Marte é marketing: fortunas continuam a ser acumulada na Terra com suor e sangue

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Apanho o telefone celular e vejo a notificação deste jornal: Elon Musk torna-se o primeiro trilionário da história humana. Na sequência, começo a esboçar algumas reflexões sobre o fato de não existir nada de espantoso nisso, apesar de ser algo novo, visto ser uma possibilidade normalizada na lógica de acumulação capitalista desde Astor e Rockefeller.

A primeira constatação é quase ingênua de tão óbvia: ninguém acumula um trilhão de dólares sozinho. A fim de que isso aconteça, sociedades inteiras precisam trabalhar, a humanidade inteira é explorada, e o planeta acaba por ser tratado como mina, armazém e caixote do lixo. Um trilionário não é um indivíduo excepcional, somente é a ponta “dourada” de uma estrutura violenta e espoliadora.

Uma segunda: ninguém trabalha até se tornar trilionário. Uma fortuna dessa dimensão não se constituiu do salário mensal, nem do “gênio” e de quem “acordou cedo”; mas do trabalho coletivo de milhões de pessoas transformado em capital privado. Portanto, a questão central não é quanto um trilionário produziu e, sim, quanto conseguiu apropriar.

A ideologia liberal-capitalista repete ad nauseam que os “reais” produtores de riqueza são os multimilionários. A pandemia da Covid-19 demonstrou didaticamente o contrário: se trabalhadores e trabalhadoras não saem de casa, nada funciona; não há comida, transporte, hospitais, fábricas, energia, limpeza, escolas, cuidados, etc. O mundo parou não porque os bilionários tossiram, mas porque os verdadeiros produtores da riqueza tiveram de parar. Insisto, um trilionário não cria riqueza; apropria-se da riqueza socialmente produzida.

Nesse sentido, identificamos uma falsificação em torno dos super-ricos. Por trás de cada fortuna incalculável existem milhões de “mãos invisíveis” — parafraseando um dos grandes teóricos do capitalismo —, professores, cientistas, operários, motoristas, programadores, técnicos, funcionários públicos, mineiros, entregadores, assim como serviços públicos e cadeias mundiais de produção. Não obstante, no altar sagrado do individualismo, aparece apenas o nome do proprietário que assina a fortuna.

A ideologização do génio individual — o super-homem de blazer e ego espacial — serve para ocultar a estrutura que possibilita a acumulação capitalista. Nenhum trilionário existe sem Estado, sendo mais preciso, o capitalismo é também um projeto de Estado. Não existe Musks e Cia sem infraestruturas públicas, contratos milionários, subsídios, encomendas estatais, investimento público em tecnologia, leis fiscais moldadas aos interesses dos ricos. A verídica “subsídio-dependência” mora no topo da pirâmide, mas usam ternos caríssimos e se autointitulam de “inovadores”.

A crise de 2008 expôs isso com limpidez. Sempre que os lucros crescem, chamam-lhe mercado, mas quando a bolha estoura, demandam o Estado; socializam prejuízos, privatizam ganhos e ainda exigem aplauso por “salvarem a economia”. O Estado que (seletivamente) dizem ser obstáculo torna-se, na “hora certa”, a veia por onde corre dinheiro via emissão de dívida públicas, resgates, etc. para salvar os ricos e depauperar os pobres.

Noutros termos: a crise é para nós — dos mais paupérrimos aos pobres premium, porque para os bilionários a crise é oportunidade. Quer dizer, em “prol” dos 99%, é inflação, fome, alugueis impagáveis, dívida para suprir o básico, precariedade laboral, desemprego e estreitamento do horizonte futuro (desesperança e medo). Para os super-ricos, é ocasião para comprar ativos desvalorizados, engolir concorrentes menores, reforçar oligopólios, monopólios e prosseguir a marcha infinita e destrutiva da acumulação capitalista.

A espuma dos dias faz-nos fixar na extravagância das classes dominantes: iates, ilhas, aviões privados, viagens espaciais e mansões inimagináveis, todavia, esses luxos são praticamente detalhes diante do problema central, que é o poder econômico e político. Multimilionários compram influência, silêncio, agenda pública, comunicação social, plataformas, políticos e, quando necessário, novas regras do “jogo” da acumulação.

Numa sociedade onde há trilionários, não existe democracia no sentido forte do termo, pois quem financia campanhas controla os meios de comunicação de massa e as big techs, “molda” leis, compra influência e têm os seus interesses preservadores, independente dos governos ou dos resultados das urnas — uma pista para se compreender o crescimento da abstenção eleitoral.

Alguns traços da “democracia” formal “sobrevive”, enquanto a plutocracia comparece em eventos de bancos, reuniões privadas e fóruns onde o “diálogo” costuma significar: os ricos conversam e decidem, os pobres (preguiçosos) “que se explodam” — para não dizer outra coisa.

Fome e miséria

A grande maioria não se comove com a fome e a miséria. Contudo, o mundo de hoje não está organizado pela escassez, produzimos mais alimentos do que o necessário. Ou seja, a fome não existe porque falta riqueza ou capacidade produtiva; existe porque a riqueza socialmente produzida foi sequestrada por uma “imensa” minoria. Nestas condições, a pobreza não é fatalidade natural: é uma decisão política.

Nada expressa “melhor” esse cinismo do que a filantropia bilionária. Depois de concentrarem montanhas de capitais, alguns super-ricos “devolvem” migalhas das migalhas e esperam agradecimento público. A filantropia torna aceitável aquilo que deveria ser intolerável: a concentração privada da riqueza socialmente produzida. É lavagem de reputação com dedução fiscal.

Na face do capitalismo de plataforma, essa violência ganha nova forma, as big techs concentram poder econômico, informacional e político. Musk, Bezos e companhia são apresentados como criadores solitários de foguetes, satélites, plataformas e modelos de linguagem generativa. Porém, os elementos fundamentais dessas tecnologias surgiram de esforço coletivo, conhecimento científico acumulado ao longos dos séculos, universidades, financiamento público (setor militar) e a exploração de centenas de milhares de trabalhadores. A “destruição criativa”, na maioria das vezes, é apropriação privada com marketing futurista.

Trilionários não deveriam existir. Não por inveja, ressentimento ou moralismo — esses rótulos preguiçosos usados quando faltam argumentos para os defensores de bilionários. Não deveriam existir porque uma sociedade que permite a 12 pessoas terem mais riqueza do que metade da humanidade é profundamente antidemocrática, violenta e destrutiva. Quando poucos têm mais poder econômico do que países inteiros, a liberdade da maioria torna-se devaneio administrado.

Por isso, entramos num período histórico perigoso e limite, o crescente número dos bilionários e o surgimento de trilionários — aumento da concentração da riqueza —, indicam que não há sociedade nem planeta para todos dentro desta lógica. A crise estrutural do capitalismo, combinada com a crise ecológica, empurra-nos para uma policrise. Nesse cenário, o neofascismo apresenta-se como forma política eficaz para proteger a ordem, disciplinar os de baixo e garantir que a acumulação continue sobre ruínas.

Temos de ultrapassar o tempo da queixa, é necessário ir além de denúncias tímidas. Nós, os 99%, precisamos de organização, programa, conflito e horizonte de transformação, porque a hipótese de viver em Marte não passa de marketing de trilionário: uma fantasia publicitária para esconder que a sua verdadeira nave espacial é a acumulação capitalista, e o combustível é o trabalho explorado de todos nós e do planeta que habitamos.

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