O pianista e compositor de jazz sul-africano Abdullah Ibrahim morreu esta segunda-feira “serenamente”, aos 91 anos, na Alemanha, anunciou a família, em comunicado.
Nascido Adolph Johannes Brand, em 1934, começou a ter aulas de piano aos sete anos, influenciado pela mãe, que tocava na igreja e acompanhava também projecções de filmes mudos.
De acordo com o seu site oficial, ao longo da sua carreira de mais de 75 anos Ibrahim ajudou a expandir a linguagem do jazz ao ligar directamente o género desenvolvido em Nova Iorque às suas raízes africanas.
Foi precisamente para Nova Iorque que se mudou devido ao apartheid sul-africano, tendo vivido na cidade mais de 30 anos. Residiu no mítico Chelsea Hotel, estudou na Juilliard, prestigiada escola para o ensino da música, da dança e do teatro, e constituiu família.
“Nova Iorque foi excelente para mim. Ainda é. Há muitas oportunidades para estudar e aprender, foi isso que Nova Iorque me deu. O mundo inteiro está lá. Eu queria estudar, e queria estudar com [Thelonius] Monk, mas era virtualmente impossível, porque ele era uma pessoa muito especial”, contou ao PÚBLICO, em 2019.
Não havendo Monk, Abdullah Ibrahim voltou-se para Hall Overton, homem que fazia os arranjos do pianista e compositor norte-americano e que era, em simultâneo, professor na Juilliard, mesmo não tendo dinheiro para estudar com ele. “Um dia, peguei nas Páginas Amarelas [directório que lista empresas, serviços e profissionais, com respectivos contactos e localização, e que à data seria distribuído em formato físico gratuitamente] e procurei por organizações de filantropia. Havia 125 organizações de filantropia! Peguei em papel, envelopes e escrevi, pelo meu próprio punho, para todas elas: ‘Quero estudar. Pode ajudar-me?’ Um dia, recebi a resposta da Fundação Rockefeller, pedindo para me encontrar com eles. Recebi uma bolsa e fui estudar com Overtone. Através das Páginas Amarelas!”
Compor e resistir
Nos anos 1960, o jazz tornou-se um símbolo da resistência ao regime segregacionista sul-africano devido à diversidade racial dos seus grupos e do seu público e foi também essa a década de viragem para o músico.
Ibrahim e a sua futura mulher, a cantora Sathima Bea Benjamin, tinham assinado um contrato para actuar num clube em Zurique, na Suíça. Foi ali que o músico sul-africano foi descoberto pelo pianista norte-americano Duke Ellington (1899-1974), que ficou tão impressionado que o levou para uma sessão de gravação em Paris. Corria o ano de 1963.
“Tocámos uma música para ele e, no dia seguinte, apanhei o comboio para Paris e ele gravou-nos”, recordou Ibrahim, numa entrevista ao portal AmNews, citada no seu site.
Na mesma entrevista ao PÚBLICO confessava, assim, a sua admiração pelo músico: “Ellington já nos influenciava ainda antes de o conhecermos. Marcou todas as dimensões da música contemporânea. Onde quer que tente ir musicalmente, irá descobrir que Ellington já esteve lá antes. Envolvermo-nos diariamente com a sua música foi e ainda é uma experiência de aprendizagem. Creio que, em certa medida, o alcance e a mestria da sua música ainda não foram totalmente compreendidos.”
Abdullah Ibrahim actuou na tomada de posse de Mandela como primeiro Presidente negro da África do Sul, em 1994, e fez questão de fundar uma escola de jazz no país, mas sem nunca deixar de se empenhar na sua carreira internacional.
Durante uma visita à África do Sul, em 1974, gravara a composição Mannenberg, considerada por muitos uma peça central do movimento anti-apartheid, pelo uso frequente que dela fizeram em manifestações e protestos, lembra ainda a página oficial do músico.
Apesar da idade, para este ano o pianista tinha já anunciados três concertos na Alemanha: um recital a solo a 28 de Julho, em Munique, no âmbito do Jazz Sommer im Bayerischen Hof, e duas actuações de piano a solo nos dias 30 e 31 de Outubro, no Gasthof Hirzinger, em Söllhuben.
Em Portugal, actuou pela última vez em 2022, no Theatro Circo, em Braga, mas passou por outros palcos, de que são exemplo o da Culturgest, em Lisboa, em 2011 e 2016, e o do Guimarães Jazz, em 2006.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com






