Falhanço: não vi em Saltillo o ladrão Miguelito – nem o dinheirito

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Esta crónica deveria ser uma reportagem. Ou um perfil. Quem sabe uma entrevista. Um perfil-reportagem-entrevista seria óptimo. Na verdade, qualquer coisa seria boa na hora de escrever sobre Miguelito Carranza – de preferência com discurso directo deste malandro mexicano. Perdão: deste ladrão mexicano.

Ao vir para Saltillo, este era um dos principais objectivos: descobrir o homem que roubou a selecção portuguesa há 40 anos.

Em 1986, a FIFA destacou um cidadão local para servir de apoio à comitiva nacional. Paulo Futre lembra-se bem dele: “Toureiro? Cowboy? Mariachi? Facilitador de serviços femininos? Ele era tudo isto. E advogado. E estafeta. E tudo o que quisessem que ele fosse”.

“Dizia que quem quisesse meninas poderia falar com ele e que ninguém tinha de passar noites sozinho. E oferecia marijuana e haxixe. Ele era o homem”, conta.

Um dia, os portugueses quiseram fazer compras nos Estados Unidos. A distância ao Texas não era grande para alguém lá ir, mas era grande o suficiente para não serem os jogadores a fazerem a viagem.

E Miguelito Carranza, como bom facilitador de serviços, chegou-se à frente. Recolheu a lista de pedidos da selecção nacional e centenas de contos em dinheiro. “A mim felizmente não roubou nada. Essa história do ‘toma lá dinheiro e depois traz’ nunca funcionou comigo”, recorda Paulo Futre. E teve bom instinto para a ratoeira.

Os produtos nunca chegaram ao hotel La Torre. Nem Miguelito – e muito menos o dinheirito. O homem desapareceu e os jogadores portugueses ficaram sem compras e sem dinheiro. “Era um grande artista. Deu-lhes uma banhada monstruosa”, recorda Futre.

Vim para Saltillo com a ilusão de o encontrar. Seria pedir demasiado? Talvez. Mas e se o encontrasse? E se ele, passados 40 anos, até quisesse falar? Afinal, seriam crimes prescritos. E será que ainda faz recados a equipas de futebol?

Perdi a conta às vezes que o nome “Miguelito Carranza” saiu da minha boca aqui em Saltillo. E sim, tentei a ginga de um sotaque espanhol formidável: ele foi sempre o “Miguélító”. Nada feito. Por aqui, é uma espécie de fantasma local.

Até deixar de ser. Numa das conversas em cafés locais, o nome soou um alarme a uma pessoa. “Miguelito Carranza? Conheço um Miguel Carranza, mas nunca ouvi como “Miguelito”. Não sei se é o mesmo…”.

Eu também não sabia, mas senti cheiro a lotaria. Senti-me mais perto do que nunca de juntar jornalismo, histórias de futebol e anos de investigação de sofá no Inspector Max. Tudo num texto só. Mas o tremelique durou poucos minutos: pela idade, esse Miguel não poderia ser o Miguélító – o nosso Miguélító.

Dir-me-ão que não encontrei o ladrão. A esses respondo que também não encontrei ninguém que dissesse que ele nunca existiu.

Vou hoje para o Texas. Amigo Miguelito, eu ainda não desisti…

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