É a segunda experiência do género em que a Adega Cooperativa de Favaios embarca. E apesar de duas viagens não fazerem um histórico, os enólogos da cooperativa do planalto duriense têm uma ideia do que pode acontecer. Se for como com a colheita de 1999, este Moscatel de Favaios Colheita 2010 há-de voltar “mais interessante, em todos os aspectos”.
Duas pipas do dito Moscatel do Douro, de 250 litros cada, e previamente seladas pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, entidade que supervisiona a denominação de origem, levantarão âncora esta quinta-feira, 30 de Abril, para uma viagem de quase cinco meses em alto-mar. Seguirão na ponte do navio-escola Sagres, rumo aos EUA e numa missão que integrará as comemorações dos 250 anos da declaração de independência dos EUA — momento ao qual a História associa, curiosamente, outro vinho fortificado português, o vinho Madeira —, “expostas aos elementos do oceano e ao ritmo das marés, numa experiência de envelhecimento singular que só a navegação de alto-mar proporciona”, sublinha a Adega de Favaios em comunicado.
À Fugas, Miguel Ferreira, o director de enologia da adega, contou que, quando foi do moscatel de 1999, a primeira surpresa foram as “enormes perdas por evaporação” que as duas barricas enviadas além-mar sofreram. “Tivemos perdas na ordem dos 20%, a maior parte por evaporação, outras por gotejamento, porque houve zonas em que a barrica secou muito [e a madeira cedeu e vazou].” O normal, e nos armazéns da Adega de Favaios no Douro — onde o ambiente é mais seco do que, por exemplo, em Vila Nova de Gaia, onde se envelhece outro fortificado, o vinho do Porto — é haver uma “evaporação de 5% a 6%”.
Em 2018, o Moscatel Colheita 1999 percorreu 13.162 milhas náuticas a bordo do navio-escola Sagres ao longo de seis meses, tendo feito escala em dez portos. Regressou “mais interessante, em todos os aspectos”, recorda Miguel Ferreira sobre as surpresas boas dessa primeira experiência.
“O vinho ficou muito mais concentrado, houve um aumento do teor álcool e um aumento da acidez total e, a nível aromático, um acelerar da sua evolução, como se tivesse envelhecido quatro ou cinco anos.” O moscatel retornado tinha mais doçura, mais álcool e mais acidez, mas “tudo tinha sido exponenciado, mas havia equilíbrio”, nota o enólogo. Razão, de resto, pela qual, a adega não viu necessidade de refrescar ou corrigir de alguma maneira o vinho.
“Estavam mais evidentes as notas dos frutos secos, do sotolon [molécula que se forma nos vinhos com envelhecimento oxidativo e que lhes confere um aroma a caramelo doce], notas caramelizadas, uvas-passas. Em boca, também se notava esse envelhecimento e a concentração do vinho.”
Esse vinho continua a estagiar em Favaios, lado a lado com “o irmão” que ficou em terra, ou seja, o mesmo moscatel de 1999 — o vinho de controlo, se quisermos. Este tem vindo a ser engarrafado e está disponível no mercado, o vinho retornado ainda há de ter direito a um lançamento especial.
Como e o que escolher
E como é que se escolhe um vinho para enviar para alto-mar e ver o que lhe acontece? Bem, para começar, ser um moscatel colheita — de um só ano e não um lote de vinhos de diferentes idades — retira a influência de quem faz o blend. Depois, e no caso da Adega de Favaios, a enologia está sempre de olho em parcelas de moscatel que prometem vinhos diferenciados. E, finalmente, mas sem ser um factor de somenos, há o ano vitícola.
“Tentamos vinificar alguns moscatéis de uma forma um bocadinho diferente, com uma selecção de uvas mais atenta, com o objectivo de sempre fazer moscatéis para envelhecer. São vinhos muito bons, mas a verdade é que nem sempre são excelentes.” E 2010 tinha características para ser um vinho especial. É filho de uma das tais parcelas que a adega trata à parte, com outros cuidados, e de “um ano muito bom no planalto” de Favaios.
“Apesar de termos tido um verão quente, não tivemos picos de calor. Lembro-me que as temperaturas médias até foram altas, mas nunca houve daqueles picos que trazem às uvas falta de equilíbrio e harmonia. Tivemos chuva quando ela fez falta, foi óptimo para o moscatel”, recorda Miguel Ferreira.
A sua equipa provou outros candidatos, nomeadamente um moscatel de 2011, mas “em prova o 2010 relevou-se excepcional”, com “grande concentração aromática já e uma acidez muito boa”. Ou seja, “já tinha potencial à partida”. Potencial de regressar do estágio que fará agora no mar tão bom ou melhor do que o 1999, espera o responsável, sem querer criar outra expectativa que não seja a de “perceber como a viagem vai influenciar o vinho”. “No fundo, não temos propriamente um objectivo, ou antes, não há outro que não seja esse.”
Se a brisa e os salpicos de mar influenciam o vinho neste tipo de experiências? Miguel Ferreira conta que, na altura do 1999, foram feitas provas desse vinho com o testemunho e mesmo com outros colheitas à mistura, para despistar o painel de provadores, e que houve quem detectasse no 1999 viajado distintas “notas de mineralidade e salinidade”. Não foi o seu caso, confessa. Evoluído, mais complexo, sim. Mais salgado, é discutível, depreende-se das suas palavras.
A missão em que parte esta quinta-feira o Navio da República Portuguesa (NRP) Sagres tem vários propósitos: diplomacia, cultura e presença junto da diáspora portuguesa. O roteiro da viagem inclui paragens em Hamilton, Norfolk, Baltimore, Nova Iorque, Boston e New Bedford, passando pelo arquipélago dos Açores, pela Praia da Vitória e Ponta Delgada, depois por Lisboa e pelo Funchal, e tem término previsto novamente na capital a 21 de Setembro.
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Para além das duas pipas do Moscatel do Douro, seguem a bordo os vinhos tintos e brancos Casa Velha, a marca com que a Adega de Favaios engarrafa os seus vinhos com denominação de origem controlada (DOC) Douro, espumantes e os emblemáticos Favaítos, para consumo nos momentos de agenda da missão. O que faz dela também uma missão de charme além-fronteiras.
A Adega de Favaios produz anualmente dois milhões de garrafas de Moscatel Clássico de Favaios, é o principal produtor deste fortificado na região demarcada do Douro e líder no mercado nacional de moscatéis.
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