Maria Gal: “Carolina pertence ao Brasil, mas sua humanidade pertence ao mundo”

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Em 1962, o Brasil ganhou sua primeira Palma de Ouro em Cannes com O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte. No retorno triunfal a São Paulo, organizou-se um jantar de comemoração. Carolina Maria de Jesus — autora de Quarto de Despejo, então uma das escritoras mais vendidas do país — foi convidada. Não entrou. Foi barrada na porta do restaurante por ser uma mulher negra.

Sessenta e quatro anos depois, dentro do Palais des Festivals, em Cannes, um filme inspirado na vida de Carolina subiu ao palco para receber um prêmio. Carolina Maria de Jesus, dirigido por Jeferson De (Doutor Gama), foi um dos três projetos contemplados na edição 2026 do Goes to Cannes, vitrine internacional do Marché du Film para longas em fase de finalização.

O simbolismo é o que primeiro salta à vista: um prêmio obtido em Cannes, que outrora estava na base de uma das humilhações mais nítidas vividas por Carolina, devolve hoje à escritora um pedaço de reconhecimento — não pela porta dos fundos, mas no centro do mercado mundial de cinema.

A obra foi premiada com 10 mil euros oferecidos pela A.H. Media Production, dentro da iniciativa Rio Goes to Cannes, que levou cinco produções brasileiras ao maior festival de cinema do mundo. O júri citou expressamente o protagonismo feminino e negro e a interpretação da atriz Maria Gal, que também é idealizadora do projeto por meio de sua produtora, a Move Maria.

Maria Gal não esperou um convite para fazer o filme. Estudou Carolina Maria de Jesus durante anos, comprou os direitos para filmá-la, subiu primeiro ao palco para interpretá-la e só depois procurou Jeferson De para conduzir a cinebiografia. É, em todos os sentidos da palavra, uma autora desta produção.

A atriz e produtora brasileira no tapete vermelho de Cannes
SORAYA URSINE

Para viver Carolina, Maria Gal perdeu 18 quilos. Cortou o cabelo. Caminhou pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro como mulher em situação de rua e catadora de papel, em busca dos silêncios e da invisibilidade social que Carolina enfrentava diariamente.

Treinou na academia até cinco vezes por semana, carregando peso, porque Carolina carregava sacos nas costas. Fez aulas de canto com músicas da própria escritora, estudou grafologia para se aproximar do gesto manuscrito dela, e trabalhou com os preparadores Ivana Chubbuck, nos Estados Unidos, e Clayton Nascimento, no Brasil.

Há, no entanto, uma camada que ultrapassa o método. Atriz negra retinta, Maria Gal conhece de perto o racismo estrutural do audiovisual brasileiro. Ela revela ao PÚBLICO Brasil ter sido excluída de projetos porque produtores e diretores acreditavam que uma atriz branca seria “mais comercial”.

É a partir desse lugar que ela fala da Carolina escritora, da Carolina poeta, da Carolina pensadora do Brasil e negocia com agentes de vendas e distribuidores internacionais — MK2, Neon, A24, Sony Pictures Classics, que estão entre os nomes que cita como referências de mercado para o cinema autoral de alcance global, na linha do que fizeram os filmes Moonlight e Parasita.
Confira os principais trechos que Maria Gal concedeu, em Cannes, ao PÚBLICO Brasil:

Carolina escrevia em cadernos achados no lixo, num português próprio, fora da norma culta. Como sua alma de escritora, dialogou com a dela durante as filmagens? Houve momentos em que quis reescrever uma frase dela, ou, ao contrário, proteger cada vírgula, enquanto estudava para interpretar a personagem?
Sou atriz há muitos anos e extremamente disciplinada com o meu ofício. Amo estudar profundamente cada personagem, e receber a missão de interpretar Carolina Maria de Jesus no cinema é, para mim, motivo de muito orgulho e, ao mesmo tempo, de enorme responsabilidade.

No meu processo de preparação, escrevi muito e reescrevi muitas frases dela. Também fiz aulas de grafologia e estudei profundamente a grafia manuscrita de Carolina, o traço da sua escrita, a maneira como ela ocupava o papel, porque eu queria me aproximar não apenas da sua história, mas também do seu gesto criativo, da sua relação física e emocional com a palavra. Além disso, fiz aulas de canto trabalhando músicas da própria Carolina Maria de Jesus e mergulhei em diversos outros estudos ligados ao universo dela, ao contexto histórico do Brasil e à construção emocional dessa mulher tão complexa e extraordinária.

E esse encontro foi tão profundo que, hoje, também estou escrevendo um livro sobre todo esse processo e sobre a jornada de Carolina Maria de Jesus na minha vida. Eu sentia que precisava entrar nesse universo com muito respeito, cuidado, inspiração e amor por essa que é uma das maiores escritoras da América Latina. De alguma forma, acredito que nossas almas dialogaram nesse processo. Interpretar Carolina não foi apenas construir uma personagem. Foi entrar em contato com uma força histórica, literária, espiritual e humana muito profunda.

