Tinha limpado casas sete dias seguidos. O joelho doía-lhe por causa de uma queda e não tinha dinheiro para comprar um saco para transportar os fatos de Fresno, na Califórnia, para Los Angeles. Mas Elsie Saldaña esperou décadas pela sua grande oportunidade, por isso arrumou as roupas em sacos de lixo brancos e dirigiu-se para o bar de Silver Lake, onde é a artista principal da noite.
No início da semana, Saldaña tinha recebido uma carta do livro dos Recordes do Guiness, nomeando-a oficialmente o drag king mais velho do mundo.
81 anos, décadas mais velha do que as outras mulheres que vão actuar como homens nessa noite. Mas as suas ancas ainda se mexem suficientemente bem para que um membro da audiência lhe tenha perguntado, um mês antes, se foi operada.
Saldaña usa um pouco de maquilhagem para esconder as rugas e o cabelo pintado de preto, mas as ancas são naturais. Se ela as mexer bem esta noite, talvez consiga encantar algumas mulheres.
Sobe um lanço de escadas até à zona de vestir e pendura os sacos do lixo numa prateleira de metal. Saldaña está em Los Angeles há menos de 24 horas e já perdeu a hora da sesta e caiu de cara num passeio, raspando o nariz e o joelho. A queda tirou-lhe a confiança e a energia, e receia desiludir o público. “Estou nervosa”, diz a outro king. “Os meus joelhos estão a tremer.”
Abre o primeiro saco do lixo. Na sua vida normal, Saldaña enche sacos com lixo, mas nesta noite tira de lá um fato western azul — uma oferta de outro drag king. É lindíssimo, acabado de engomar e mais vistoso do que qualquer outra coisa que Saldaña possui. Veste-o e a mulher triste e exausta que era Elsie Saldaña começa a transformar-se. Agora é El Daña.
“Pronto”, diz ao seu próprio reflexo. “Estou pronta.”
Jessica Pons for The Washington Post
Frank Sinatra nos campos
Saldaña tornou-se drag king sem nunca ter visto um. Era 1965. Faltava um mês para fazer 21 anos e, assim que soube que havia um bar gay em Fresno com espectáculos de lip sync, pediu ao dono para a deixar fazer uma audição com La Bamba, de Richie Valens.
Na Califórnia central não existiam drag kings nessa altura, nem quaisquer modelos gays por perto — a menos que se contem os rapazes de São Francisco que se consideravam drag queens. Mas Saldaña não precisou de ninguém para aprender a ser ela própria. Tinha quatro irmãos e, desde que se lembrava, vestia as roupas deles e imitava os seus movimentos. Nos campos onde ela e a família apanhavam figos e algodão, imaginava-se como Frank Sinatra a cantar para uma multidão.
A garganta apertou-se-lhe quando subiu ao palco naquela primeira vez, mas assim que o disco começou a tocar, as ancas tomaram conta dela e, pouco depois, o dono do bar já lhe garantia uma actuação mensal.
As seis décadas que passaram entre a primeira actuação de Saldaña e a mais recente foram, no geral, mais tristes do que felizes. Apaixonou-se e criou um filho, mas ele morreu ainda na casa dos 20 anos. Trabalhava em empregos fisicamente exigentes quase todos os dias da semana e fazia lip sync aos fins-de-semana. Quando chegou aos 60 e muitos anos sem ter encontrado fama, decidiu fazer uma pausa daquilo que mais amava. Saldaña trabalhou, sofreu o luto e tentou não pensar no reconhecimento que nunca teve.
Mas a sorte nem sempre favorece os jovens. Em 2020, quando Saldaña tinha 75 anos, falou sobre a sua vida drag no podcast StoryCorps, da NPR. De repente, as pessoas interessavam-se mais por ela do que alguma vez tinham interessado. A Out Magazine incluiu-a na lista das 100 pessoas gays mais influentes. Começaram a chegar novos convites para actuações. A carreira que ela julgava terminada floresceu de repente.
Em palco, Saldaña torna-se ela própria
Enquanto espera pela sua vez de subir ao palco em Los Angeles, Saldaña olha à sua volta no camarim. Tanta coisa mudou desde a primeira vez que fez La Bamba. O organizador do espectáculo, Mo B. Dick, apareceu em drag num filme de John Waters. E Buck Wylde, um king vindo de Dallas, participou no primeiro reality show de drag kings. Os outros artistas começaram a pôr contorno nos rostos para criar visuais masculinos. A colar bigodes e vestir fatos elaborados. Saldaña não desenha suíças nem pelos faciais. Parece, sobretudo, uma versão mais elegante dela própria.
