De que adianta liberdade sem exercício?

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A Revolução dos Cravos não é apenas um episódio histórico: é o momento fundador da democracia portuguesa contemporânea. Mais de 50 anos depois, o 25 de abril de 1974, continua a ser um marco identitário — mas também um teste.

A memória não é perene — precisa ser cultivada, regada. Quem viveu o Estado Novo está a desaparecer, e com essas gerações desaparece também a experiência vivida da censura, da polícia política, da guerra colonial. Para os mais novos, o 25 de Abril é matéria escolar, não-memória vivida. E aquilo que não se sente na pele tende a perder urgência.

Ainda assim, o passado não desaparece. Quase meio século de ditadura não se apaga em duas ou três gerações. O Estado Novo não foi apenas um regime político; foi também um sistema de formação social que moldou comportamentos. Incentivou a prudência, o recato e a falta de confiança na participação cívica.

Esse legado não desaparece com um decreto. Pode, aliás, ajudar a explicar um traço frequentemente apontado à sociedade portuguesa: uma certa contenção, às vezes confundida com apatia, acomodação, ou prudência excessiva. A civilização que desbravou oceanos, parece ter recuado no tempo e evitar o risco demasiado.

Claro que reduzir comportamentos contemporâneos a heranças da ditadura seria simplista — e injusto. Portugal mudou profundamente nas últimas décadas: urbanizou-se, escolarizou-se, integrou-se na Europa. As novas gerações são, em muitos aspectos, mais qualificadas, mais informadas e mais abertas do que qualquer anterior.

Ainda assim, persistem sinais de uma certa acomodação. Baixos níveis de participação política para além do voto, fraca mobilização cívica em comparação com outros países europeus, uma tendência para delegar decisões. Não é um fenómeno exclusivo de Portugal, mas aqui pode ter raízes mais profundas.

Talvez por isso o 25 de Abril seja vivido sobretudo como memória — mais do que como prática. Celebra-se o que aconteceu, mas participa-se menos no que está a acontecer. E isso levanta uma questão incómoda: de que adianta liberdade, sem exercício?

A resposta não é óbvia, mas talvez passe por olhar para essa data não como um ritual anual, mas como um teste contínuo. Não basta lembrar que a liberdade foi conquistada; é preciso usá-la. E isso exige bem mais do que um feriado e um cravo na lapela.

Todos os anos, milhares de pessoas voltam a encher avenidas, praças e escadarias para assinalar a Revolução dos Cravos. Jovens, que já nasceram em democracia cantam palavras que não viveram, mas que escolheram herdar. E esse movimento é admirável, sem dúvida.

O que talvez não exista — ou não da mesma forma — é o tipo de mobilização permanente associada à ideia de cidadania ativa.

Quase meio século sob o Estado Novo não desaparece de uma geração para outra. Mesmo num país democrático, pode persistir uma relação mais cautelosa com a intervenção pública, uma tendência para agir dentro de certos limites, para não “ir longe demais”.

Por tudo isso, o dia 25 de abril carrega uma legitimidade coletiva para ocupar o espaço público, uma espécie de autorização histórica para se impor sem reservas.

A questão é: o que os portugueses fazem com esse legado nos restantes 364 dias do ano.

Celebrar a liberdade é fundamental — é uma conquista permanente, uma luta diária. Mas o exercício da liberdade não vive só de comemorações; vive do que se faz dela quando o feriado acaba.

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