A escassez de combustíveis fósseis criada com o bloqueio do estreito de Ormuz, após os ataques de Israel e Estados Unidos ao Irão, gerou crise assimétrica, onde alguns ganham (muito) e outros perdem poder de compra, energia e capacidade para fazer a transição energética e tornarem-se mais resilientes. Esta nova realidade, que ninguém sabe quanto tempo vai durar, vai ter influência sobre as negociações na Conferência para a Transição dos Combustíveis Fósseis que a Colômbia vai acolher, na cidade de Santa Marta, entre 24 e 29 de Abril.
Portugal e Espanha são apontados como bons exemplos, por terem apostado nas energias renováveis, mas isso não explica tudo. Espanha tem um maior jogo de cintura orçamental, explica a economista Laura Carvalho, directora para a Prosperidade Económica e Climática da Open Society Foundations, e professora na Universidade de São Paulo, numa entrevista feita a partir de Washington D.C., onde participou no encontro da Primavera entre o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
De que forma é que a crise dos combustíveis, criada pelo bloqueio do estreito de Ormuz, vai influenciar o diálogo na Conferência para a Transição dos Combustíveis Fósseis, na Colômbia?
É muito relevante que a conferência acontece no meio dessa crise. Quem apoia a agenda climática, pressiona os países produtores a parar de explorar petróleo já. Mas acho que isso perde impulso, por estarmos no meio de uma crise em que aqueles que não produzem combustíveis fósseis estão a ser mais afectados.
Vai ser muito difícil convencer países em desenvolvimento que produzam petróleo a comprometerem-se com parar de produzir, não é?
Por outro lado, essa crise tornou muito mais claro que os países mais resilientes são os que já decidiram investir em energias renováveis. Isso abre espaço à discussão que vincula receitas do petróleo e investimento na transição.
Este tema tem estado bloqueado, porque há uma tensão muito grande entre os que querem que se pare de explorar e os que defendem o uso dos recursos que têm para poderem vir a fazer a transição energética depois. Mas a crise actual pede uma posição mais equilibrada, que entenda que mesmo nos países que desejam realizar a transição, é difícil ter acesso a empréstimos que a possibilitem.
Por isso há oportunidades na taxação dos lucros extraordinários das empresas de combustíveis fósseis (windfall taxes), como algo que, para além de ajudar a absorver o choque no curto prazo, poderia ajudar os Estados a investir numa estratégia energética mais diversificada…
É importante taxar os lucros extraordinários então?
Sim, até para os países com petrolíferas estatais. Vou mencionar o exemplo da Petrobras no Brasil, que conheço mais: está lucrando muito mais do que tinha projectado nesse ano, mas esses lucros extraordinários dão mais espaço para a Petrobras acelerar o investimento num plano de negócios que envolve energias renováveis, diversificação para biocombustíveis e combustíveis sustentáveis de aviação, para ganhar maior resiliência e não depender apenas do preço do petróleo.
Enfim, este é um momento para aproveitar para a transição energética e a segurança nacional. Há um ganho em narrativa, os países percebem que esta dependência dos combustíveis fósseis os torna vulneráveis.
A crise demonstrou que o investimento em energias renováveis tornou os países menos vulneráveis à crise do estreito de Ormuz?
Não há dúvida de que os países importadores líquidos de combustíveis fósseis são os mais vulneráveis nesta crise, e temos visto isso de maneira dramática em países asiáticos e africanos.
Mas tem-se demonstrado que o impacto é muito menor nos países que fizeram investimentos estruturais em fontes renováveis, como Espanha, Portugal e, de maneira diferente, o Brasil, que há muitas décadas resolveu investir em biocombustíveis. Ou a China, que também aumentou muito as renováveis.
Têm sido recompensados com a possibilidade de absorver boa parte desse choque e impedir que o aumento do preço dos combustíveis fósseis afecte tanto as famílias.
