
Dois dias depois de ter assegurado que “não se vai embora” e que pretende participar em qualquer disputa pela liderança do Partido Trabalhista e do Governo do Reino Unido, Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, estará a ponderar apresentar a demissão já nesta segunda-feira, 22 de Junho, avançam este domingo, 21, vários órgãos de comunicação social do país.
Segundo o semanário Observer, o diário Guardian ou a emissora ITV News, após conversas com os seus ministros, conselheiros e com a família mais próxima, o líder do executivo terá chegado à conclusão de que já não tem condições para resistir às movimentações internas que devem surgir nos próximos dias para contestar formalmente a sua posição.
Andy Burnham, presidente cessante da Câmara de Manchester, toma posse como deputado na Câmara dos Comuns na segunda-feira, depois da grande vitória na eleição suplementar de Makerfield, no Norte de Inglaterra, realizada na quinta-feira, o que lhe permite desencadear um processo interno de disputa pela liderança. As sondagens dizem que seria o favorito nessa votação, aberta aos militantes e sindicatos.
Wes Streeting, ex-ministro da Saúde, também está interessado em avançar nesse sentido, tendo dado a entender que pode tomar a iniciativa de desafiar Starmer no início desta semana.
Qualquer deputado que pretenda lançar uma corrida ao lugar do líder do Labour e do Governo necessita do apoio de pelo menos 20% da actual bancada trabalhista (403), ou seja, de 81 deputados. No sábado, o número de membros trabalhistas da Câmara dos Comuns que pediram publicamente a Starmer para se afastar superou a centena
A ideia partilhada pelas principais figuras do Labour que defendem que Starmer se afaste é a de que este deve evitar que o partido entre em “guerra civil”, semelhante ao que aconteceu com o Partido Conservador, que teve cinco primeiros-ministros entre 2016 e 2024 – David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak –, fruto de uma sequência frenética de processos internos de mudança de líder.
Nesse sentido, Robert Peston, jornalista e comentador da ITV, acredita que Starmer estará a planear anunciar que abandona oficialmente o cargo no final de Setembro, mais ou menos na altura em que o Labour realiza o seu congresso anual.
Citando uma fonte próxima do primeiro-ministro, Beth Rigby, editora da secção de Política da Sky News, diz, por sua vez, que este “está a ponderar o que é melhor para o interesse nacional” e “vai tomar uma decisão em breve”.
Depois de Heidi Alexander, ministra dos Transportes, ter aconselhado Starmer na sexta-feira a apresentar um calendário para uma “transferência de poder”, a Sky noticia este domingo que Yvette Cooper, ministra dos Negócios Estrangeiros, disse nas últimas horas ao primeiro-ministro que este devia afastar-se.
Ed Miliband, ministro da Segurança Energética, e Shabana Mahmood, ministra do Interior, também já tinham aconselhado Starmer nesse sentido, há cerca de um mês, depois de o Partido Trabalhista ter obtido péssimos resultados nas eleições autárquicas inglesas e legislativas escocesas e galesas realizadas no passado dia 7 de Maio.
Neste domingo, em declarações à BBC, Peter Kyle, ministro trabalhista do Comércio, garantiu não ter informações sobre a possibilidade de Keir Starmer apresentar a demissão na segunda-feira e alertou para a “enorme especulação” que se está a criar.
Ainda assim, disse que “não pode fingir que não existe um processo ou que não há forças em acção” que queiram “desafiar o primeiro-ministro enquanto líder” e admitiu que Starmer, que se encontra reunido com a família em Chequers, a residência de férias do chefe do Governo britânico, está a “pensar e reflectir sobre as realidades políticas” que tem à sua frente.
A imprensa britânica nota nestas declarações um tom diferente do que o que foi usado pelo próprio Starmer e pelos assessores de imprensa do número 10 de Downing Street na sexta-feira, depois de conhecidos os resultados em Makerfield, onde Burnham, da ala progressista do partido, derrotou a direita radical, de Nigel Farage, com 55% dos votos e uma vantagem de dez pontos percentuais.
Aparentemente alheio ao barulho exterior, Starmer recorreu este domingo às redes sociais para assinalar o Dia do Pai: “Ser pai é a minha maior alegria. Hoje estou a pensar no meu pai e no pai que sou para os meus filhos, graças a ele. Feliz Dia do Pai.”
Mesmo tendo conduzido o Partido Trabalhista à vitória nas eleições legislativas realizadas há menos de dois anos, Starmer tornou-se rapidamente um líder impopular, em grande medida por causa da incapacidade do Governo britânico para baixar o custo de vida e pôr a economia do Reino Unido a crescer.
Como consequência disso, mas também do declínio do Partido Conservador, que governou o país entre 2010 e 2024, o Reform UK, partido populista e anti-sistema, lidera as sondagens a nível nacional, tendo sido o mais votado nas eleições autárquicas de 2025 e 2026.
Ultrapassado à esquerda pelo Partido Verde em várias localidades, o Partido Trabalhista arrisca-se a perder as próximas legislativas, previstas para 2029, e a oferecer o poder a Farage e à direita radical.
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