Nanoplásticos coloridos em suspensão no ar podem estar a aquecer o planeta

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Minúsculos fragmentos plásticos suspensos na atmosfera podem estar a contribuir para o aquecimento global mais do que se pensava, sobretudo quando são partículas coloridas. A conclusão é de um estudo publicado esta segunda-feira na revista Nature Climate Change, que sugere que os micro e nanoplásticos — quando pigmentados — absorvem mais luz solar e podem, assim, contribuir para aumento da temperatura.

Microplásticos são fragmentos de polímeros com menos de cinco milímetros, resultantes sobretudo da desintegração de plásticos maiores utilizados na produção de embalagens, revestimentos e objectos. A sucessiva fragmentação dessas partículas nos solos ou na água pode levar à formação de nanoplásticos, que são ainda menores e invisíveis a olho nu.

Estas partículas minúsculas já foram encontradas nas zonas mais remotas da Terra, incluindo o gelo do Árctico, tendo sido transportadas por processos atmosféricos. Trabalhos anteriores apontavam para um tímido contributo do plástico em suspensão no ar para o aquecimento planetário, mas, segundo os autores deste novo estudo, muitas dessas análises partiam de uma premissa que não corresponde à realidade: a de que as partículas seriam incolores, quando muitos plásticos contêm pigmentos.

É o impacto do “factor cor” que os autores, liderados por uma equipa da Universidade de Fudan, na cidade chinesa de Shangai, procuram estimar para os micro e nanoplásticos atmosféricos. Para isso, os investigadores analisaram o comportamento de partículas individuais com espectroscopia electrónica de alta resolução e combinaram essas medições com simulações de transporte na atmosfera.

Os resultados do trabalho publicado na Nature Climate Change indicam que partículas pretas e coloridas “absorvem fortemente a luz solar” quando comparadas com as congéneres brancas, sugerindo um potencial de aquecimento anteriormente subvalorizado.

Os autores estimam que estas partículas de plástico em suspensão na atmosfera possam estar a contribuir para o aquecimento global com um efeito equivalente a cerca de um sexto do impacto do carbono negro, ou fuligem, um poluente atmosférico oriundo sobretudo da queima de combustíveis fósseis.

Esse contributo, embora descrito como pequeno à escala global, pode ser muito maior em certas regiões: o estudo refere que o efeito pode exceder o da fuligem “até um factor de 4,7”, sobretudo sobre áreas oceânicas com altas concentrações de plástico, como manchas de lixo no mar, incluindo a famosa ilha artificial de plástico do Pacífico Norte.

Reacção cautelosa dos cientistas

A publicação do estudo foi recebida por cientistas com interesse, mas também cautela. Sam Harrison, modelador ambiental no Centro do Reino Unido para a Ecologia e Hidrologia sublinha que há ainda “muita incerteza em torno da distribuição destas partículas na atmosfera e dos seus impactos no aquecimento atmosférico.”

Para Sam Harrison, o estudo “oferece provas que apoiam a ideia de que partículas de plástico presentes na atmosfera podem absorver luz e, por isso, podem levar a um aumento do aquecimento atmosférico”. “Precisamos de mais evidência antes de podermos concluir com confiança os impactos dos plásticos nas alterações climáticas”, afirma o investigador, numa declaração à plataforma Science Media Centre.

Jim Walker, investigador em ciência dos aerossóis na Universidade de Bristol, no Reino Unido, também destaca o foco do trabalho e a importância da cor. “Neste estudo, os investigadores usaram medições laboratoriais das propriedades ópticas de partículas de microplásticos para estimar o seu impacto potencial no clima global”, explica.

Walker insiste, porém, na margem de erro. “É importante reconhecer as incertezas substanciais associadas a estas estimativas, como acontece com os impactos dos aerossóis de forma mais ampla”, refere o investigador, citado pela mesma fonte.

Num comentário ao estudo, publicado na mesma edição da Nature Climate Change, Gilberto Binda chama a atenção para o facto de a investigação sobre microplásticos se ter centrado sobretudo em impactos ambientais e biológicos, enquanto a dimensão climática tem sido menos explorada.

“Estes resultados sugerem que os micro e nanoplásticos transportados pelo ar não são apenas um problema de contaminação ambiental, mas potencialmente um factor climático emergente. No entanto, persistem grandes incertezas”, alerta Gilberto Binda, investigador italiano que actuou como revisor do novo estudo durante o processo de revisão por pares.

Binda refere que “continuamos a não dispor de dados abrangentes sobre as concentrações na atmosfera, os tamanhos das partículas, a composição química e os processos de envelhecimento a longo prazo”. Dessa forma, considera essencial uma melhor monitorização e conjuntos de dados globais “mais robustos” para “aperfeiçoar os modelos climáticos e reduzir a incerteza destas estimativas”.

Os próprios autores reconhecem, de resto, que as experiências laboratoriais representam uma versão simplificada dos processos atmosféricos e que a distribuição global de fragmentos de polímeros precisa de ser melhor conhecida com medições. Ainda assim, defendem que estas partículas, em especial os nanoplásticos coloridos, podem ser um contributo “até agora não reconhecido” para o aquecimento e que o tema deve ser tido em conta em futuras avaliações do clima.

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