Em contexto de guerra, os videojogos também servem de arma de desinformação nas redes sociais

0
3

A 1 de Março foi publicado no X um vídeo que, alegadamente, mostrava confrontos entre um navio norte-americano e uma aeronave iraniana. Rapidamente a publicação mereceu a atenção de media que fazem verificação de factos, como a AFP, que concluíram que o vídeo era falso. Ao contrário do que tem sido comum, não estava em causa um conteúdo descontextualizado ou gerado por inteligência artificial. Eram, sim, imagens de um videojogo.

Desde o 28 de Fevereiro, quando um ataque dos EUA e de Israel contra o Irão desencadeou uma nova guerra no Médio Oriente, o fluxo de desinformação nas redes sociais não dá sinal de cessar. No meio do turbilhão de falsidades, os videojogos também têm sido usados como arma de desinformação e veículo de propaganda.

O vídeo supramencionado não é caso isolado. Ainda antes de ter início a Operação Fúria Épica, a página de fact-checking Lead Stories já alertava para a circulação de imagens de videojogos divulgadas como se mostrassem cenários reais de um conflito entre EUA e o Irão. Em Abril, um outro vídeo do género chegou a arrecadar 3,7 milhões de visualizações no X.

Mas a estratégia não é nova. Meses depois de a Rússia invadir a Ucrânia, órgãos como a BBC e a Euronews, já noticiavam que imagens de jogos como o Arma 3 e o Call of Duty estavam a ser utilizadas para criar desinformação em redes sociais como o TikTok. Em Outubro de 2023, a guerra entre Israel e o Hamas também motivou a criação de conteúdo semelhante, escreveu o Axios.

A Bohemia Interactive — estúdio que criou o Arma 3, um simulador de guerra — chegou mesmo a fazer um comunicado sobre a situação: “Ainda que seja lisonjeiro que o Arma 3 simule conflitos de guerra modernos de uma forma tão realista, certamente não nos agrada que possam ser confundidos com imagens de combate da vida real e usados como propaganda de guerra”, escreveu Pavel Krizka, responsável de relações públicas do estúdio. Reconheceu também que o jogo já fora usado para gerar conteúdo relacionado com conflitos no Afeganistão, Síria, Palestina, Índia e Paquistão. Garantiu ainda que estavam a fazer esforços para cooperar com meios de comunicação e fact-checkers para combater a difusão de imagens falsas.

“Sabemos que a utilização de boas imagens é importante para capturarmos a atenção da audiência, ainda para mais numa época de economia da atenção como a nossa”, contextualiza Roger Tavares, professor no Instituto Politécnico de Bragança (IPB) e investigador no Cedri-IPB (Centro de Investigação em Digitalização e Robótica Inteligente), em respostas enviadas por escrito ao PÚBLICO. “A cada ano que passa, os videojogos ficam mais realistas (…) e por isso eles tornam-se uma fonte barata de produção de imagens para os mais diferentes fins. Um videojogo de 60 euros pode ser usado para gerar imagens de um acontecimento”, sem os perigos associados a ter pessoas no local para as captar, explica o professor.

Roger Tavares também alerta para o uso de uma técnica chamada Machinima, que consiste na utilização de videojogos “para a produção de filmes e obras de arte não interactivas”. Ainda que seja uma técnica usada normalmente com uma finalidade “artística ou humorística”, pode ser utilizada para criar conteúdo falso.

Através, por exemplo, da diminuição da resolução das imagens, manipulação dos movimentos de câmara e ajustes no som, é possível criar um conteúdo artificial difícil de distinguir de imagens reais. “Não é ético, mas é extremamente eficaz.”

Videojogos como ferramenta de propaganda

As imagens e a identidade estética de videojogos não têm sido utilizadas somente para gerar desinformação pura. Nos últimos meses também se tem assistido à instrumentalização destes conteúdos para transmitir mensagens políticas ou fazer propaganda.

Como noticiou o PÚBLICO no início de Março, a conta oficial da Casa Branca publicou um vídeo no qual juntou imagens do jogo Call of Duty: Modern Warfare 3, de 2023, com imagens reais de ataques contra alvos iranianos. O vídeo acabou por ser eliminado das redes sociais da residência do Presidente norte-americano, mas outros do género continuam online. É o caso de um vídeo de 6 de Março, que usa grafismos de Grand Theft Auto: San Andreas e de um outro, de 12 de Março, com imagens de Wii Sports.

Sem mencionar a guerra, a Casa Branca também publicou uma imagem com o lema de campanha de Donald Trump “Make America Great Again”, em cima de imagens de Pokémon Pokopia, lançado para a Nintendo Switch 2 este ano. Citada pela BBC, a porta-voz da Pokémon Company Sravanthi Dev garantiu que a empresa não autorizou o uso do seu conteúdo: “Não estivemos envolvidos na sua criação ou distribuição [da imagem] e nenhuma permissão foi dada para o uso da nossa propriedade intelectual (…) A nossa missão é a de unir o mundo e essa missão não está afiliada a nenhum ponto de vista ou agenda política.”

Roger Tavares explicou que nos casos do Pokémon ou do Wii Sports, por exemplo “utiliza-se o conteúdo nostálgico dos videojogos, que remetem à nossa infância e adolescência, quando tínhamos tempo de jogar com familiares e amigos” com o objectivo de fazer com que “o sentimento positivo gerado pelo jogo seja transferido para o político ou para a causa em questão.”

Acrescentou ainda que há alguns jogos “de temática militar” que “podem contribuir para a construção de uma narrativa nacionalista, promovendo a imagem do herói de guerra e a construção de uma visão de mundo do bem contra o mal”. Lembra o título America’s Army, de 2002, um jogo desenvolvido pelo exército dos EUA e que, como escreveu o site de videojogos IGN, foi criado principalmente com o intuito de incentivar cidadãos norte-americanos a tornarem-se militares.

Não sendo conteúdo relacionado por inteiro com videojogos, o Irão também transmitiu na televisão nacional, como noticiou a agência Lusa a 11 de Março, vídeos nos quais surgem personalidades como Donald Trump e Benjamin Netanyahu no formato de personagens de Lego.

Outros vídeos do mesmo estilo, gerados por IA, começaram também a surgir no YouTube. A plataforma, porém, já baniu pelo menos uma das principais contas que difundia estes conteúdos, segundo a France24.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com