E os outros?

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O jornal PÚBLICO decidiu dar a conhecer ao país a jovem que José Pedro Aguiar-Branco tanto elogiou no seu discurso de 25 de Abril deste ano. Não fez mal, mas poderia ter feito algo diferente. Resumiu o seu perfil em poucas linhas: “Do piano ao espaço, da corrida à patinagem artística, da leitura à escrita, muitos são os interesses (e os prémios) de Lua Afonso. No Verão, estará na NASA a representar a Europa numa competição.”

Destaco duas palavras-chave nestas frases: “prémios” e “competição”. Embora sem as usar com toda a força, o presidente da Assembleia da República e segunda figura do Estado Português assentou nelas o seu louvor. Se a memória não me falha, destacou os 20 valores em todos os exames e a média de 20 na instituição que frequenta, salvo erro na Beira Interior, bem o facto de ser atleta de competição nalgumas modalidades, leitora assídua, enfim, um claro exemplo de rapariga de sucesso. Teve razão. Merece ser elogiada, mas não merecia ser transformada em estandarte de uma ideologia que está a causar muito maus resultados.

Pensemos de outro modo. Estes elogios, ainda que merecidos, serão mesmo o melhor caminho? Será mesmo o melhor caminho pôr nas camisolas da nossa república elogios que parecem traduzir o lema pouco ou nada cristão de um colégio dito católico da nossa capital, que nas suas “missões” em terras finas “obriga” os seus alunos a trazerem camisolas com a inscrição “protagonistas ou nada”? Aguiar-Branco fez o mesmo que muitas e muitas escolas públicas deste país fazem quando promovem os “melhores alunos” nos seus “quadros de mérito” – ou quando, às escondidas, montam estratégias para deixar à porta raparigas e rapazes que não lhes “interessam” e podem dar má fama às instituições. Praticou um exercício de exclusão. Lamento imenso!

A moça com 20 valores e muitas actividades é um exemplo… Certo! Portugal precisa de muitos como ela. Mas, como lá chegou? Com que apoios familiares? Com que estrutura socioeconómica por detrás? Com que almofadas? Com que estímulos? Com que trampolins? Não merecerá muito maior elogio um rapaz ou uma rapariga que, apesar de todas as rasteiras da vida, quantas vezes violentíssimas, consegue ter média de 14 ou 15 no final do ano, chegar a notas de 13 ou 14 nos exames sem ter explicações bem pagas, resistir à tentação das drogas, do álcool ou de uma vida de gangue, manter-se firme numa família disfuncional ou destruída, labutar como estudante-trabalhador para conseguir tirar um curso universitário, depois dos 18 anos?

Esta ideologia anti-humanista – da “excelência”, do “sucesso”, do dinheiro a sobrepor-se a tudo, da vaidade alimentada, do poder potencial ou efectivo adubado e bajulado, da arrogância que descarta os mais fracos, face da mesma realidade consumista que nos trama todos os dias – não é boa para o nosso país, nem para qualquer país do mundo. Não é sequer aceitável, se ainda dermos algum valor à dignidade de cada ser humano, assente sobre a igualdade, a fraternidade e a liberdade. É, antes, uma inversão de valores que deveria deixar-nos inquietos, incomodados, não estivéssemos todos nós já um pouco envenenados.

É certo que a mais irreverente e discreta das escritoras francesas, Marie Noël, nos disse que “a humildade reconquistará a terra”. O caminho por onde vamos tem sido, infelizmente, o inverso. Continuará a ser durante muito tempo, não tenho dúvidas. Essa vitória, ainda que possível, demorará bastante (se chegar a acontecer). Cantemos, portanto, com Fernando Lopes-Graça: “Acordai!” Se dormirmos, acreditem, não sobreviveremos enquanto comunidade digna desse nome.

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