A voz literária de Carolina é considerada por muitos acadêmicos como dura, áspera, sem concessão lírica. O que isso exigiu mais de você? Qual a sua visão a respeito da obra da poetisa?
Na minha opinião, é exatamente o contrário. Antes de tudo, Carolina Maria de Jesus era uma grande poetisa. Existe uma dimensão extremamente lírica, emocional e profundamente poética na escrita dela. E isso é uma das coisas mais impressionantes da sua obra. Pensar que Carolina estudou apenas até o segundo ano primário e, ainda assim, escrevia com tamanha profundidade, construindo metáforas tão sofisticadas e imagens tão sensíveis, é algo profundamente inspirador.

Ela era, de muitas formas, uma autodidata da escrita, da leitura e da própria formação intelectual. Ao mesmo tempo em que registrava a realidade concreta da sociedade brasileira — marcada por desigualdade, racismo, machismo e exclusão social —, Carolina também transformava tudo isso em literatura, poesia e consciência humana. E talvez seja justamente essa combinação entre lucidez social e potência poética que faz dela uma das maiores escritoras da América Latina.

Interpretar uma mulher real, negra, periférica, que viveu há poucas décadas, é diferente de interpretar uma personagem inventada e idealizada. O que representa dar voz e corpo a uma figura que representa uma parcela enorme da população brasileira — 54% da população do país se declara negra ou parda — e que tantas vezes não tem vez nem voz?
Interpretar Carolina Maria de Jesus foi uma das experiências mais profundas, desafiadoras e transformadoras da minha vida como atriz. Existe uma responsabilidade muito grande em dar corpo, voz e humanidade a uma mulher real que representa uma parcela tão significativa da população brasileira e que, durante muito tempo, foi invisibilizada socialmente, culturalmente e até cinematograficamente.

E talvez esse seja um dos pontos mais importantes desse projeto: Carolina não é uma personagem inventada. Ela existiu. Ela escreveu. Ela pensou o Brasil de forma extremamente sofisticada. E mesmo sendo uma das maiores escritoras da América Latina, ainda existe uma dívida histórica muito grande em relação à forma como corpos negros, periféricos e femininos são representados no cinema.

Enquanto mulher negra retinta, existe também uma dimensão muito pessoal nesse encontro com Carolina. Infelizmente, o racismo estrutural no audiovisual ainda é muito forte. Durante muitos anos, parte do mercado acreditou que histórias negras não tinham alcance internacional ou potencial comercial. E eu mesma vivi isso na minha trajetória como atriz. Já fui excluída de projetos porque acreditavam que uma atriz branca seria “mais comercial” do que eu.

Por isso, interpretar Carolina possui uma dimensão extremamente simbólica. Porque estamos mostrando que histórias negras podem ser universais, sofisticadas, emocionais, cinematográficas e profundamente conectadas com audiências do mundo inteiro. Como atriz, eu sempre me interessei por personagens complexas, humanas e emocionalmente profundas. Mas interpretar Carolina exigiu algo ainda maior de mim, porque não bastava apenas “atuar”. Era necessário compreender suas dores, sua inteligência, sua dignidade, sua fome, sua poesia, sua espiritualidade e sua capacidade de sonhar mesmo diante de condições extremamente violentas.

E acredito que o mercado internacional está cada vez mais aberto para narrativas autênticas, humanas e culturalmente potentes. Filmes como Moonlight provaram que histórias profundamente íntimas também podem gerar impacto global. Carolina Maria de Jesus pertence ao Brasil, mas sua humanidade pertence ao mundo.

O Goes to Cannes é, na prática, uma vitrine para compradores internacionais. Você e toda a equipe estiveram em reuniões com distribuidores estrangeiros olhando para a Carolina também como produto. O que isso provocou em você, como atriz e como produtora de um filme que fala de fome?
Essa pergunta é muito interessante porque ela toca exatamente em uma das grandes contradições do cinema e da própria sociedade. Sim, o Goes to Cannes é um espaço de mercado. Eu e a grande produtora Sara Silveira estivemos em reuniões com distribuidores, agentes de vendas e players internacionais olhando para o filme também dentro de uma perspectiva de circulação, posicionamento e mercado global.

Mas, ao mesmo tempo, acredito profundamente que existe algo muito poderoso quando uma história como a da Carolina consegue atravessar esse espaço e gerar interesse internacional. Porque, no fundo, isso significa que uma mulher negra, pobre, periférica, que escreveu sobre fome, dignidade e sobrevivência dentro de uma favela brasileira, está hoje sendo reconhecida em um dos maiores centros do cinema mundial.

E existe um simbolismo muito forte nisso tudo. Pensar que Carolina Maria de Jesus, décadas atrás, foi impedida de entrar em uma comemoração em um restaurante após a conquista da Palma de Ouro de O Pagador de Promessas, revela muito sobre o Brasil daquela época e sobre quem podia ou não ocupar determinados espaços. Então, existe algo profundamente emocionante e simbólico em pensar que hoje um filme inspirado em sua vida está sendo premiado justamente dentro do Festival de Cannes, reconhecido pelo mercado internacional através do Goes to Cannes.

