Em 2011, a UNESCO criou o Dia Internacional do Jazz, um evento que deve ser compreendido no contexto histórico da diplomacia cultural norte-americana associada ao jazz. A partir dos anos 1950, no contexto da Guerra Fria, o governo dos Estado Unidos da América procurava utilizar o jazz como símbolo de um modelo social americano assente em ideais liberais. Ao longo de duas décadas, vários dos mais reconhecidos músicos de jazz – como Dizzy Gillespie, Louis Armstrong, Dave Brubeck, Benny Goodman, Duke Ellington – foram enviados ao estrangeiro de modo a apresentar o jazz como uma expressão de valores associada ao diálogo intercultural e à diversidade. Sendo uma música de origem afroamericana, cujo desenvolvimento assumiu também uma dimensão política – especialmente através de estilos como o hard bop e o free jazz –, o jazz estabelece então uma ligação à luta pela igualdade social através do Movimento dos Direitos Civis.
A utilização do jazz como símbolo de democracia e diversidade é, no entanto, frequentemente mobilizada como uma estratégia de branding institucional. A institucionalização do Dia Internacional do Jazz pela UNESCO pode ser interpretada nestes termos, como uma mobilização dos valores associados ao jazz para representar os princípios fundamentais da própria organização. Num artigo publicado na Forum for Inter-American Research (2019), o historiador Mario Dunkel observa criticamente que o Dia Internacional do Jazz constitui, na realidade, um “revestimento apelativo de moralidade”, construído a partir da moralidade cultural da tradição do jazz, da moralidade institucional da UNESCO e da moralidade nacional dos Estados Unidos da América.
As dimensões políticas desta efeméride são relevantes, pois permitem discutir de que forma a promoção de significados genéricos de diversidade e liberdade atribuídos ao jazz difunde, na prática, a ideia de que não é necessário desafiar as estruturas de poder existentes. Na realidade, o jazz é uma expressão musical socialmente situada, na qual se inscrevem relações de poder e hierarquias de classe, raça, sexualidade e género. É, aliás, hoje consensual na comunidade científica que os contextos e as redes que possibilitaram o desenvolvimento do jazz têm, em grande medida, marginalizado as mulheres. Tal como argumenta a investigadora Nichole T. Rustin no livro Big Ears – Listening for Gender in Jazz Studies (Duke University Press, 2008), a metáfora “jazz como democracia” é concebida de forma implícita como uma identidade coletiva predominantemente masculina.
Por outro lado, a institucionalização do jazz a partir dos anos 1940 em contextos académicos maioritariamente brancos também envolve negociação de relações raciais de poder. Por exemplo, o primeiro curso de jazz (designado na época como “dance band”), criado em 1946 na University of North Texas, permaneceu segregado durante os primeiros dez anos. Por esta razão, a investigadora Tracy McMullen propõe uma leitura crítica sobre o discurso intercultural, sublinhando que, ao ser transferido para espaços predominantemente brancos, o jazz foi também profundamente transformado para corresponder aos parâmetros e gostos culturais dominantes.
Torna-se, então, pertinente refletir de que forma a narrativa sobre diversidade e progressismo pode ser apropriada e naturalizada, acabando por se impor à própria realidade social do jazz, e mesmo às instituições que mobilizam a marca “jazz” como estratégia de afirmação de determinados valores institucionais. Neste processo, os significados simbólicos de “liberdade” ou “interculturalidade” tendem a ser destacados de tal forma que parecem incorporá-lo intrinsecamente, mesmo que, na prática, se perpetuem dinâmicas de exclusão.
O próprio Dia Internacional do Jazz deve, por isso, ser entendido como parte de uma tradição mais ampla de diplomacia cultural, com o jazz a desempenhar um papel central na projeção de significados políticos e culturais à escala global. Importa, agora, questionar as transformações sociais e políticas ocorridas na era Trump, que resultam no acentuado desinvestimento dos Estados Unidos da América na projeção internacional de um projeto social e político benevolente, na vanguarda da liberdade da expressão cultural. Qual o peso que assumirá a celebração deste dia, e qual a necessidade de as instituições continuarem a apresentar-se como estando alinhadas com valores da diversidade e da igualdade, até aqui promovidos?
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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