É inconcebível que tenha sido decidido alterar o perfil dos pavimentos de pedra de Lisboa, motivo de justificado orgulho coletivo ao longo dos últimos 200 anos, copiado por tantas cidades lusófonas espalhadas pelo mundo, e que o Governo alega querer que seja classificado como património mundial, sem debate aberto nem qualquer outra modalidade de participação formal dos eleitores municipais.
Com argumentos capciosos, como por exemplo o de que as pessoas idosas teriam medo de sair à rua, quando hoje em dia o calçado tem por regra sola de borracha aderente, ou o de que os residentes se queixariam do ruído dos pneus dos carros a rolar sobre as pedras, quando o peso dos veículos nunca foi tão leve, ou o de que o custo da manutenção seria incomportável, quando as empresas de calceteiros foram todas literalmente levadas à falência por falta de regularidade na sua utilização, o basalto que cobre as ruas está a ser gradualmente substituído por alcatrão, convertendo-as em estradas, e o calcário que cobre os passeios está a ser substituído por argamassa de pedra.
Faz ainda parte da adulteração em curso do perfil dos pavimentos característico das ruas e passeios da capital a impermeabilização total ou parcial das ruas, sem qualquer consideração pela acumulação de água da chuva no Inverno e de urina animal durante o ano inteiro.
O absurdo nivelamento da superfície das ruas nos bairros residenciais, vulnerabilizando as habitações que ocupam os pisos térreos dos prédios, por baixo de cujas portas passa a poder entrar mais facilmente a água da chuva, e desprotegendo os cidadãos que andam a pé, que deixam de poder fugir das poças que então se formam.
E, finalmente, a implantação sobre sapatas de cimento de placas centrais de pedra industrial, para circulação de motas, bicicletas e trotinetas, que espalham a água da chuva em vez de a absorver, ou de a empurrar para as bermas que acompanham os passeios desnivelados.
A desorientação é tanta que, num mesmo bairro, como por exemplo o do Alto de Santa Catarina, os habitantes assistiram desde o início deste século à aplicação de vários perfis, desde a consolidação dos pavimentos de basalto e de calcário da calçada Salvador Correia de Sá e da rua Fernandes Tomás, sem qualquer nivelamento nem impermeabilização, ao nivelamento das ruas Marechal Saldanha e de Santa Catarina, com conservação dos pisos de basalto e de calcário embora assentes em cimento e, portanto, integralmente impermeabilizados.
Passando pelo alcatroamento da calçada do Combro, ainda que com manutenção dos passeios desnivelados e cobertos de cubos de calcário, e pelo nivelamento em curso das travessas do Alcaide e da Condessa do Rio e das ruas dos Ferreiros e do Sol, com impermeabilização parcial, de placas centrais forradas de blocos de pedra industrial.
Em suma, uma verdadeira cage aux folles perfeitamente evitável se os responsáveis tivessem respeito pelo trabalho manual fabuloso de cantaria com que foram cortados e aplicados os cubos de basalto e de calcário que forravam há dois séculos com imensa dignidade as calçadas, ruas e travessas em apreço, assentes em terra batida e, portanto, permitindo uma absorção imediata de quaisquer líquidos e, graças ao desnível dos passeios, protegendo as habitações térreas e os cidadãos que andam a pé quer das poças, quer dos condutores descuidados.
Este golpe de misericórdia na identidade dos pavimentos das ruas de Lisboa vem, aliás, coroar não só o seu estado de deterioração, graças à negligência de muitas juntas de freguesia, como a progressiva invasão dos passeios por ecopontos, caixas de controle de cabos de fibra de vidro, pilaretes de metal para evitar estacionamento ilegal e postes de sinalização de regras de trânsito automóvel, cuja proliferação só se compreende à luz duma grande indiferença em relação aos munícipes mais pobres, justamente os que residem nos andares mais baixos e andam a pé.
A mesma indiferença que subjaz à tranquilidade com que os responsáveis acham que têm mandato para alterar características plurisseculares da cidade sem nunca se terem preocupado em organizar um único referendo para ouvir a opinião ou submeter-se à vontade majoritária dos munícipes, a cujo serviço deviam, no entanto, estar.
Mas, felizmente, estamos a tempo de salvar os muitos quilómetros quadrados de basalto e de calcário trabalhado à mão por artistas anónimos a quem devemos uma parte tão importante da dignidade de Lisboa e que ainda não foram sujeitos aos caprichos de quem se julga acima deles.
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