Guia desaparecido resgatado do Evereste após família já ter iniciado ritual fúnebre

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Um guia nepalês foi resgatado do monte Evereste, após sobreviver cerca de uma semana sem comida nem reservas de oxigénio, num caso de sobrevivência que a comunidade de montanhistas do Nepal considera um milagre. Dawa Sherpa, de 52 anos, também conhecido como Hillary Dawa Sherpa, em homenagem ao famoso alpinista Edmund Hillary, foi encontrado a rastejar em direcção ao acampamento base numa altura em que o seu funeral já estava a decorrer.

O guia foi visto pela última vez a 29 de Maio, perto da “zona da morte” da montanha mais alta do mundo, onde a pressão é tão baixa que os níveis de oxigénio são insuficientes para a sobrevivência humana a longo prazo.

Estava a iniciar a descida com um alpinista polaco, depois de não conseguirem chegar ao cume da montanha, que se localiza a 8849 metros acima do nível do mar, quando desapareceu entre o Campo III e o Campo IV, o parque de campismo mais elevado em todo o mundo, onde pára tanto quem escala o monte Evereste como a montanha Lhotse (a quarta mais alta do mundo). O parque situa-se a 7920 metros de altitude e é a última paragem para os alpinistas que querem subir os 8849m do Evereste.

Chris Thrall, um alpinista britânico e ex-fuzileiro naval, publicou um vídeo em homenagem a Dawa Sherpa, acreditando que o guia teria morrido na montanha. Thrall cruzou-se com o guia na descida e perguntou-lhe se estava capaz de prosseguir. O britânico disse que continuou a caminhada e encontrou o cliente polaco de Dawa Sherpa sem oxigénio e com queimaduras provocadas pelo frio e decidiu ajudá-lo a descer, acreditando que o experiente guia nepalês conseguiria descer sozinho. “O tempo estava muito instável e muito rigoroso. Trágico. Lamentável. Mas são as altas montanhas. É assim mesmo”, desabafou Thrall no vídeo.

Não se sabe porque é que o cliente de Dawa regressou ao acampamento base, que fica a 5300 metros de altitude, sem o guia. Mas Lama Kazi Sherpa, do Comité de Controlo da Poluição de Sagarmatha, relatou que a sua equipa estava a realizar a limpeza após o fim da temporada de subida ao Evereste quando localizou Dawa próximo do acampamento base, perto da Cascata de Gelo de Khumbu. Dawa, que ainda estava a utilizar o casaco de escalada, foi levado para um local seguro, onde recebeu comida e água. Em seguida, foi transportado de helicóptero para o Hospital HAMS em Katmandu, capital do Nepal.

“Dawa sobreviveu sozinho durante quase uma semana sem comida, água ou botijas de oxigénio, navegando pela traiçoeira Cascata de Gelo de Khumbu, mesmo depois de, com o fim da temporada, as escadas terem sido removidas”, escreveu a empresa de caminhadas Nepal Mount Evereste numa publicação nas redes sociais. “Isto é nada menos que um milagre.”

Família estava em ritual fúnebre

Já no hospital, Dawa encontra-se bem e está a receber tratamento para queimaduras provocadas pelo frio e para outras complicações. “Ele reconheceu-nos e fala. Estamos felizes”, referiu Mhendo Lhamo Sherpa, filha do guia.

A família contou que, quando soube da notícia de que Dawa Sherpa estava vivo, já estava a meio de um ritual fúnebre, que tradicionalmente dura vários dias. “Quando soubemos do resgate, não tínhamos a certeza se aquela pessoa era realmente o meu pai”, confessa a filha do guia. “Para termos a certeza, pedimos que nos enviassem fotografias e só aí ficámos seguros, e muito felizes.”

Dawa Sherpa é membro da comunidade sherpa e trabalha para uma pequena empresa sediada em Katmandu chamada Himalayan Traverse​. Os sherpas, na sua maioria, costumavam ser pastores de iaques e comerciantes, que viviam no interior dos Himalaias até o Nepal abrir as suas fronteiras na década de 1950. A sua resistência e familiaridade com as montanhas rapidamente fez deles guias muito requisitados, permitindo-lhes, eventualmente, dominar o mercado de escalada nos Himalaias.

“Sobreviver tantos dias nas montanhas, enfrentar condições tão adversas, é um verdadeiro milagre”, disse Ang Tshering Sherpa, uma figura importante na comunidade de montanhismo, ao jornal britânico The Guardian. “Os sherpas, criados nas montanhas, são resistentes. Se fosse outra pessoa talvez não tivesse sobrevivido.”

Mais de mil alpinistas, juntamente com os seus guias, escalaram o Evereste em Maio deste ano, que marcou a temporada de escalada mais movimentada de todos os tempos na montanha mais alta do mundo. A temporada começou tarde devido a um enorme bloco de gelo que bloqueou a rota e que demorou cerca de duas semanas a ser removido, fazendo com que muitos alpinistas ficassem presos no acampamento base.

Cinco pessoas morreram desde o início das operações turísticas, o que levou a críticas (repetidas) às autoridades por emitirem autorizações (que custam mais de 14 mil euros) para um grande número de alpinistas, o que pode levar a congestionamentos perigosos ou longas filas na área da “zona da morte”. A permanência em zonas tão elevadas acarreta riscos, como a doença da altura (ou mal de montanha), devido à pouca disponibilidade de oxigénio, ou a ulceração por causa do frio. Desde a primeira conquista de Edmund Hillary e Tenzing Norgay, mais de nove mil pessoas já subiram ao cume. Com Reuters

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