Lá vai Lisboa, se não a salvarmos

0
2

O PÚBLICO escreveu há dias: “Alguns resistiram, mas Lisboa expulsou muitos. As marchas unem-nos de volta ao bairro.”

Lisboetas são todos os que aqui nasceram ou cresceram e os que aqui escolheram viver. Cada lisboeta vive a sua cidade da sua maneira e vivemo-la em conjunto nesta soma diversa.

Descobri as marchas por um acaso familiar. A partir dos 17 anos visitava todos os anos os ensaios de todas as marchas de Lisboa. Hoje nada me faz sentir mais lisboeta do que as Marchas de Santo António.

Surpreendi-me com aquela demonstração de comunidade. Nos anos difíceis do desemprego e da crise da troika, os bairros de Lisboa davam uma prova de vida, de esforço por um objetivo comum e de amor à sua cidade e aos seus.

A partir daí veio o hábito de ouvir anualmente a nova música da Grande Marcha de Lisboa, decorar álbuns e álbuns de marchas antigas, acordar no dia de Santo António com a saudável rivalidade partilhada com toda a cidade: outra vez Alfama? (Alfama que hoje está de parabéns depois de alguns anos sem vencer esta competição.)

Hoje, os bairros históricos foram devorados pelo alojamento local. O Bairro Alto, terra do meu pai, ou a Madragoa, bairros onde cresci e passei grande parte da minha adolescência foram transformados em parques temáticos. Custa-me hoje visitar qualquer um deles, mesmo no mês dos Santos Populares.

A expulsão de quem ali vivia matou os bairros. Há pouco mais de um ano na Graça, numa recolha de contributos, quase todos os moradores se queixavam: não há comércio, foi tudo substituído por cafés da moda, restaurantes e cadeias de restauração, lojas para turistas. Ouvi o mesmo na terra da minha mãe, no centro histórico de Carnide.

Não, defender que os bairros históricos devem continuar a ter vida não é romantizar a pobreza. É acreditar que as cidades vivem das pessoas e não das suas paredes, e que as casas devem ser habitadas e não tratadas como ativos financeiros.

Esta gentrificação esvaziou Alfama, a Madragoa e o Bairro Alto. Tornou quase impossível viver na Baixa ou na Graça. Tirou o carácter popular de Campo de Ourique ou de Carnide. Seguir-se-ão Alcântara ou Benfica ou o Beato.

A reportagem do PÚBLICO mostra uma realidade, a Alma de Lisboa com que os políticos enchem a boca depende do amor de quem foi expulso e volta todos os dias durante metade do ano com um enorme esforço para a manter viva. No dia em que estas pessoas deixarem de o fazer, deixarem de fazer horas de barco ou de comboio, as marchas morrerão ou serão apenas uma performance para os turistas.

Salvar as Marchas é salvar Lisboa. Isso exige habitação acessível para todos, diversidade social e cultural, e comércio que garanta uma cidade de quinze minutos — aquela que já existiu, e que deixámos morrer.

O debate destes problemas já começaram em várias grandes cidades do mundo e em muitas delas já têm planos ou estratégias de ação. Por cá, não podemos deixar que Lisboa vá pela inação e não pela letra da canção.

Aos resistentes, o meu muito obrigado pelo amor à nossa cidade.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com