Mas quais são os factores decisivos para um país resistir às pressões inflacionárias relacionadas com a escassez de combustíveis fósseis? É que Portugal tem muitas renováveis (68% do consumo em 2025, segundo a REN), mas tem uma política de taxação dos combustíveis diferente de Espanha…
Portugal e Espanha estão a beneficiar de preços de electricidade mais baixos do que outros países europeus [em Março, o preço dos combustíveis para transporte privado subiu 12,2% em Portugal, abaixo da média europeia de 12,9%, enquanto na Alemanha, por exemplo, subiu 19,8%, segundo o Eurostat], mais dependentes de gás natural. Mas claro que esse não é o único factor de resiliência.
Portugal está mais exposto do que Espanha, que não só tem mais escala – e energia nuclear, que é outro factor –, como tem mais margem orçamental, para subsídios e outros mecanismos para lidar com os efeitos de uma crise de curto prazo.
Há quatro factores que estão a determinando a resiliência ao choque. Em primeiro lugar, a baixa dependência da importação de combustíveis fósseis. Em segundo, ter uma infra-estrutura eléctrica com alta percentagem de renováveis, incluindo linhas de transmissão e baterias para armazenar energia.
Em terceiro lugar, é preciso ter margem orçamental para absorver o choque e investir em medidas anticíclicas. Acho que é neste ponto que Espanha e Portugal se diferenciam mais. [O Governo português já assumiu que em 2026, com a pressão orçamental adicional trazida pelo comboio de tempestades e pela guerra no Irão, poderá haver défice].
Uma quarta categoria é a inflação. A crise do estreito de Ormuz tem efeitos secundários sobre fertilizantes e o preço dos alimentos, que ainda não estamos a observar na sua totalidade. Os países com uma maior autonomia agrícola e de produção local de alimentos estão mais bem posicionados.
E que políticas é que as instituições financeiras internacionais (Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial…) deveriam estar a desenhar para dar resposta a esta reviravolta na economia global?
Há uma grande incerteza nesta crise, por dois factores. Um é não podermos prever a sua duração. Outro é ser uma crise iniciada pelo maior accionista nestas instituições financeiras internacionais…
Reuters
Os Estados Unidos.
Sim. Isso talvez esteja a retardar uma resposta ambiciosa à crise. Esperemos que não haja timidez na resposta por conta da crise ter sido gerada por um país com enorme poder de decisão nessas instituições.
Então o facto de esta crise ter sido iniciada pelos EUA vai dificultar a criação de mecanismos para a ultrapassar, é isso?
Acho que pode dificultar, embora ainda seja difícil de medir isso. Claro que há um enorme ganho de lucros extraordinários de sectores ligados ao petróleo nos EUA, que podiam ser usados para investir na transição para energias renováveis nos próprios EUA.
Mas o facto de o Presidente Donald Trump ter passado a tratar as energias renováveis como uma questão ideológica, associada às alterações climáticas, tira oportunidades à economia norte-americana de aproveitar esse lucro extraordinário.
A segurança energética está hoje muito vinculada com a segurança nacional. É muito difícil separar objectivos de segurança nacional dos de segurança energética e de clima. Essa tentativa de isolar o clima, como algo, sei lá, apenas de carácter ideológico, tira oportunidades aos outros dois objectivos.
E qual é expectativa em relação à União Europeia? Que papel deve ter para apoiar a transição?
Ao deparar-se com esta crise, com o papel que os EUA estão a desempenhar, e com as suas próprias vulnerabilidades, ficou mais claro que o crescimento no gasto público em defesa da Europa tem de ser complementado por investimento em infra-estrutura de electrificação, de energia renovável, para aumentar a resiliência, em associação à estratégia de segurança.
Já havia essa percepção, mas não estava a ser complementada por um investimento suficiente nas infra-estruturas de energia. Espera-se que ocorram investimentos mais massivos no sector energético, inclusive na interconexão da rede eléctrica entre países.
Open Society Foundations
Uma segunda parte é a agenda climática a nível global: a Europa e a China assumiram um papel de protagonismo, com o abandono dos EUA. Essa crise dá ainda mais oportunidade à Europa assumir o seu protagonismo, não só com os seus investimentos, mas também através de postura em relação ao resto do mundo e aos países em desenvolvimento.
É esperado que a Europa exerça o seu papel nas instituições multilaterais para facilitar a transição nos demais países, e não apenas através da importação de tecnologias europeias.
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