A pesca de arrasto de fundo traz-nos para o prato cerca de 26% do peixe e marisco selvagem consumidos em todo o mundo. Mas um dos segredos que esconde é que tem prejuízos sociais e ambientais substanciais: entre 2016 e 2021, a actividade das empresas europeias do sector teve custos para a sociedade que podem chegar a 16 mil milhões, conclui um novo estudo.
“O valor líquido global da pesca de arrasto é negativo, e é negativo por uma margem mesmo muito significativa”, comentou, numa conferência de imprensa online, Kat Milleage, a cientista norte-americana da iniciativa Pristine Seas da National Geographic Society que é primeira autora deste estudo.
Em Portugal, apesar de esta indústria ter movimentado 56,3 milhões de euros anuais e assegurar proteínas para a alimentação, assim como empregos, o valor líquido global da pesca de arrasto — que se obtém quando se somam todos os benefícios e se subtraem todos os custos — é também negativo: pode ficar a perder 53,4 milhões de euros, conclui o artigo publicado nesta terça-feira na revista científica Ocean and Coastal Management, por autores ligados à iniciativa Pristine Seas.
O estudo inclui não só os 27 Estados-membros da União Europeia, mas também alguns que não a integram, como a Islândia ou a Noruega. Assim, a nível europeu, a indústria da pesca de arrasto movimentou 4410 milhões de euros anuais no período observado. Mas o lucro real cai para uns mais modestos 180 milhões de euros anuais depois de descontar os custos operacionais, os volumosos subsídios estatais que recebe (1170 milhões de euros anuais) e alguns custos adicionais, como o desperdício da pesca acidental de espécies que não são o alvo (by-catch).
O carbono raspado do fundo
Contudo, o maior contribuinte para que a pesca de arrasto seja ruinosa são os enormes custos das emissões de CO2 provocadas por esta actividade. “As artes da pesca de arrasto de fundo raspam os fundos marinhos, provocando a libertação de carbono que esteve armazenado nos sedimentos durante séculos”, explicou Kat Milleage. Este CO2 é o mesmo que, ao aumentar a sua concentração na atmosfera, aumenta o efeito de estufa e provoca o aquecimento global.
“Quando esse carbono fica disponível na água, e se mistura com oxigénio, uma parte transforma-se em CO2, e descobrimos que estas emissões submarinas são de uma escala equivalente às da aviação global”, disse Enric Sala, explorador em residência da iniciativa Pristine Seas, recordando um estudo publicado em 2021.
Esse estudo, na altura, enfrentou cepticismo. “Disseram-nos que, mesmo que tivéssemos razão, estas emissões submarinas não contavam, porque o Acordo de Paris [para tentar controlar as alterações climáticas] considera apenas as emissões atmosféricas de CO2”, recordou o cientista espanhol. “Portanto, decidimos mostrar que estas emissões submarinas têm um impacto semelhante às da atmosfera”.
O estudo agora publicado é o produto desse tira-teimas. “Juntámo-nos a outros grupos, com a agência espacial norte-americana NASA, e estimamos que metade das emissões submarinas de CO2 chegam à atmosfera no espaço de uma década”, contou Enric Sala. “Como fazemos pesca de arrasto de fundo no oceano de forma industrial desde a década de 1950, basicamente metade de toda as emissões submarinas produzidas por esta forma de pesca estão agora na atmosfera, o que significa que têm o mesmo efeito que as emissões terrestres”, afirmou.
Os custos em Portugal
Ao nível europeu, a equipa calcula que 112,4 milhões de toneladas de carbono vão parar à atmosfera, em média, todos os anos, em resultado da pesca de arrasto de fundo. O custo social da libertação deste carbono pode chegar a 18.150 milhões de euros anuais, na estimativa mais elevada, ou 4870 milhões, na mais conservadora.
Em Portugal, a estimativa é que o impacto da movimentação dos sedimentos e libertação de CO2 tenha custos na ordem de 61,6 milhões de euros — ou 16,5 milhões, na perspectiva mais optimista. Estes custos juntam-se a 19,6 milhões de euros da captura de espécies que não são alvo da pesca (e que normalmente são deitadas fora, mortas), dos 16,3 milhões anuais em subsídios pagos pelo Estado para apoiar a frota (foram registado 79 embarcações em Portugal a fazer pesca de arrasto de fundo) e ainda os 11 milhões de euros (na estimativa mais elevada) das emissões de CO2 directamente relacionadas com o combustível usado pelas embarcações.
Além disto, o CO2 que continua na água do mar contribui para a acidificação do oceano, outra ameaça a muitas formas de vida. “Isto é muito importante em bacias oceânicas pequenas e fechadas, como o Mar do Norte ou o Mediterrâneo”, salientou Enric Sala.
Mudar a narrativa
Só que, chegando aqui, não basta a ciência. Há que enfrentar a narrativa vigente. “Quando apresentámos estes resultados à Comissão Europeia, disseram-nos que como a pesca de arrasto de fundo emprega muitas pessoas, e traz muitos benefícios económicos, é boa para a Europa”, relatou.
Portanto, a equipa da Pristine Seas decidiu fazer um novo estudo para quantificar os benefícios e os custos — bem como valor líquido global — da pesca de arrasto de fundo na Europa. As conclusões, defende, são claras: “O nosso estudo torna claro que a pesca de arrasto de fundo nas águas europeias não é só um desastre ambiental, é também um falhanço económico”, declarou Sala.
É uma nova narrativa que estes cientistas estão a propor para contar o que é e como funciona a pesca de arrasto na Europa. “Os nossos resultados sugerem que as análises de custo-benefício usadas na avaliação das políticas marinhas têm de ir além das estreitas métricas de mercado e abraçar toda a teoria económica sobre valor, para poderem capturar de forma plena as consequências de artes de pesca destrutivas como a pesca de arrasto de fundo”, comentou Rashid Sumaila, economista das Pescas e do Oceano da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, e outro dos autores do estudo.
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