De todos os primatas que conhecemos (e são centenas), apenas um não está coberto de pelo: os humanos. Daqui Desmond Morris (1928-2026) retirou o título da sua obra maior, publicada em 1967, O Macaco Nu – um provocador livro que enquadra o Homo sapiens no universo dos primatas e dos animais. Desmond Morris foi zoólogo, apresentador de televisão, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Morreu este domingo, aos 98 anos, foi anunciado esta segunda-feira.
A zoologia serviu de primeira plataforma antes de se dedicar sobretudo às artes – chegou a expor paredes meias com Joan Miró, por exemplo. Nascido em Wiltshire (Reino Unido), Desmond Morris doutorou-se com o estudo do comportamento reprodutivo das aves na Universidade de Oxford (Reino Unido). Antes de se tornar um embaixador científico dos mamíferos, tornou-se um rival de David Attenborough (de quem sempre foi amigo) –, que iniciou o programa Zoo Quest em 1954, na BBC. Já por seu lado, Desmond Morris era, em 1956, a cara do canal ITV Granada, com o programa Zoo Time (que durou até 1967), em que especialistas exploravam o comportamento animal.
O grande sucesso, todavia, chegaria em 1967 com a publicação de O Macaco Nu, uma obra icónica, escrita em quatro semanas, quer por enquadrar os seres humanos como mais um primata no planeta, quer por abordar a evolução humana de modo tão popular. Se esta ideia de que o Homo sapiens devia ser analisado no contexto de pertença ao mundo animal já era clara entre os cientistas, o mesmo não se pode dizer da população que vivia longe dos holofotes científicos. Era um relato acessível a todos de que os humanos eram meros primatas – com as devidas ressalvas sobre a civilização, a cultura ou andarmos sobre dois pés. Vendeu mais de 20 milhões de cópias em todo o mundo, mesmo com a Igreja Católica a proibir o livro.
A tese central, de que muito do comportamento humano pode ser compreendido à luz do comportamento animal, mantém-se actual, embora muitas das observações e constatações tenham sido refutadas ou contestadas (algumas, inclusive, na altura do lançamento do livro). Por exemplo, uma das críticas recorrentes é a remoção do papel das mulheres no período dos caçadores-recolectores – não só nas semanas em que homens estavam fora em caçadas, mas na recolha de plantas ou na caça de pequenos animais. Ou a afirmação de que os seios femininos têm como função principal atrair homens – algo também refutado, basta pensar até na amamentação, como indicou Adam Rutherford, biólogo evolutivo, ao jornal The Guardian.
Enquanto fenómeno de popularização da ciência e disseminador da ideia de que somos humanos, mas devemos pensar em nós também como primatas, o livro de Desmond Morris não errou. O britânico nunca parou de analisar os humanos ao longo da sua vida e disso são exemplo livros como A Tribo do Futebol (1981) e o Macaco Criativo (2013).
O surrealista
Nem todos teriam a capacidade de transitar de um zoo para um museu artístico – parecem mundos distintos. No entanto, assim aconteceu. Em 1967, meses antes do lançamento de O Macaco Nu, transferiu-se para o Instituto de Artes Contemporâneas oriundo do Jardim Zoológico de Londres – onde era curador de mamíferos. O sucesso do livro adiaria o reconhecimento pelo seu trabalho artístico.
Era um surrealista. Na sua primeira exposição em Londres, já em 1950, partilhou a galeria com Joan Miró, figura proeminente do surrealismo. Entre o sucesso dos programas televisivos e o êxito de livrarias, Desmond Morris tornou-se um nome famoso pela ciência e pela zoologia. A ligação entre os dois mundos sempre esteve presente. Ajudou o chimpanzé Congo (que morreu em 1964) a produzir alguns quadros, demonstrando a habilidade destes primatas para desenvolver peças artísticas – embora num estilo abstracto. O jovem chimpanzé criou em três anos mais de 400 quadros.
DR
No final do século XX e no século XXI, o seu trabalho como pintor surrealista tornou-se mais central na sua vida, com várias exposições patentes em toda a Europa. Em 2022, publicou o seu último livro Os Surrealistas Britânicos, um estudo sobre o movimento artístico no Reino Unido.
Morreu este domingo, aos 98 anos, como um dos cientistas que mais contribuíram para a popularização da antropologia, da zoologia e da interiorização dos humanos como um primata. Para lá das objecções e dos avanços científicos que reenquadram as questões, Desmond Morris continuará a ser lembrado como um dos primeiros a colocar o humano no seu lugar – junto aos primatas.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com







