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Uma conversa iniciada por acaso em um café de Lisboa transformou-se em amizade, parceria artística e, recentemente, no lançamento do primeiro álbum do duo TeuMarulo. Os brasileiros Matheus Maneschy, conhecido artisticamente como Teu, e Gabriel Marinho, o Marulo, ambos de 33 anos, descobriram afinidades que iam muito além da condição de imigrantes.
O resultado desse encontro é Alguém Aqui Agora, disco lançado nas plataformas digitais em maio e construído a partir de reflexões sobre identidade, pertencimento, deslocamento e transformação. Além da produção musical, a dupla desenvolve projetos educativos em escolas portuguesas e já realizou apresentações em várias cidades de Portugal e da Itália.
Quando descobriram uma coincidência importante, a de que ambos eram músicos, nasceu uma parceria marcada por poesia, histórias pessoais, amores, dores, descobertas e inquietações comuns. E o trabalho conjunto reúne oito composições autorais inspiradas em anos de vivências fora do Brasil. As canções mergulham em questões ligadas à imigração, à constante reinvenção da identidade e às transformações que acompanham quem vive entre diferentes culturas.
O disco, conforme os autores, parte da experiência concreta do deslocamento e da sensação de não pertencer integralmente a lugar algum. Logo nas primeiras faixas, o álbum apresenta um personagem que questiona a própria identidade. “É… já não sei ao certo qual é o meu nome, de onde vim”, diz um dos versos que funcionam como porta de entrada para a narrativa construída ao longo do trabalho.
A obra também aborda a contradição entre a fluidez da vida contemporânea e a necessidade permanente de reafirmação de identidade. Em outro trecho, surge a reflexão: “sei que fui muita coisa, nenhuma delas é sobre mim”. Entre deslocamento e pertencimento, as músicas constroem uma escuta sensível sobre tempo, memória, transformação e impermanência, ainda de acordo com os autores das canções.
Raízes na MPB
Musicalmente, o álbum finca raízes na tradição da música popular brasileira. Voz e violão ocupam o centro da construção sonora, mas dialogam com elementos da música independente e alternativa contemporânea. Com aproximadamente 25 minutos de duração, o trabalho privilegia a força das letras, o silêncio e os espaços de respiração, sem abrir mão da intensidade emocional.
Participam do projeto o baterista Fernando Baggio, o baixista Meno Del Picchia, o tecladista Batata Boy e as cantoras Barbara Rodrix (filha de Zé Rodrix) e Eliza Flack, responsáveis pelos backing vocals e arranjos vocais. A produção musical é assinada por Marulo, enquanto a coprodução e a direção artística são divididas entre os dois integrantes do duo.
A busca pela sonoridade desejada levou Marulo, inclusive, a construir um estúdio dentro da própria casa. Foi nesse espaço que foram gravados os vocais e violões do álbum. O músico montou mais de dez painéis acústicos, um difusor e realizou todo o tratamento da sala para alcançar o resultado pretendido. Segundo a dupla, as canções também ganharam maturidade ao longo da turnê realizada em 2025, período em que foram testadas diante do público e encontraram a forma definitiva registrada no disco.
Identidade artística
O nome artístico de Gabriel tem origem familiar. Seu avô falava esperanto e costumava dizer que a palavra equivalente a “Marinho” naquele idioma era “Marulo”. O apelido acabou transformando-se em identidade artística. Nascido no Rio de Janeiro, Marulo chegou a Portugal em 2019 e vive atualmente em Lisboa. Antes de conseguir dedicar-se exclusivamente à arte musical, trabalhou em lojas e escritórios no Brasil. Mais tarde, durante uma temporada na Austrália, atuou como entregador de comida, garçom, lavador de pratos, cuidador de cães e músico de rua.
“Nosso trabalho é quase que o apresentar de um anti-discurso. Levo os meus questionamentos internos e dúvidas para que esbarrem com os outros. A nossa bandeira é a não-bandeira. Sinto que o resultado e o impacto são os rebuliços internos mais do que qualquer coisa. Qualquer movimento para além disso é um extra”, diz Marulo.
Ele acredita que a música possui a capacidade de ultrapassar fronteiras linguísticas e culturais, e não não são raras as situações em que pessoas que não falam português relatam compreender a essência das canções mesmo sem entender as palavras.
Ao recordar o primeiro encontro com Teu, Marulo afirma que não guarda uma impressão específica daquele momento, mas lembra da disposição mútua para a conversa. Segundo ele, a curiosidade de abordar uma pessoa desconhecida acabou alterando profundamente os rumos de sua vida e de sua carreira.
Mais do que um projeto musical, TeuMarulo também desenvolve ações educativas. Em 2025, a dupla percorreu escolas portuguesas com um espetáculo que une música e palhaçaria para discutir identidade, diversidade cultural e pertencimento junto ao público infantil.
“As pecas infantis que fizemos são um grande diferencial do universo que criamos. Fazer uma peça infantil com temas profundos e inquietantes foi um grande desafio e uma grande conquista, pois mudou a maneira como a gente entende as canções e a nossa forma de lidar com as pessoas. Foram mais de 120 peças realizadas desde a Páscoa de 2025, uma loucura” conta Marulo.
Experiência inexplicável
A experiência também surpreende os artistas pela participação das crianças. “É sempre uma loucura quando as crianças advinham as nossas próximas falas. É inexplicável”, ressalta Marulo. Segundo ele, o grupo pretende ampliar a circulação do projeto para outras regiões portuguesas e levar os espetáculos para além dos grandes centros urbanos. “Parece que toda cidadezinha tem pelo menos um excelente auditório”, menciona o artista.
Já Matheus Maneschy nasceu em Belém, no Pará, e vive em Lisboa desde 2013. Antes da mudança para Portugal, trabalhou como publicitário, guia turístico e músico. Para ele, a criação artística não pode ser medida por números ou resultados imediatos. E o processo de composição nasce das experiências vividas e das observações acumuladas ao longo dos anos.
“Dialogamos bastante com o público brasileiro, mas temos tido experiências mágicas inclusive com quem não fala a língua portuguesa. No show que fizemos em Mondim de Basto, um senhor holandês chegou comigo no backstage e disse que o meu sobrenome significava luar em holandês. Até então eu não fazia ideia de onde tinha vindo esse nome”, relata o músico paraense, entre risadas.
A dupla já se apresentou em cidades portuguesas como Coimbra, Porto, Mondim de Basto, Vendas Novas e Vila do Conde. No exterior, realizou concertos em Trani, Matera e Taranto, na região da Puglia, no sul da Itália. São experiências que reforçam a percepção dos músicos de que a arte pode criar vínculos mesmo quando não existe uma língua comum.
Ao lembrar o primeiro encontro com Marulo, Teu associa aquele episódio ao universo criativo que os dois desenvolveriam mais tarde. “Eu acho que aquilo foi uma prévia da palhaçaria que a gente viria a trabalhar juntos depois”, diverte-se.
A trajetória da dupla continua: em 26 de junho, eles sobem ao palco do Aethos Club, em Lisboa, para uma apresentação em formato voz e violão. Mais do que divulgar um álbum, o espetáculo representa a continuidade de uma parceria nascida do acaso e transformada em arte por dois brasileiros que encontraram na música uma forma de traduzir deslocamentos, encontros e novas maneiras de pertencer ao mundo.
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