Endurecimento de leis migratórias em Portugal precisa de equilíbrio e visão de futuro

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Portugal vive um momento decisivo na discussão sobre imigração. O recente endurecimento das regras para estudantes estrangeiros reacendeu um debate que, muitas vezes, é tratado de forma simplista, emocional ou até oportunista. Mas basta olhar com atenção para setores estratégicos da economia portuguesa para perceber que a imigração não é um problema a ser combatido. É parte essencial da construção do país contemporâneo.

No mercado imobiliário, essa relação é evidente desde a fundação das casas até a entrega das chaves. Portugal enfrenta há anos um déficit habitacional significativo. Faltam casas, faltam empreendimentos, faltam profissionais especializados e falta capacidade de resposta para uma procura crescente.

Nesse contexto, a mão de obra imigrante tornou-se estrutural para o funcionamento do setor da construção civil. Grande parte dos trabalhadores que hoje ajudam a erguer prédios, reabilitar imóveis históricos e acelerar projetos imobiliários vêm de outros países. Sem essa força de trabalho, o ritmo de crescimento seria ainda mais lento. O impacto não seria apenas no imobiliário, mas em toda a economia portuguesa.

Ao mesmo tempo, há outro lado dessa equação que raramente recebe a devida atenção. Muitos dos próprios compradores do mercado imobiliário português também são imigrantes. Pessoas que escolheram Portugal para viver, investir, trabalhar, estudar e criar os filhos. São brasileiros, angolanos, franceses, estadunidenses, venezuelanos, britânicos, ucranianos e outras nacionalidades que chegaram nos últimos anos no país.

Vivemos essa realidade diariamente, com uma equipe formada por profissionais de mais de 30 nacionalidades diferentes. E isso não acontece por acaso. O mercado imobiliário internacional exige compreensão cultural, sensibilidade e capacidade de criar pontes reais entre pessoas e países.

Um imigrante entende profundamente o que outro imigrante sente quando chega a um novo país. Compreende os receios, as dúvidas burocráticas, o choque cultural, as expectativas e até as inseguranças emocionais envolvidas numa mudança de vida. Isso não é apenas diversidade. É inteligência de mercado.

Portugal construiu, ao longo dos últimos anos, uma reputação internacional associada à segurança, qualidade de vida, estabilidade e acolhimento. Esse posicionamento teve impacto direto na atração de talento, investimento e empreendedorismo estrangeiro. Fechar portas de forma abrupta ou transformar a imigração num bode expiatório para problemas estruturais pode gerar consequências econômicas difíceis de reverter.

Naturalmente, qualquer país tem o direito e o dever de organizar os seus fluxos migratórios. O debate sobre regras, fiscalização e capacidade de integração é legítimo. Mas é preciso evitar narrativas que colocam o imigrante como ameaça à sociedade portuguesa. Na prática, o que vemos diariamente é uma relação de ajuda mútua.

Os imigrantes ajudam Portugal a crescer economicamente, ocupam funções essenciais, pagam impostos, empreendem, consomem, criam empresas e movimentam setores inteiros da economia. Em contrapartida, Portugal oferece segurança, oportunidades, estabilidade institucional e uma nova perspectiva de vida para milhares de famílias. Essa troca produz crescimento para ambos os lados.

A imigração não deve ser vista apenas como uma estatística administrativa ou um tema político momentâneo. Deve ser entendida como uma questão humana, econômica e estratégica para o futuro do país. Num mundo cada vez mais global, os países mais fortes não serão os que se fecharem. Serão os que souberem integrar talento, diversidade e capacidade de adaptação sem perder a sua identidade. Portugal tem condições de continuar a ser um desses países.

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