Atingir a meta de zero emissões energéticas líquidas até 2040 na Península Ibérica é técnica e economicamente viável, antecipando em dez anos os objectivos actualmente previstos nos planos da União Europeia.
Essa é a principal conclusão do relatório da Greenpeace Energia para viver melhor, elaborado pelo Institute for Sustainable Futures da Universidade Tecnológica de Sydney (UTS‑ISF) para a Greenpeace Espanha e Portugal, com base em modelação energética detalhada e dados públicos recentes.
O estudo responde simultaneamente à emergência climática e à inflação dos combustíveis fósseis que afecta os orçamentos familiares, propondo um sistema capaz de assegurar necessidades energéticas compatíveis com uma vida digna e com a limitação do aquecimento global a 1,5°C, em consonância com os restantes limites planetários.
Três pilares para mudar o sistema
O modelo proposto assenta em três eixos operacionais: suficiência energética, eficiência técnica e fornecimento de energia a partir de fontes 100% renováveis. O roteiro exclui explicitamente a energia nuclear e as tecnologias de captura e armazenamento de carbono, apostando antes na electrificação directa, na redução da procura final de energia e no abandono completo dos combustíveis fósseis até 2040.
“O relatório prova que é tecnicamente viável e economicamente sensato alcançar a neutralidade climática até 2040, dez anos antes da meta definida pela Comissão Europeia”, afirma Toni Melajoki Roseiro, director da Greenpeace Portugal.
O estudo demonstra ainda que Portugal dispõe de recursos renováveis suficientes — nomeadamente solar e eólico — para sustentar esta trajectória sem dependência estrutural de importações energéticas.
Transição compensa para Portugal
As conclusões relativas a Portugal evidenciam que a transição energética representa uma oportunidade económica mensurável — aliás, a adopção da trajectória de suficiência prova que a descarbonização acelerada praticamente “paga-se a si própria”.
O cenário de suficiência (E4.1) exige um investimento médio anual de cerca de 3,4 mil milhões de euros até 2040, inferior aos 3,6 mil milhões anuais associados à manutenção das políticas actuais (cenário business as usual).
Em contrapartida, a eliminação das importações de gás e petróleo permitiria poupanças anuais na ordem dos sete mil milhões de euros. De acordo com o relatório, esta redução dos custos com combustíveis é suficiente para financiar integralmente os investimentos necessários na expansão das energias renováveis e das infra‑estruturas eléctricas nacionais.
“A transição não é um custo, é um investimento com retorno imediato”, sublinha Toni Melajoki Roseiro. Esta trajectória é particularmente relevante num país onde a pobreza energética continua a afectar uma parte significativa da população.
Fósseis fora até 2040
O roteiro define metas temporais claras para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis: abandono total do carvão até 2030 (no caso de Espanha) e eliminação definitiva do gás natural e do petróleo até 2040. A procura nacional de gás fóssil deverá reduzir‑se em 77% até 2035, enquanto a procura ibérica de petróleo diminuir 68% no mesmo período.
No conjunto da Península Ibérica, os cenários “Energia 4.0” e “Energia 4.1” alcançam uma redução de 99% das emissões energéticas de dióxido de carbono até 2040, mantendo apenas emissões residuais associadas a usos específicos de combustíveis sintéticos.
A redução da procura final de energia constitui um elemento central do modelo. Para Portugal, projectam‑se quebras de 26% no sector industrial e de 20% no sector dos edifícios até 2040, obtidas através de medidas combinadas de electrificação, eficiência técnica e reorganização dos serviços energéticos.
O relatório indica que, em média, as casas em Portugal já têm dimensão suficiente para assegurar conforto e dignidade, pelo que a prioridade deve ser melhorar as casas que existem, e não construir mais. Ou seja, a Greenpeace recomenda que o foco deve ser na reabilitação e não na nova construção.
