NAPA ganha platina dupla no Brasil por “Deslocado” e sonha em tocar no país

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Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.

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Depois de subir ao Palco Super Bock do Rock in Rio Lisboa, neste sábado (20), os cinco integrantes da banda madeirense NAPA receberam das mãos de Roberta Medina, vice-presidente do festival, o disco de platina duplo conquistado no Brasil com o single “Deslocado”. A entrega ocorreu logo após a apresentação, marcada para as 18h, no primeiro dia da 11ª edição portuguesa do evento.

Pelos critérios da Pró-Música Brasil, entidade que certifica vendas e reproduções de música no país, a platina dupla de um single internacional corresponde a 80 mil unidades equivalentes, o que, no consumo por streaming, equivale a cerca de 16 milhões de reproduções de áudio (ou 80 milhões de visualizações de vídeo). Em Portugal, “Deslocado” já soma o galardão de dupla platina. Segundo a mídia portuguesa, a marca alcançada no Brasil fez do NAPA a banda portuguesa atingir esse patamar mais rapidamente no mercado brasileiro.

Topo dos virais

Lançada em março de 2025, “Deslocado” venceu o Festival da Canção, promovido pela emissora pública RTP, e levou o NAPA a representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção, em Basileia, na Suíça, onde a faixa terminou em 21º lugar. A letra parte da experiência de deixar a Madeira rumo a Lisboa e da sensação de não pertencer ao novo lugar — um sentimento que a banda descreve como universal e que ajuda a explicar o alcance da música nas redes.

No Brasil, “Deslocado” chegou ao primeiro lugar do ranking viral do Spotify, impulsionada por milhares de vídeos no TikTok e no Instagram. O sucesso gerou desdobramentos brasileiros: o humorista e cantor Ed Gama gravou uma adaptação em ritmo de forró, que depois virou single oficial ao lado de Zé Vaqueiro; e o próprio NAPA lançou, em novembro de 2025, “Amor de Novo”, em parceria com a banda curitibana Jovem Dionísio.

A viralização também expôs as diferenças entre o português falado em Portugal e o do Brasil. Um verso que menciona o “monte de Betão” gerou dúvidas entre o público brasileiro, que não reconhecia a palavra — usada em Portugal para o que, no Brasil, se chama concreto.

Raízes brasileiras

A ligação do NAPA com o Brasil, porém, é anterior ao fenômeno. A banda — formada pelos irmãos Guilherme e Lourenço Gomes, ao lado de Francisco Sousa, Diogo Góis e João Rodrigues — cita Caetano Veloso, Tom Jobim, João Gilberto e Los Hermanos entre as influências que moldaram sua sonoridade.

O grupo esteve recentemente no Brasil para gravar o terceiro álbum, que tem produção do brasileiro Lucas Nunes e ainda não tem título nem data de lançamento confirmados. Em entrevista ao PÚBLICO Brasil logo após o show e a entrega do troféu, os integrantes falaram sobre o significado da conquista, a relação com o público brasileiro e o desejo de uma turnê pelo país.

Como é, para vocês, ganhar um disco de platina duplo do outro lado do mundo, do outro hemisfério, do outro lado do Atlântico?
Para nós é fantástico, é uma surpresa inacreditável. É uma celebração da união da língua portuguesa, diferente na sua maneira, mas com a mesma base e com o mesmo sentimento. E acho que nos resta ir lá tocar um dia destes. Acho que era o melhor.

Mesmo com o sucesso e além-mar, não há shows marcados no Brasil?
Nós adoraríamos ir ao Brasil. Já fomos lá agora gravar o nosso último álbum e é uma terra que adoramos. Sentimos uma forte conexão, porque muito da nossa música também é inspirada por música do Brasil — tanto os Los Hermanos como o Caetano Veloso, as músicas do Jobim e o João Gilberto. Toda essa música brasileira nos influenciou a fazer a nossa, por isso o Brasil tem sempre um carinho especial no nosso coração, e esperamos um dia ir lá tocar as nossas músicas.

Vocês esperavam que “Deslocado” fosse viralizar no Brasil? Qual foi a inspiração para escrevê-la e como foi saber que uma música portuguesa furou a bolha, chegou ao Brasil e virou sucesso?
O Guilherme, outro membro da banda, o vocalista, escreveu “Deslocado” sobre a nossa história de sair da Madeira para vir estudar e viver em Lisboa. É a saudade que a casa deixou: apesar de crescermos numa cidade que nos acolhe e onde temos muito gosto em viver, não é a casa, não é a mesma coisa. E percebemos que esse sentimento acaba por ser transversal ao mundo todo.

Há muita gente que teve de sair de casa, seja para buscar mais oportunidades de trabalho e de estudo, seja porque foi obrigada por causa de tudo o que sabemos que está mal no mundo. Acho que esse sentimento transversal contribuiu muito para o sucesso da música e para a mensagem ser recebida da mesma maneira em tantas línguas diferentes.

Ter furado no Brasil é incrível — é uma celebração deste sentimento e da nossa língua portuguesa. E acho que não vai ser o hexa, porque Portugal vai ganhar o Mundial, mas gostamos muito do Brasil. Seja quem for que ganhar na Copa do Mundo, é uma vitória da comunidade da língua portuguesa.

Por falar em CPLP, há uma curiosidade: no Brasil não sabemos o que é “Betão”, dizemos “concreto”. Houve quem perguntasse: “Mas quem é Betão?” Vocês sabiam que isso acontece em português do Brasil?
Sim (risos). No TikTok e no Instagram havia isso: as pessoas não entendiam o que a palavra significava e acabaram por identificar que era, de fato, “concreto”, a tradução para o português do Brasil. Mas é engraçado como, apesar das diferenças, conseguimos encontrar esse grupo de pessoas que se identificam com a mensagem da canção. E não somos só nós que sentimos isto nesta ilha; é no mundo inteiro. Chegou ao Brasil, felizmente, e é uma alegria imensa sentir esse calor.

Acho que também é preciso mencionar o Ed Gama e o Zé Vaqueiro, que fizeram uma versão de “Deslocado” que foi uma surpresa enorme para nós. É uma versão muito engraçada, muito fixe, e para nós é uma honra que alguém do outro lado do oceano tenha pensado: “Vou fazer um cover disto e adaptar para a minha linguagem.”

É engraçado como, com essas diferenças linguísticas, eu aprendi muito sobre o jeito de falar do Brasil através da música — e as pessoas também passam a conhecer o falar de Portugal porque ouviram música portuguesa. Acho isso bonito: há gente do outro lado do oceano que de repente sabe o que é “Betão”, do mesmo modo como nós sabemos tantas palavras do Brasil porque ouvimos as suas músicas desde a infância.

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