O escritor Jorge Luís Borges desconfiava dos aniversários. Considerava-os ocasiões suspeitas em que se obriga as pessoas a sentir, num determinado dia, o que naturalmente não estariam a sentir nesse dia. Por ser cego, tinha a vantagem involuntária de não ver os bolos; por ser velho, a desvantagem de os ver aumentar em frequência.
Desconfio que havia uma razão para lá do humor. Os aniversários, sejam eles civis ou domésticos, partilham uma estrutura comum, que nos convoca a sentir num dia preciso emoções que, se fossem genuínas, não precisariam de convocação. Celebra-se como quem toma um calmante contra o esquecimento, o que é útil, mas não deve ser confundido com lembrança. Lembrar implica um movimento ativo; celebrar, na maior parte dos casos, é sobretudo comparecer.
Há aniversários de tudo: aniversários de casamento, de divórcio (mais discretos), de batalhas ganhas e perdidas, de independências, de revoluções… Isto tem o seu mérito (a memória, sobretudo coletiva, é distraída), mas também atrai alguma hipocrisia. É possível comparecer ao aniversário de qualquer coisa sem ter relação com aquilo que se está a celebrar. Vê-se nos casamentos em que um convidado qualquer faz discursos sobre a união a dois enquanto vai no terceiro divórcio. E vê-se, sobretudo, nos aniversários patrióticos em que as mesmas pessoas que passaram o ano a votar contra o espírito de uma certa data comparecem, nessa data, a discursar sobre o seu alcance imortal.
O 25 de Abril é dos aniversários mais vigiados do calendário português e, por isso mesmo, dos mais sujeitos a esta forma de comparência. Celebra-se com entusiasmo por gente que, fora do dia, se comporta com alguma indiferença ao que dali veio. Celebra-se por gente que, no dia seguinte, voltará a ter a certeza de que a democracia é cansativa e que votar é uma chatice quando calha num fim-de-semana de sol. Celebra-se com cravos, às vezes de plástico, em mãos que não tornaram a pegar em cravos verdadeiros desde o ano passado e que voltarão a não pegar até ao próximo 25.
Nada disto é particularmente grave. É o modo como quase todas as comemorações funcionam, e atirar pedras à hipocrisia dos aniversários é fácil de mais para ser interessante. O problema, se é que há um, está noutro sítio: o aniversário começa a substituir aquilo que celebra. Celebrar o aniversário de um casamento não substitui o casamento no dia seguinte, que continua a precisar da companhia paciente no almoço, da conversa que se arrasta depois do café, das discussões ou do silêncio. E celebrar o aniversário de uma revolução não substitui, no dia seguinte ao aniversário, os gestos que a prolongam.
O 25 de Abril, em particular, nunca foi um evento, foi um começo. Os começos não têm aniversários. Têm continuações, ou abandonos. Aquilo que se decide celebrar todos os anos não é a data em si, mas a pergunta que ela deixou em aberto: se ainda estamos, coletivamente, a prolongá-la, ou se apenas a visitamos uma vez por ano para verificar o número de voltas. A resposta a essa pergunta não se dá em discursos a 25; dá-se no dia 26, quando as bandeiras já foram arrumadas.
Borges, de resto, também celebrava os seus aniversários, mas nunca confundiu a data com a vida. O 25 de Abril merece esse mesmo cuidado. É uma data porque houve um dia; mas é sobretudo uma vida, que se foi e vai prolongando, ou não, no que fazemos entre dois Abris.
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