As políticas públicas devem centrar‑se na reabilitação energética do parque edificado existente — através de melhor isolamento térmico e instalação de bombas de calor — em detrimento da nova construção, frequentemente associada à especulação imobiliária, defende o relatório.
Transportes: electrificar e reduzir
No sector dos transportes, o modelo prevê uma transformação estrutural com base em três vectores: electrificação quase total da frota rodoviária, reforço significativo do transporte público e crescimento da mobilidade activa, como a caminhada e o uso da bicicleta.
As medidas de suficiência permitem reduzir de forma expressiva a procura energética do sector, incluindo uma diminuição superior a 35% na aviação até 2040 e uma redução de pelo menos 15% no transporte individual motorizado não aéreo.
Para Ana Farias Fonseca, coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, “libertarmo‑nos da dependência dos combustíveis fósseis é essencial para travar a escalada dos preços da energia e da alimentação”, sublinhando que as soluções necessárias já existem e estão disponíveis no presente.
Menos mineração, mais reciclagem
A aplicação de medidas de suficiência, aliada ao reforço da reciclagem e da economia circular, reduz também significativamente a necessidade de extracção de minerais críticos.
O relatório estima que, com menos veículos, melhor uso dos edifícios e menor desperdício, a procura de lítio diminua 57% face a cenários exclusivamente tecnológicos – aqueles que tentam resolver a crise climática apenas trocando tecnologias fósseis por tecnologias limpas, sem reduzir o consumo. A necessidade de cobre, grafite e terras raras deverá registar reduções entre 40% e 80% até 2030, consoante o material.
Esta trajectória permite mitigar os conflitos socioambientais associados à mineração e proteger áreas sensíveis da biodiversidade em Portugal, reduzindo a pressão extractiva sobre o território.
Estratégia ibérica integrada
A análise conjunta de Espanha e Portugal demonstra o potencial de uma estratégia energética coordenada. No cenário de suficiência, a Península Ibérica pode poupar cerca de 32 mil milhões de euros por ano em custos de combustíveis, com um investimento anual estimado em 27 mil milhões de euros.
O potencial solar e eólico ibérico excede em mais de dez vezes as necessidades energéticas projectadas para 2050. Mesmo excluindo áreas naturais protegidas, zonas de elevada sensibilidade ambiental e solos agrícolas essenciais para a soberania alimentar, apenas cerca de 1,5% do território seria necessário para garantir o abastecimento energético da região.
A robustez do sistema foi testada através da chamada modelação horária contínua, demonstrando que um sistema eléctrico 100% renovável pode assegurar fornecimento estável 24 horas por dia, 365 dias por ano, sem recurso à energia nuclear. A combinação de geração descentralizada, armazenamento e interligações regionais permite responder às variações sazonais e diárias da procura.
Segundo Sven Teske, autor principal do estudo, “uma decisão política com visão de longo prazo garantirá a segurança do abastecimento energético e uma vantagem económica para a próxima geração”.
Energia como instrumento de justiça
A nível global, o relatório enquadra a transição energética como um instrumento central de justiça climática. O modelo inspira‑se na “economia donut”, desenvolvida por Kate Raworth, propondo a estabilização do consumo global dentro de limites que assegurem direitos essenciais para toda a humanidade sem ultrapassar os limites ecológicos do planeta.
“Abandonar o gás e o petróleo é uma prioridade inadiável”, declara Eva Saldaña, directora executiva da Greenpeace Espanha e Portugal. A soberania energética reduz dependências geopolíticas e contribui para a estabilidade internacional, sublinha.
O relatório conclui que a tecnologia necessária para alcançar a neutralidade climática até 2040 já existe e está plenamente comprovada. O principal obstáculo reside na ausência de vontade política e de mobilização cívica à escala necessária.
A Greenpeace defende a implementação imediata de um Contrato Social Verde, sublinhando que esta década será decisiva para definir o futuro energético, económico e climático de Portugal, da Península Ibérica e do planeta.
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