Estar em Cannes percebendo compradores internacionais emocionados, interessados e profundamente conectados com essa narrativa provoca em mim uma sensação muito forte de transformação histórica. Porque acredito que o mercado internacional também está buscando autenticidade. Histórias humanas reais, personagens complexos, emoções verdadeiras e narrativas que carregam identidade cultural forte, mas ao mesmo tempo possuem conexão universal.

E Carolina possui exatamente isso. Existe uma sofisticação emocional, política, poética e cinematográfica muito rara na trajetória dela. Por isso, acredito que esse não é apenas um filme sobre o Brasil. É um filme sobre humanidade. Portanto, o trabalho continua. Ainda estamos em busca de grandes agentes de vendas e distribuidores internacionais que compreendam a força artística, emocional e cultural desse filme para o mundo.

Maria Gal em Cannes: filme em que ela interpreta Carolina de Jesus foi premiado
SORAYA URSINE

Filmes como Moonlight e Parasita mostraram que histórias profundamente locais também podem se tornar universais quando são contadas com autenticidade, sofisticação cinematográfica e verdade humana. Acreditamos que “Carolina” possui essa mesma potência de conexão global. Por isso, buscamos diálogo com grandes players internacionais como MK2, Neon, A24, Sony Pictures Classics, entre outras grandes empresas que acreditam em cinema autoral com impacto global.

A favela do Canindé onde Carolina morava já não existe como ela descreveu — recentemente, o Brasil saiu do mapa da fome. Como acha que o filme dialoga com o presente?
Infelizmente, acredito que o filme dialoga de forma muito profunda com o presente, porque a fome, a desigualdade e a invisibilidade social continuam sendo problemas extremamente atuais, não apenas no Brasil, mas em várias partes do mundo.

Vi pessoas morando nas ruas em Los Angeles, França e em outros países, e percebi como essas questões sociais continuam presentes globalmente, ainda que em contextos diferentes. E talvez seja justamente por isso que Carolina Maria de Jesus continua tão contemporânea. Embora ela tenha escrito décadas atrás, sua voz ainda conversa diretamente com o nosso tempo, com as dores humanas e com a necessidade urgente de dignidade.

Embora ainda não finalizado, há alguma cena, fala ou aspecto da Carolina que você gostaria que estivesse na versão final do filme?
Ainda estamos em processo de montagem e refinamento do corte final do filme, então, essa é sempre uma pergunta delicada, porque o filme continua vivo criativamente até a finalização. Mas existe algo muito bonito — e ao mesmo tempo difícil — no processo de edição.

Muitas vezes, cenas incríveis acabam ficando de fora não por falta de qualidade ou importância, mas porque o cinema também exige ritmo, síntese e construção emocional. Isso acontece em grandes filmes o tempo inteiro. Existem, por exemplo, cenas históricas gravadas por Michael Jackson que ficaram de fora de versões finais de videoclipes e filmes musicais, mesmo sendo artisticamente poderosas.

Com Carolina também acontece um pouco isso. Ela era uma mulher tão rica, tão complexa e tão multifacetada, que é impossível colocar toda a sua profundidade em um único longa-metragem. E talvez uma das coisas mais bonitas nela seja justamente essa complexidade humana. Carolina não era apenas a mulher da fome. Ela era extremamente poética, inteligente, divertida, crítica, sensível e profundamente consciente do mundo ao seu redor.

Como você se prepara para viver uma personagem? E quando acabam as filmagens, você ainda escuta a voz da personagem dentro de si em alguma situação do cotidiano?
Meu processo de preparação para interpretar Carolina Maria de Jesus foi extremamente intenso, físico, emocional e espiritual. Passei fome durante parte da preparação, emagreci 18 quilos, cortei o cabelo e mergulhei profundamente no universo dela. Fiz preparação com coaches do Brasil e dos Estados Unidos, incluindo Ivana Chubbuck e Clayton Nascimento. Também caminhei pelas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro como uma mulher em situação de rua e catadora de papel, buscando compreender minimamente os silêncios, os olhares e a invisibilidade social que Carolina enfrentava diariamente.

Treinei fisicamente de forma muito intensa, chegando a fazer academia até cinco vezes por semana e pegando muito peso, porque Carolina carregava grandes sacos de papel e lixo nas costas todos os dias. Também fiz aulas de canto, trabalhando músicas da própria Carolina Maria de Jesus, li inúmeros livros ligados ao universo dela e ao contexto histórico e social do Brasil, além de assistir muitos filmes que dialogam com questões humanas e sociais profundas.

Entre as grandes referências que assisti durante o processo estão obras de Spike Lee, Ava DuVernay, Ryan Coogler, Denzel Washington, Viola Davis, Will Smith, Michael B. Jordan e outros artistas que trabalham narrativas sociais com profundidade emocional, potência política e humanidade. E esse encontro foi tão profundo que hoje também estou escrevendo um livro sobre toda essa jornada da Carolina Maria de Jesus na minha vida. Para mim, interpretar Carolina nunca foi apenas construir uma personagem. Foi entrar em contato com uma força humana, histórica, artística e espiritual muito rara.

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