Entre a memória e a simulação

0
8

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.

Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Artistas falecidos voltam à cena. Vozes são recriadas. Rostos reconstruídos. Não é mais só homenagem. É reencenação. Quem vive depois da morte na era da IA? Há alguns anos, o audiovisual encontrou uma forma de driblar o tempo. A inteligência artificial não chega apenas como ferramenta, mas como tecnologia de permanência, uma extensão pós-vida mediada por dados.

Quando vemos um artista morto “atuando”, o que assistimos: tributo, simulação ou uma nova presença artificialmente construída? A IA não sente, mas aprende padrões. Não lembra, mas reorganiza. Não vive, mas performa presença. E o espectador completa. Cinema e TV sempre trabalharam com construção, mas agora simulam não só situações, simulam pessoas. E, como toda ruptura real, isso causa desconforto. Principalmente porque funciona. Funciona porque reconhecemos. E a memória não distingue tão bem o real do reconstruído.

Na série Black Mirror, no episódio Be Right Back, uma mulher interage com uma versão sintética do parceiro morto. Em 2013, quando foi lançado, parecia extremo. Hoje, soa como um ensaio. Já no novo título com Nicole Kidman, no streaming, a série Scarpetta, a IA associada a uma pessoa falecida se torna um personagem central, expandindo esse limite.

Não se trata mais de simular comportamento, mas de criar continuidade narrativa mesmo quando o enredo encerra uma vida. O que antes eram fantasmas, agora são presenças conduzidas por roteiro. A morte, então, deixa de ser fim e passa a ser variável técnica. Se a presença pode ser reconstruída, o que acontece com a despedida?

O audiovisual sempre foi uma tecnologia de memória. Agora, se aproxima de algo mais instável: permanência simulada. E, talvez, o exemplo mais emblemático disso não esteja na ficção, mas na publicidade. Quando Elis Regina reaparece em 2023, numa campanha décadas após sua morte, dividindo a cena com a própria filha, o impacto não vem apenas da tecnologia, vem da sensação de reencontro. Mas o que exatamente encontramos ali? Uma homenagem, uma reconstrução ou uma nova forma de presença que já não pertence nem ao passado nem ao presente?

Como pesquisadora, escolho olhar para esse cenário com cautela, mas também com otimismo. Quando há respeito aos direitos autorais, à memória e ao contexto das obras, a tecnologia deixa de ser apenas provocação e passa a ser possibilidade. O que antes era limite pode se tornar continuidade. E o sonho de eternizar uma obra, sem apagar sua origem, fica mais palpável do que nunca.

A IA não revive pessoas. Ela amplia a forma como nos relacionamos com aquilo que elas deixaram. E talvez o futuro do audiovisual esteja menos em recriar o passado e mais em decidir, com responsabilidade, como queremos continuar contando essas histórias.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com