“Não sei se consigo competir”, diz para si mesma. “Espero que corra bem.” Ajusta o chapéu de cowboy com um suspiro e Buck Wylde pára para lhe dizer como está fantástica. “Temos de a levar ao Texas”, diz Wylde. “Iam adorá-la lá.”
Saldaña anima-se. “Adorava actuar no Texas”, responde.
Jessica Pons for The Washington Post
Por um momento, não consegue evitar imaginar uma vida em que viaja pelo país a entreter pessoas a tempo inteiro. Recebe regularmente a pensão da Segurança Social e trabalha quase todos os dias, mas o dinheiro nunca chega. Na maioria das manhãs, chora a caminho das casas que vai limpar. Saldaña não tem a certeza de algum dia ganhar o suficiente para deixar de esfregar o chão dos outros.
Lá em baixo, um drag king chamado Malcolm Xtasy termina um número quando o organizador anuncia ao público que a próxima artista é uma cabeça de cartaz muito especial. “Esta artista mexicano-americana actua desde 1965. Foi o ano em que eu nasci, por isso isto é mesmo especial”, diz Mo B. Dick. “Recebam no palco El Daña!”
Começou a tocar Bonaparte’s Retreat, um tema honky-tonk dos anos 70 de Glen Campbell, e Saldaña entra em palco aos saltinhos como se ainda fosse 1965. Estala os dedos. Rodopia. Desliza com as botas pelo palco e o público atira punhados de notas de dólar aos seus pés. Gritam de entusiasmo quando ela manda beijos, mas Saldaña não consegue deixar de sentir que a actuação não está ao nível habitual. Será que o público percebe o quão cansada ela está?
Faz uma meia vénia e, durante o intervalo, mistura-se com as pessoas. Só há homens, praticamente — cisgénero ou transgénero — mas ela namorisca com algumas mulheres sentadas numa mesa ao fundo e conversa com dois executivos de televisão que tinham criado o reality show de drag kings. Entrega um cartão a toda a gente com quem cruza o olhar, convencida de que, de alguma forma, esta noite pode decidir o seu destino.
Jessica Pons for The Washington Post
Quando o intervalo termina, Saldaña sente-se revigorada. Guarda o fato western no saco do lixo e desata o outro saco, de onde tira umas calças de imitação de pele. Vai fazer Tom Jones a seguir.
É o seu cantor favorito: exuberante, sexy, tudo aquilo que ela ainda quer ser. Saldaña enfia-se nas calças. Normalmente usa botas de salto nos seus números de Tom Jones, mas receia cair outra vez, por isso escolheu uns “sapatos confortáveis” pretos. “O Tom Jones às vezes também usa sapatos destes”, diz para si mesma. Jones já tem 85 anos e as mulheres continuam a achá-lo sexy, independentemente dos sapatos que usa em palco.
“Eu ainda consigo fazer mulheres desmaiar”, diz e, pela primeira vez nesta noite, soa como se acreditasse mesmo nisso. Saldaña mexe as ancas e diz uma pequena oração. “Senhor, dá-me força”, sussurra. “Envia-me um par de anjos para me ajudarem a dançar.”
Love Me Tonight começa no instante em que diz ámen. Desliza até ao centro do palco e, durante três minutos, tudo o resto desaparece. O joelho não lhe dói. A energia não falta. Esquece os sacos do lixo, o luto e o dinheiro que não tem. O público levanta-se e aplaude, e Saldaña sabe que é uma estrela.
Metade da plateia quer uma selfie ou conselhos de moda e, quando finalmente volta ao camarim, já passaram três horas da sua hora habitual de dormir. “Estou tão feliz”, diz aos outros kings. “É só isso que eu quero. Quero ter felicidade na minha vida.”
Volta a arrumar os figurinos dentro dos sacos do lixo. Na manhã seguinte apanhará o comboio para Fresno e voltará a ser Elsie Saldaña, a mulher das limpezas. Mas talvez — só talvez — alguém volte a ligar-lhe para a contratar. E ela voltará a ser El Daña, por um instante ou pelo tempo que ainda lhe reste.
Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post
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