Há uma verdade desconfortável que ainda não entrou no debate público: a crise da água acabou. Não porque tenha sido resolvida, mas porque evoluiu para algo pior.
Segundo o relatório Global Water Bankruptcy, muitos sistemas hídricos já não estão em risco — já colapsaram. Vivemos hoje num estado de falência hídrica, em que o uso ultrapassou de forma permanente a capacidade natural de reposição, tornando impossível regressar ao equilíbrio anterior, podemos encontrar isto nas páginas 42 e página 66 deste relatório. A ideia de “recuperação” é, neste contexto, uma ficção confortável.
Os dados não deixam margem para dúvidas. Cerca de 70% da água doce global é consumida pela agricultura. Setenta por cento dos grandes aquíferos estão em declínio. Mais de 30% da massa glaciar desapareceu desde 1970. No relatório, podemos ler que “o sistema terrestre no Antropoceno está a operar fora do intervalo de variabilidade que sustentava as condições relativamente estáveis do Holoceno, sob as quais as sociedades humanas se desenvolveram”. Já ultrapassamos o limite planetário da água doce.
Isto é um limite físico. E, ainda assim, continuamos a agir como se a água doce fosse um detalhe ou algo que está ali para sempre.
Falamos muito na urgência real de abandonar os combustíveis fósseis. Mas sempre que se tenta discutir a forma como essa transição está a ser feita, o que ela exige e a necessidade de não repetir padrões, o debate é evitado. Da mesma forma que não se chega a acordo para um de saída dos fósseis, como vimos durante a COP 30 em Belém. Menos ainda se fala do que isto nos custará em termos de água.
A produção de energia, mesmo renovável, não é imaterial. Exige território, materiais, energia… e água. Centrais solares, hidrogénio verde, mineração de minerais críticos — tudo isto depende de recursos hídricos já sob pressão, num esforço interminável para repetição de padrões assentes em crescimento e lucro.
Nesta senda de crescer, fazer mais, mais depressa e com mais lucro, mantendo o controlo de todo o conhecimento, surge um novo protagonista que raramente entra nesta equação: os data centers.
A infraestrutura digital que sustenta a economia contemporânea — inteligência artificial, armazenamento em cloud, serviços online — consome quantidades significativas de água para arrefecimento. Em zonas onde a escassez já é estrutural, esta pressão adicional não é neutra. É concorrencial.
Estamos, na prática, a colocar diferentes usos da água a competir: consumo humano, agricultura, energia, tecnologia, Mas não estamos a discutir quem ganha. Porque não é só uma questão ambiental. É uma questão de poder.
Quando 2,2 mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável segura, e 3,5 mil milhões vivem sem saneamento adequado, a questão tem uma dimensão real social. A questão é sobre direitos, igualdade, sobre género (porque as primeiras vítimas são mulheres e meninas) — a questão é de escolha política.
Quem decide para onde vai a água? Quem ganha? Quem está disposto a aceitar perder? É um jogo que se desenvolve no tabuleiro político onde muitas vezes vemos negociações intermináveis e inconclusivas. Na tentativa de chegar a um acordo de todos, mas porque ninguém quer perder dinheiro e poder, não se dá, na realidade, nenhum passo concreto.
O relatório é claro: numa situação de falência, a prioridade tem de ser garantir necessidades básicas humanas e serviços essenciais. Tudo o resto vem depois. Mas a realidade mostra outra coisa: decisões tomadas longe dos territórios, projetos impostos sem participação, recursos apropriados para fins económicos enquanto comunidades enfrentam escassez. “Os fluxos financeiros determinam quais as infraestruturas que são construídas e quais os sistemas de produção que são expandidos ou desativados” — o que desequilibra a balança da decisão em favor do lucro.
A transição energética, tal como está a ser desenhada em muitos casos, corre o risco de repetir o padrão: concentração de poder, externalização de impactos e uma promessa de benefício coletivo que nem sempre se concretiza localmente E sabemos que, sem justiça hídrica, não há transição justa.
O maior erro é continuar a planear como se a água fosse infinita. Continuamos a expandir modelos agrícolas intensivos em regiões em declínio hídrico. Continuamos a instalar infraestruturas energéticas sem avaliar a disponibilidade real de água. Continuamos a digitalizar a economia sem contabilizar o custo hídrico invisível.
É uma contabilidade criativa perigosa: gastar o que já não temos.
O relatório deixa claro que o futuro não será de abundância, mas de gestão de escassez. Reduzir a procura, redistribuir usos, reformar instituições, eliminar desperdício e usos ilegais . “Exige uma ação coordenada em vários níveis — local, nacional, regional e global — e em domínios políticos que, historicamente, têm tratado a água como uma preocupação secundária”, refere o relatório.
Não há atalhos tecnológicos que substituam essas decisões. Não há desvios de leito de rios nem grandes operações de engenharia, por mais apelativas que sejam em documentos, que consigam resolver o problema repetindo soluções que já se demonstraram falhadas.
O que está em causa é o presente. Há cidades que já chegaram ao “Day Zero”. Há aquíferos que não se recuperam. Há territórios onde a água já é um fator de exclusão — e no entanto, continuamos a tratar esta realidade como um problema de amanhã.
A água não é apenas mais um “recurso” a ser explorado para o crescimento económico. É o limite que define tudo. Podemos discutir modelos energéticos, inovação tecnológica ou crescimento económico. Mas, sem água, nenhuma dessas discussões se sustenta. A escolha que temos pela frente é entre reconhecer os limites ou colidir com eles.
A falência hídrica já está em curso. Já está a definir quem tem acesso, quem espera, e quem fica de fora, por isso a verdadeira pergunta passou a ser política: quem vai pagar o preço da escassez… e quem ainda terá água quando ela deixar de chegar para todos.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com






