Metade da população portuguesa terá consumido suplementos alimentares no último ano

0
1

Nas redes sociais ou à nossa volta, os suplementos alimentares parecem estar a ganhar mais e mais espaço. A realidade nem sempre corresponde, mas a investigação de doutoramento de Maria João Campos, da Universidade de Coimbra, mostra que não são meras percepções. Num inquérito a mais de mil pessoas, quase metade (47%) tinha consumido suplementos alimentares nos 12 meses anteriores ao questionário.

O número pode surpreender, mas alinha-se com o que se verifica noutros países europeus. Por exemplo, em Espanha, um inquérito da Organização de Consumidores e Utilizadores de 2025 mostrava que 58% dos inquiridos tinham tomado algum suplemento no último ano —​ eram 42% em 2021.

O inquérito português, inserido na tese de doutoramento de Maria João Campos, defendida e aprovada em Janeiro deste ano, não permite tirar conclusões para toda a população portuguesa, mas dá várias pistas. “Tudo aponta para que haja um elevadíssimo consumo, que na população adulta deve rondar os 50%”, explica ao PÚBLICO.

Um estudo de mercado promovido pela Associação Portuguesa de Suplementos Alimentares em 2024 identificou 43,9% de consumidores actuais de suplementos alimentares numa amostra de 1000 pessoas que já tinham ouvido falar nestes produtos, um valor muito parecido ao encontrado no doutoramento de Maria João Campos.

Os suplementos alimentares são produtos alimentares que concentram numa cápsula, por exemplo, nutrientes como vitaminas, minerais, aminoácidos ou até enzimas que se destinam a complementar ou suplementar a alimentação. Podem ir de cápsulas de vitamina D a fórmulas com extractos de ervas, como ginseng. Muitas vezes são apresentados como soluções para regular o sono, controlo hormonal ou até para bronzear —​ mas os suplementos alimentares apenas podem servir como complemento a alguma carência nutricional ou em situações de doença. E, como diz a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, “a maioria das pessoas satisfaz as suas necessidades em termos de nutrientes através dos alimentos”, pelo que a suplementação é desnecessária.

Destino saudável

A nutricionista e investigadora na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra descobriu ainda um contra-senso nos dados: quem mais toma suplementos alimentares é quem tem um estilo de vida mais saudável. São pessoas que comem alimentos mais saudáveis, fazem refeições várias vezes ao dia, não fumam e dizem ter conhecimento sobre nutrição. “Teoricamente, aqueles que menos precisariam de melhorar a sua ingestão nutricional através dos suplementos são aqueles que mais consomem”, acrescenta.

Aliás, entre quem respondeu ao inquérito sobre o consumo de suplementos alimentares, cujos resultados foram já publicados na revista Nutrients, há 301 profissionais de saúde, e o consumo neste grupo é ainda superior —​ perto de 70% dos inquiridos tomaram suplementos.

O que explica este consumo? Não há uma resposta certa. Uma das hipóteses avançada por Maria da Graça Campos, também da Universidade de Coimbra, é o assédio activo às pessoas saudáveis através da publicidade e do marketing destes suplementos. “As pessoas que têm mais cuidado com elas mesmas são aquelas que vão beber muito rapidamente a informação que lhes vão dar. Não só vão beber e vão consumir essa informação, como são as que estão mais aptas para a divulgar”, diz, recordando uma sessão de lobby em que participou e em que esta estratégia lhe foi apresentada.

A pressão publicitária destes suplementos é apenas uma hipótese, mas é corroborada por algumas práticas online famosas, como a promoção de suplementos por influenciadores ligados ao exercício físico e à alimentação.

“Os alvos de muitos destes suplementos são doentes polimedicados, tanto com doenças crónicas (hipertensão, diabetes) como doentes oncológicos. Ter um profissional de saúde a fazer a recomendação é fundamental por causa da terapêutica que podem estar a fazer”, acrescenta Maria da Graça Campos.

Estes suplementos devem ser reforços em caso de necessidade e os números não mostram isso. Além da despesa financeira, da desinformação e dos riscos de consumo excessivo, há outro dado que preocupa Maria João Campos: muitos dos inquiridos consomem suplementos, mas não por indicação de um profissional de saúde.

“Isso é o principal ponto para a preocupação em termos de saúde pública. Porque as pessoas acham que os suplementos são naturais, e como são naturais não fazem mal, e de naturais pouco têm”, aponta. Além disso, podem interagir com medicamentos que as pessoas estão a tomar e ser nocivos. Por exemplo, tomar doses elevadas de hipericão pode interferir com o sucesso da pílula anticoncepcional. Ou suplementos com ginseng em conjunto com a toma de estatinas podem provocar dores musculares.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com