Culpar o eucalipto não resolve a floresta

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Muitas vezes transformamos debates estruturais em trincheiras ideológicas. Isto passa-se em Portugal com as florestas plantadas, sendo o eucalipto o exemplo mais evidente desta falha coletiva. Raramente discutidos com a serenidade que a gestão do território exige, os eucaliptos tornaram-se o alvo de um ruído alimentado por preconceitos e posições extremadas, onde a condenação absoluta de uns choca com a defesa, por vezes acrítica, de outros. E perde-se o que verdadeiramente importa: a floresta enquanto sistema vivo e sustentável, motor económico e responsabilidade partilhada.

O primeiro passo para um debate sério e consequente passa por reconhecer a complexidade do tema e perceber que uma floresta não é um mero conjunto de árvores. Trata-se de um ecossistema onde interagem o solo, a água, o clima, a biodiversidade e a inevitável ação humana, formando uma realidade territorial e social que é moldada por políticas públicas e escolhas de gestão. Quando se reduz esta teia de interdependências a uma discussão sobre uma única espécie, o resultado é um debate pobre, excessivamente guiado por perceções e falta de conhecimento.

É isto que se tem passado na discussão sobre o eucalipto. Em vez de se enfrentarem os problemas de fundo – tais como a falta de ordenamento do território, a divisão extrema da propriedade, o abandono do mundo rural ou a dificuldade do Estado em regulamentar de um modo eficiente e fiscalizar atempada e consequentemente –, prefere-se a simplicidade de apontar o dedo a uma árvore. O eucalipto funciona, assim, como um álibi conveniente, pois é mais fácil culpar uma espécie do que adotar medidas para resolver a desorganização que marca grande parte da paisagem portuguesa.

Esta simplificação não resolve os problemas e, pior, acaba por escondê-los e aumentá-los. Uma floresta mal gerida será sempre vulnerável, seja qual for a espécie lá plantada, da mesma forma que um território abandonado continuará a acumular riscos. E, no caso nacional, o risco de incêndio em matos e florestas abandonadas é um dos exemplos mais dramáticos. Não será atacando o eucalipto que se apagam décadas de ausência de uma estratégia florestal coerente e focada na resolução dos problemas já há muito identificados.

A presença do eucalipto em Portugal não foi um acidente histórico ou um erro de percurso, mas sim o resultado de uma estratégia pensada que reconheceu o valor desta espécie a nível florestal, industrial, científico e tecnológico, e concretizada em efetivos planos de ação que permitiram construir o importante capital social e económico de hoje.

Importa sublinhar que chegámos a esta posição graças a uma visão de longo prazo, a um investimento contínuo em conhecimento e a uma capacidade da sua aplicação no tecido produtivo. Desde o final do século XIX, Portugal construiu um património científico notável em torno da floresta de eucalipto, e esta capacidade de compreender a ecologia da espécie, melhorar a sua gestão e potenciar a sua aplicação industrial é um caso admirável de competência nacional que nos deve orgulhar e ser reconhecido como tal. Um reconhecimento que ultrapassa o país e que se estende internacionalmente.

O papel e as pastas celulósicas de eucalipto estão nas posições cimeiras do mercado internacional. Para tal contribuem as características de crescimento e adaptação do eucalipto, assim como a qualidade tecnológica da sua madeira que possui fibras de alto desempenho, nomeadamente para a produção de papéis de escrita e impressão. E a indústria, pioneira na utilização do eucalipto, acompanhou as inovações tecnológicas que ocorreram no processo de produção de pasta e papel, integrando os atuais princípios de sustentabilidade.

Mas as plantações de eucalipto são mais do que produtoras de uma matéria-prima para produção de papel. Elas são a base de autênticas biorefinarias, que partem de um recurso renovável, promovem a sua utilização total e integram os princípios da atual era da economia circular. A continuada investigação científica e a inovação permitem hoje utilizar o eucalipto para novos bioprodutos que vão desde as fibras têxteis às embalagens sustentáveis, aos biocompósitos e à energia verde, assim como a produtos naturais para cosmética e saúde.

Para tal contribuíram os trabalhos das universidades e unidades de investigação académicas e industriais, fazendo uma ligação exemplar entre instituições científicas e tecido produtivo nacional.

Reconhecer o mérito do eucalipto não significa ignorar os desequilíbrios ou as más práticas que ocorreram no passado ou as que ainda persistem no território. Antes pelo contrário, eles devem servir para aprender e desenvolver medidas mais adequadas e que respeitem os diferentes valores ecológicos. A verdadeira questão não deve ser o debate simplista do “mais ou menos eucalipto”. A urgência está no “onde” e no “como”, ou seja, com que regras de ordenamento, modelo de paisagem e de gestão, e com que acompanhamento técnico devemos intervir no território. É por aqui que a política pública deve ser avaliada, longe da tentação fácil dos slogans.

Portugal precisa de debater o seu território com ponderação e tendo por base o conhecimento e os princípios de uma gestão sustentável. A floresta é um ativo demasiado estratégico para ser condicionada por ideias feitas, pois dela dependem o equilíbrio ecológico, a vitalidade da economia, a vida das comunidades locais e a capacidade de resposta aos desafios climáticos.

Diferentes visões continuarão a existir sobre a ocupação do território e, especificamente, sobre as plantações de eucalipto e a sua fileira industrial. A discussão continuará, natural e desejavelmente, mas é fundamental que ela se baseie em factos e conhecimento existente, em análise crítica e conclusiva, e sempre num contexto de responsabilidade coletiva. Um país onde a floresta é uma prioridade nacional tem de a discutir de uma forma abrangente, com a visão e o cuidado que a sua complexidade ecológica, social e económica exige, e num contexto global de gestão territorial. Não se trata, como é evidente, apenas de uma espécie!

A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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