O estupor provocado pelo chumbo do pacote laboral, que PSD e Governo consideravam já acordado com o Chega, era o fantasma obrigatório deste congresso do PSD.
Pior: o Governo ficou a perceber que só conta com o voto do Chega quando estiver a governar como o Chega — olhe-se para as leis da nacionalidade — e não enquanto Governo da AD. É uma traição política, mas parece uma traição sentimental: tudo o que eu te dei tu não me dás a mim, uma espécie de verso de Abrunhosa ao contrário.
Se era normal o choro dos congressistas sociais-democratas em transe pelo Chega ter votado contra depois da “negociação”, já totalmente absurda foi a intervenção da ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho. A governante anunciou que quer voltar à carga com o pacote laboral e, pior, tentou comprometer Luís Montenegro com esse objectivo: “Se bem o conheço, lá iremos outra vez fazer esta e outras reformas pelos portugueses e por Portugal.”
Palma Ramalho fez uma pressão impensável sobre o chefe do Governo que já tinha dito, em Abril, que o país não iria “acabar” se o pacote laboral não fosse aprovado. Ao Expresso, Pedro Duarte, que foi agora eleito vice-presidente do PSD, afirmou que a reforma laboral “não é decisiva”. Mas a ministra que tentou meter o primeiro-ministro numa segunda ratoeira foi aplaudida de pé pelos delegados.
Se o Governo quiser entrar em modo suicida, é seguir os conselhos de Palma Ramalho e continuar a afundar-se no lodo do pacote laboral, como andou a afundar-se nestes últimos nove meses, paralisado com o resto.
É provável que tenham sido os nove meses mais inúteis de uma governação, em que o Governo foi descendo progressivamente nas sondagens, chegando ao cúmulo de se apresentar em terceiro lugar neste último barómetro do canal Now. Quem for amigo de Luís Montenegro, deve aconselhá-lo a mudar de assunto o mais depressa possível.
O Governo foi derrotado no Parlamento porque foi derrotado no país: quando na quinta-feira chamou “quase comunista” a André Ventura, Montenegro reconhece que uma parte desta vitória também é da CGTP. Não fora a mobilização dos trabalhadores contra o pacote laboral, desencadeada pela CGTP mas também pela UGT e cidadãos não sindicalizados, e André Ventura teria votado a favor.
Há algo de ingénuo em Montenegro e Hugo Soares quando acreditaram que Ventura aceitaria algo que fosse contra os interesses do seu eleitorado. No Soundbite, o podcast diário de política do PÚBLICO, o Ruben Martins, a Helena Pereira e eu não acreditámos, mas o debate de quinta-feira, em que Ventura chegou a gritar “vitória” no pacote laboral ia abalando as nossas convicções.
Depois da derrota no pacote laboral, o PSD não se podia apresentar no pavilhão de Sangalhos (Anadia) senão em frangalhos. A prova disso foi a montra de ministros convidados para discursar num congresso partidário, incluindo os independentes. É verdade que quando estão no Governo as direcções do PSD e as do PS fazem tudo para anular os respectivos partidos, mas este festival parece relativamente inédito.
O Congresso salvou-se pelo anúncio do primeiro-ministro de uma reforma “socialista”, como veio logo acusar a Iniciativa Liberal, comparando Montenegro ao ex-líder do PS Pedro Nuno Santos, por causa a ideia da criação do Fundo Soberano para “instrumento de autonomia e intervenção do Estado em sectores estratégicos”.
A ideia é social-democrata mas também soberanista — os mais conservadores podem identificar-se com ela. O capital não tem pátria e os centros de decisão estratégicos nacionais morreram quase todos, a começar naquela coisa básica que é a electricidade, com a fúria das privatizações, nomeadamente na troika. Há condições para que esta lei venha a ser aprovada pelo PS, mas também pelo Chega.
Pedro Santana Lopes escolheu Sangalhos para regressar ao seu querido PSD, de onde nunca devia ter saído — afinal o homem, goste-se ou não, é património histórico do partido. O Congresso assistiu também à subida aos céus de Sebastião Bugalho que, de independente catapultado para cabeça de lista ao Parlamento Europeu, passa agora a vice-presidente e porta-voz do partido. Um dos defeitos de Bugalho, a arrogância (que utilizou contra Miguel Albuquerque quando o presidente da mesa do Congresso lhe chamou a atenção para a duração do discurso) pode tornar-se um problema no desejado caminho de, um dia, vir a liderar o PSD.
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