios de tratamento, como seja à psicoterapia, é ainda relativamente difícil, tanto dentro como fora do Serviço Nacional de Saúde”, lamentou.
Também o presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Miguel Ricou, defendeu um maior investimento em psicoterapia.
“O aumento [do consumo] mostra claramente a dificuldade de acesso a intervenções alternativas em saúde mental”, mas também a dificuldade de acesso a psicólogos e psiquiatras, o que leva muitas vezes os médicos de família a recorrerem à prescrição de psicofármacos como primeira resposta.
“Sem acesso rápido, cria-se um ciclo de medicação e recaída que é difícil de quebrar”, alertou.
Falhas no acesso a psicoterapia
“Há uma parte importante das pessoas que sofrem de doença mental que não têm acesso aos tratamentos, seja porque não procuram ajuda, ou procurando não a conseguem encontrar”, disse ainda à Lusa Albino Oliveira-Maia.
Esta posição é partilhada por Miguel Ricou, que afirma que, após a pandemia de covid-19, as pessoas procuram ajuda com maior facilidade, mas muitas acabam por “bater na parede” devido à dificuldade de acesso a cuidados de saúde mental.
O psicólogo explicou que a acessibilidade é especialmente crítica nesta área, uma vez que a procura ocorre muitas vezes em momentos específicos. “As pessoas procuram ajuda, não conseguem acesso e depois pode passar muito tempo até voltarem a tentar”.
Quando finalmente conseguem consulta, acrescenta, “podem já não estar no mesmo momento ou disponibilidade para iniciar o acompanhamento”. “É uma pena. Precisamos de promover mais a acessibilidade aos profissionais de saúde mental”, sublinhou Miguel Ricou.
Para Albino Oliveira-Maia, tem havido “uma tendência clara de maior e melhor acessibilidade, tanto a cuidados de saúde primários como, no caso da saúde mental, a cuidados de especialidade”, embora ainda aquém do necessário.
O também director da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud admitiu que parte da prescrição poderá ser evitada caso exista “acesso suficiente e célere a cuidados de outro tipo, como a psicoterapia”.
Miguel Ricou acrescenta que a falta de respostas alternativas ajuda a explicar o aumento do consumo de psicofármacos. “Se não há acesso a estes profissionais, claro que os médicos de família não têm outra alternativa senão receitar”, afirmou, defendendo o reforço de equipas de saúde mental.
Alertou ainda para a necessidade de garantir que os profissionais trabalhem em conjunto e comuniquem entre si. Caso contrário, argumentou, “temos intervenções dispersas, sem consistência nem continuidade”.
Para a psiquiatra Ana Matos Pires os dados podem indicar que “as pessoas estão mais despertas, nomeadamente para a doença mental grave, como as depressões graves e as perturbações psicóticas, e procuram ajuda”.
Ana Matos Pires acrescentou que a reforma da saúde mental e a expansão das equipas comunitárias têm permitido chegar mais cedo aos doentes, o que representa uma melhoria do acesso, mas sublinhou que estas doenças “não se tratam apenas com psicofármacos”, exigindo também intervenções psicoterapêuticas e psico-educacionais.
Albino Oliveira-Maia acrescentou que as doenças psiquiátricas são uma das principais causas de perda de funcionalidade por motivos de saúde, defendendo que o investimento nesta área devia ser proporcional à carga da doença, o que, afirma, não tem acontecido.
“Há, contudo, uma maior atenção ao problema e uma maior exigência das populações para que seja abordado. A expectativa é que se mantenha o progresso, com cuidados de saúde mental cada vez mais abrangentes e de melhor qualidade, tanto no Serviço Nacional de Saúde como fora dele”, defendeu.
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