Em 2025 e 2026, assistimos a uma das maiores vagas de despedimentos na história da tecnologia. Centenas de milhares de pessoas foram dispensadas em grandes empresas espalhadas por todo o mundo, quase sempre com a mesma justificação: eficiência, optimização e inteligência artificial. Mas, a realidade por trás destes números é mais desconfortável do que o discurso oficial sugere.
Uma parte significativa destes despedimentos não está a acontecer porque a IA já substituiu pessoas, mas porque muitas empresas estão a tomar decisões com base naquilo que acreditam que a IA vai conseguir fazer no futuro. Ou seja, estão a antecipar ganhos de produtividade que ainda não se materializaram efectivamente.
O caso da Klarna tornou-se um exemplo frequentemente citado. A empresa substituiu centenas de trabalhadores por sistemas de IA. O resultado não correspondeu às expectativas: a qualidade do serviço caiu, os clientes notaram a diferença e a empresa acabou por regressar à contratação de pessoas.
Este não foi um caso isolado. Nos Estados Unidos, várias empresas de media e marketing reduziram drasticamente equipas de escrita quando a IA generativa começou a ser adoptada em larga escala. Meses depois, tornou-se evidente que o conteúdo produzido não tinha o mesmo impacto, não gerava os mesmos resultados e não conseguia manter consistência de qualidade. Em muitos casos, essas funções voltaram a ser preenchidas, agora em regime freelance e com custos superiores aos anteriores.
O que inicialmente parecia um movimento de eficiência revelou-se, em várias situações, uma decisão mais cara do que a estrutura de custos anterior.
Este fenómeno está agora a gerar o que acredito que vai ser o maior e mais silencioso “backlash” da história do mercado de trabalho. A confiança dos trabalhadores em sectores altamente expostos à tecnologia está a diminuir, muitos profissionais começam a evitar empresas com historial recente de cortes agressivos e, em paralelo, aumenta a pressão sobre decisões de gestão tomadas de forma acelerada.
Existe ainda um outro paradoxo muito relevante neste processo: as empresas que mais investem em inteligência artificial são, muitas vezes, as mesmas que estão a reduzir equipas que seriam fundamentais para implementar essas tecnologias de forma eficaz e sustentável. Em vez de investirem na requalificação e adaptação das equipas, muitas organizações estão a optar por cortes imediatos, assumindo que a tecnologia irá resolver automaticamente os problemas de capacidade interna.
É aqui que começa a surgir uma segunda camada desta história. Parte destes despedimentos será, muito provavelmente, revertida nos próximos anos, muitas vezes através de contratação offshore. Empresas vão procurar talento qualificado, com custos mais competitivos e experiência internacional, para reconstruir funções que foram eliminadas demasiado cedo. Neste contexto, países como Portugal ganham relevância com o seu talento qualificado, custos ainda competitivos no panorama europeu e uma forte ligação a mercados internacionais. Portugal posiciona-se naturalmente como destino para funções em áreas como People, operações e tecnologia, especialmente num cenário de reestruturação global de equipas.
A questão já não é se este movimento vai acontecer, mas sim quem estará preparado para o aproveitar quando acontecer. Para profissionais e líderes, este é um momento de transição e reposicionamento. Quem conseguir antecipar estas dinâmicas terá vantagem clara num mercado que está a mudar mais depressa do que a maioria das organizações consegue acompanhar. A inteligência artificial vai, sem dúvida, transformar o trabalho. Mas as decisões apressadas sobre pessoas já estão a transformar empresas, e nem sempre no sentido esperado.
A verdadeira questão deixou de ser quem consegue reduzir equipas mais rapidamente. Passou a ser quem consegue reconstruí-las melhor.
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