Furiosa AI instala sede europeia em Lisboa para desenhar chips de inteligência artificial

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Fundada em 2017 na Coreia do Sul, a Furiosa AI nasceu com o objectivo de desenvolver chips de elevada eficiência energética para aplicações de inteligência artificial, posicionando-se como uma alternativa aos processadores gráficos (GPU) da Nvidia. Segundo os dados divulgados pela empresa, a proposta passa por oferecer soluções de alto desempenho que permitam reduzir custos e a dependência de fornecedores tradicionais de semicondutores. Este percurso culmina agora com o anúncio da abertura da sede europeia em Lisboa, uma decisão que a administração da tecnológica justifica com a existência de um ecossistema consolidado no desenho de chips e centros de dados alimentados por energia limpa em solo nacional.

Em entrevista ao PÚBLICO, Nuno Lopes, director da Furiosa AI Europa e professor no Instituto Superior Técnico, explicou que o factor determinante para esta escolha foi a densidade de talento altamente especializado no país. “Portugal possui uma vantagem competitiva rara: uma comunidade académica de excelência na área de compiladores”, afirmou o responsável, sublinhando que, enquanto muitos países europeus perderam esta competência, o sistema de ensino nacional continuou a formar especialistas de topo.

O novo escritório lisboeta não terá apenas funções administrativas; a empresa assegura que o local vai concentrar as operações comerciais, o suporte técnico para toda a Europa e, sobretudo, a investigação e desenvolvimento (I&D) em compiladores e desenho de chips e placas de circuito impresso (PCB). Para Nuno Lopes, este pólo tem condições para ser o centro de I&D mais importante da Furiosa AI fora da Coreia do Sul, estando já em curso a contratação de engenheiros de microelectrónica e especialistas em software.

Chips criados à medida da IA

O mercado da inteligência artificial é actualmente dominado por gigantes como a Nvidia, AMD ou Intel, cujos orçamentos de investigação ascendem a dezenas de milhar de milhões de euros. Para competir neste cenário de “David contra Golias”, a Furiosa AI aposta numa arquitectura que descreve como sendo um “bisturi”.

Nuno Lopes defende que os GPU tradicionais são “canivetes suíços” desenhados originalmente para gráficos, carregando um peso morto de circuitos que a inteligência artificial não utiliza. Em contraste, o chip RNGD da tecnológica coreana foi desenhado exclusivamente para esta tecnologia, priorizando a eficiência no movimento de dados. O director da empresa aponta o “muro da memória” como o maior desafio actual: aceder à memória consome muito mais energia do que a operação aritmética em si. A arquitectura do RNGD foi pensada para reduzir estes acessos, prometendo uma eficiência que as arquitecturas legadas dos concorrentes têm dificuldade em replicar.

Outra diferenciação técnica reside no nível de abstracção. Simplificando, enquanto os GPU precisam de recorrer a passos intermédios para “traduzir” instruções originalmente criadas para processamento gráfico em instruções para IA, os chips da Furiosa AI fazem esse processamento nativamente. O que, segundo a empresa, garante uma execução mais fluida e eficiente do código.

Menor consumo energético

A Furiosa AI afirma que os produtos que desenvolve, como servidores e placas aceleradoras, são particularmente atractivos para organizações com infra-estruturas mais antigas. Ao contrário dos sistemas que exigem arrefecimento líquido e potências eléctricas muito elevadas, o RNGD opera em centros de dados com arrefecimento a ar, o que poderá eliminar a necessidade de obras de adaptação dispendiosas.

Esta característica é central para a estratégia da empresa em Portugal. Nuno Lopes revelou que a esmagadora maioria dos centros de dados instalados no país não tem capacidade para soluções baseadas em GPU devido a limitações na rede eléctrica ou nos sistemas de refrigeração. “Aqui reside a nossa oportunidade: o RNGD é extremamente eficiente e, portanto, pode ser usado em qualquer centro de dados”, explicou o executivo ao PÚBLICO, acrescentando que estão em curso negociações avançadas com duas multinacionais que operam infra-estruturas em Portugal.

A nível global, a viabilidade da tecnologia tem sido reforçada por parcerias com outros grupos coreanos. A Samsung SDS lançou um serviço cloud suportado pelo chip RNGD, enquanto a LG AI Research desenvolveu uma solução integrada que usa este hardware para operações locais, sem necessidade de ligação à internet.

Soberania e retenção de talento

A instalação da sede em Lisboa é também apresentada pela Furiosa AI como um contributo para a autonomia tecnológica europeia. Num período em que a União Europeia investe na construção de infra-estruturas através de programas como as AI Gigafactories, a presença de uma alternativa de alta performance em solo nacional poderá reduzir a dependência face a fornecedores de uma única geografia.

Do ponto de vista do mercado de trabalho, Nuno Lopes acredita que a fixação deste pólo de engenharia vai permitir reter talentos que, de outra forma, escolheriam a emigração. A empresa compromete-se a colaborar com universidades e centros de investigação locais, procurando integrar o cluster nacional de semicondutores. Para o especialista, o facto de o mundo da inteligência artificial utilizar hoje ferramentas que são agnósticas ao hardware, facilita a adopção de novas arquitecturas. A ironia, nota o director da Furiosa AI Europa, é que as próprias ferramentas de programação assistidas por inteligência artificial estão a dissipar a vantagem histórica de ecossistemas fechados, abrindo caminho para novos operadores no sector.

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