Festival de BD de Angoulême já tem nova organização, mas 2027 continua periclitante

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O ano está perdido, visto que a edição de 2026 do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême foi cancelada, mas o grupo Morgane, que gere os festivais musicais Francofolies e Printemps de Bourges, foi escolhido para organizar o mais prestigiado festival da nona arte a nível mundial a partir de 2027. Porém, a empresa que até aqui tinha a seu cargo o evento, a 9e Art+, contesta a decisão e diz que está contratualmente ligada ao festival até ao próximo ano.

O anúncio de que a organização do festival foi entregue a novas mãos veio da Associação para o Desenvolvimento da Banda Desenhada em Angoulême (ADBDA), que supervisiona o festival desde 2017 e que decidiu afastar a 9e Art+ na sequência da crise que se abateu sobre o festival francês: um rol de denúncias de assédio sexual, irregularidades laborais e má gestão que remontam a 2025. Pareceria que a empresa 9e Art+, que organizou o festival até 2025 e foi destituída após os fortes protestos de que foi alvo e o cancelamento da edição deste ano, ficaria definitivamente para trás. Não será totalmente assim.

Para já, o que se sabe é que Angoulême, como o festival é singelamente conhecido, ficará entregue a um grupo independente que agrupa filiais de produção de eventos e do audiovisual, dirigido por Marie Parisot, ex-executiva das editoras Dargaud e Les Humanoïdes Associés, e Céline Bagot, fundadora do Festival Pop Women em Reims e, mais importante, coordenadora-geral e relações públicas do Festival de Angoulême entre 2016 e 2019. O grupo Morgane foi um dos quatro candidatos ao concurso aberto para substituir a 9e Art+ e a ADBDA escolheu a sua proposta por ir “ao encontro das expectativas de toda a indústria em termos de padrões artísticos e diversidade estética”, lê-se no comunicado à imprensa, citado pela agência AFP.

A ADBDA foi criada por iniciativa governamental em 2017, reunindo autoridades públicas e agentes do sector da banda desenhada (editores, artistas, sindicatos) para supervisionar o festival. O seu papel foi particularmente visível nos últimos meses, desde que se agigantaram as críticas à organização de Angoulême.

Porém, a 9e Art+ interpôs entretanto uma acção judicial cível contra a ADBDA por “apropriação brutal” do festival, exigindo uma indemnização de 300 mil euros pela não-realização do evento em 2026. Depois de 20 anos à frente de Angoulême, a 9e Art+ acusa a ADBDA de “parasitismo” e “concorrência desleal”. Com ela está a associação FIBD, detentora dos direitos do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême desde a sua criação, em 1974.

Ambas as entidades acusam a ABDBA de tentar “assumir o controlo” do evento num quadro em que a 9e Art+, por contrato, teria a seu cargo a organização do festival até 2027, inclusive. Pretendem, por isso, impedir a realização do festival no próximo ano, porque se trataria, alegam, de um evento alternativo. A audiência está marcada para 20 de Maio, em Angoulême, após dois reagendamentos.

Entretanto, montar a próxima edição do festival, que anualmente recebe cerca de 200 mil visitantes, começa a tornar-se uma operação problemática, porque vai diminuindo a margem de tempo necessária para convidar autores e abrir candidaturas.

Boicote e queixas

Nos últimos anos, a organização do Festival de Angoulême foi sendo sucessivamente questionada: uma carta aberta subscrita por mais de 2500 autores, outra em que 20 vencedores do Grande Prémio de Angoulême exigiam mudanças na gestão do evento, um manifesto assinado por 258 autoras e autores que denunciavam práticas estruturais de sexismo, abuso sexual, nepotismo, irregularidades na gestão, violação de direitos laborais (ausência de contratos para directores artísticos, incumprimento dos limites de horário de trabalho), silenciamento de denúncias (uma funcionária da 9ᵉ Art+ apresentou queixa, em 2024, por uma alegada violação que terá acontecido à margem do festival e foi despedida, por exemplo). Paralelamente, várias profissionais da banda desenhada denunciaram casos de violência sexual de que terão sido alvo, alguns dos quais em Angoulême.

À boleia deste movimento liderado pelos colectivos BD Egalité e MetooBD, o festival viu-se confrontado com um boicote feminino em 2025 e pela primeira vez os autores passaram a ter um papel na organização do festival e na ADBDA, contextualizou em Novembro Jul Maroh, autora de O Azul é a Cor Mais Quente, novela gráfica que deu origem ao filme A Vida de Adèle, de Abdellatif Kechiche, num post na rede social Instagram.

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