Diogo Ramada Curto estava, no dia 9 de Abril, para proferir uma das conferências de abertura do colóquio dos 140 anos do nascimento de Marc Bloch e da sua entrada em breve no Panteão da República Francesa, colóquio ou “conferência” (como se lhe chamou) que se realizou na Biblioteca Nacional, de que era director. Entrou no hospital poucos dias antes e faleceu no dia 11. Tendo lido o seu excelente estudo introdutório à recente tradução portuguesa do famoso livro Apologie pour l’histoire ou le métier de l’historien, encontrei dois ou três pontos de discordância. Escrevi-lhe um email com a lealdade de historiador, cidadão e amigo a falar-lhe da minha comunicação triangular no colóquio, em que iria falar de Bloch, da minha geração dos anos 60-70 e do seu texto, no qual manifestava a minha crítica a algumas ideias que ali registava. Respondeu-me com a simpatia de sempre.
Ramada Curto era um espírito polémico, mas leal, como deve ser um cientista, sempre pronto a criticar e a aceitar a crítica que hoje — como diz nesse estudo e eu concordei — é quase inexistente na nossa ciência, sobretudo neste “tempo sem história”. Sucedeu várias vezes durante a sua carreira em que foi um comentador de História sempre pronto a interrogar-se, a combater, mas também disponível para se corrigir.
Recordarei sempre Ramada Curto pela sua frontalidade e por saber que a ciência só avança com a crítica aberta e assinada. Vai fazer falta a sua coluna do Expresso, que é dos poucos periódicos que ainda dignifica a História, o historiador e a sua crítica. E, sobretudo, faz falta a sua presença desassombrada, a que nos habituou, sempre disposta a criticar os que fazem da História uma muleta ideológica e a elogiar obras quase desconhecidas que analisam as realidades ou os seus testemunhos (témoignages, como diria Marc Bloch) com objectividade, sem fazer desta ciência um altar ou um banco dos réus.
Assim, a minha homenagem ao Diogo será a publicação em tempo próximo do meu texto, com o título “Marc Bloch e nós”, incluindo as críticas que lhe faço. Foi para isso que o alertei no email enviado em 26 de Março, a que me respondeu afavelmente logo no mesmo dia e que guardo no meu arquivo pessoal.
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