Nove perguntas a fazer a ti mesmo antes de cortares relações com um familiar

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Durante sessões de terapia, as pessoas perguntam-me frequentemente se devem deixar de comunicar com um membro da família ou, essencialmente, entrar em “contacto zero”. É uma questão importante, que merece consideração cuidada e atenção. Em situações que envolvem abuso, o afastamento pode ser necessário e protector. Mas quando a relação está desgastada e não é insegura, vale a pena considerar formas de criar uma mudança significativa sem fechar completamente a porta.

Comuniquei claramente as minhas preocupações?

Na minha prática, vejo frequentemente casos de afastamento familiar sem que tenha havido conversas suficientes sobre o problema, muito menos uma conversa clara e centrada em comportamentos. Por vezes, as pessoas concluem que o familiar não demonstra empatia suficiente, não reconhece o impacto emocional do seu comportamento ou não assume responsabilidade pelos seus actos, e acabam por considerar a relação — mais frequentemente com um dos pais — irreparável.

No entanto, esta abordagem pode dificultar que a outra pessoa compreenda o que está a acontecer ou porquê. Filhos adultos afastados podem dizer que o pai ou a mãe é narcisista, manipulador emocional ou imaturo do ponto de vista emocional. Embora estas etiquetas possam, por vezes, emergir de padrões reais de dano, uma linguagem tão negativa e despersonalizada dificilmente conduz a uma resposta construtiva.

No caso dos pais, a maioria acredita que fez o melhor que pôde na educação dos filhos. Enfrentar a possibilidade de ter falhado não é apenas doloroso, é também humilhante. Por isso, é importante prepará-los para aquilo que queres que eles ouçam ou compreendam.

É igualmente importante ser claro sobre o que pretendes que aconteça na conversa. Queres que o teu pai ou a tua mãe apenas ouçam, sem se defenderem? Isso pode ser útil, mas deves explicar o motivo da conversa. Podes dizer:

“Tenho pensado muito na nossa relação e queria falar contigo sobre algumas formas como me senti afectado pela minha infância ou pela forma como tens sido recentemente. Não estou a dizer isto para te criticar ou castigar. Reconheço e agradeço as coisas boas que fizeste X, Y ou Z. Mas queria saber se estás disposto(a) apenas a ouvir-me, sem responder agora, e talvez possamos falar outra vez daqui a alguns dias.”

No final, pede-lhes que repitam o que disseste, sem julgamento, para garantir que compreenderam.

Identifiquei directamente o que me magoa e pedi mudança?

Foca-te nas tuas reacções, não no carácter da outra pessoa. Por exemplo:

“Sinto que foste muito duro(a) comigo quando era mais novo(a), e isso fez com que eu fosse duro(a) comigo próprio(a). Talvez sentisses que estavas a ajudar-me a dar o meu melhor, mas não foi assim que eu vivi isso. Ainda sinto que a forma como falas comigo é muito crítica e quero que isso pare. Por vezes, levo dias ou semanas a recuperar depois de estar contigo.”

Estou aberto(a) a ouvir a perspectiva ou explicações da outra pessoa?

As explicações podem parecer uma forma de desvalorização. Por isso, digo muitas vezes aos pais que é melhor responder às queixas de um filho adulto com empatia, responsabilidade e vontade de mudança, em vez de defesa ou discussão — mesmo que isso seja uma reacção natural quando se sentem magoados ou mal compreendidos.

Dado isso, é útil dar-lhes a mesma oportunidade de escuta e espaço para construir entendimento mútuo. Repete o que dizem sem julgamento, para que sintam que foram ouvidos.

Dei tempo para reparação?

Não é realista esperar que um pai ou uma mãe consiga ouvir sem defesa, responder de forma adequada e comprometer-se com mudanças após poucas conversas. Muitos pais de filhos adultos não fizeram terapia nem tiveram contacto com as mesmas competências de comunicação que os filhos desenvolveram.

Além disso, é pouco provável que tenham tido com os próprios pais o tipo de conversa que agora lhes estás a pedir. Se for esse o caso, podes sugerir terapia individual ou familiar para aprofundar o entendimento e melhorar a comunicação.

Assume que pode ser necessário tempo, paciência e prática. Não assumes que cada erro é prova de falta de vontade de mudar. Ainda assim, de forma firme e sem hostilidade, deixa claro o que é aceitável e o que não é daqui em diante.

Consigo ter esta conversa sem citar o meu terapeuta?

Embora citar o terapeuta possa fazer-te sentir mais seguro nas conversas, é melhor aprenderes a ser a tua própria autoridade. As tuas ideias, sentimentos, memórias e percepções são suficientes como base para te defenderes.

Se precisas de citar o terapeuta, pode ser sinal de que ainda não consegues dizer: “Isto é o que eu acredito, e isso basta por si só.”

Estou a ser influenciado(a) pelo meu companheiro(a)?

O afastamento de pais pode acontecer não apenas por conflito directo, mas também pela influência do parceiro. O teu companheiro pode incentivar o corte por acreditar que é melhor para ti, ou porque se sente ameaçado pela tua proximidade com a família, ou ainda por se sentir desrespeitado pelos teus familiares.

Em qualquer dos casos, se estás a ceder para evitar conflitos no casal, podes estar apenas a substituir um tipo de evitamento por outro.

Ponderei as consequências?

O teu pai ou a tua mãe podem nunca ser a pessoa que desejarias que fossem: mais empática, mais disponível ou mais responsável pelos danos causados. Isso é algo que pode exigir luto e aceitação ao longo do tempo.

Mas há outras consequências a considerar. O afastamento é um acontecimento profundo no sistema familiar e reorganiza relações inteiras. O corte de um laço repercute-se nos restantes: irmãos podem dividir-se, primos podem deixar de se ver, e netos podem perder contacto com avós.

Podes decidir que esse custo vale a pena, mas é importante ter consciência dele.

Evito conflitos?

Alguns afastamentos resultam da dificuldade em lidar com conversas difíceis. Talvez sejas mais orientado(a) para a colaboração, a sensibilidade e a harmonia — o que pode levar-te a evitar conflitos.

Antecipar a reacção dos pais pode gerar ansiedade suficiente para evitares a conversa por completo. Mas o que fica no silêncio tende a crescer no silêncio.

A resiliência constrói-se ao enfrentar aquilo que nos assusta e perceber que sobrevivemos à experiência.

Obviamente, em casos de abuso, violência ou controlo coercivo, o afastamento pode ser protector. Mas quando se trata de conflito, diferenças ou expectativas não correspondidas, podem existir outros caminhos.

“Fiz o trabalho necessário?”

O afastamento pode trazer alívio real — da raiva, do ressentimento e da sensação de não ser visto ou compreendido. Para muitos, esse alívio surge após anos de tentativa e frustração.

Ainda assim, alívio e protecção não são sempre a mesma coisa. Em algumas famílias, o afastamento é necessário. Noutras, a situação é mais complexa: a dor não desaparece, apenas muda de forma.

Nem todas as experiências dolorosas são iguais. Algumas são verdadeiramente prejudiciais. Outras resultam de mal-entendidos ou padrões antigos não resolvidos.

Com o tempo, pode tornar-se difícil distinguir entre o que é intolerável e o que, apesar de doloroso, ainda pode ser trabalhado.

As relações próximas — mesmo as “suficientemente boas” — envolvem inevitavelmente fricção e momentos difíceis. Por vezes, o trabalho mais difícil não é afastar-se, mas explorar cuidadosamente se algum tipo de contacto, com limites e novas condições, ainda pode ser possível.

Não para voltar ao que era, mas para decidir, de forma consciente, como preservar o que ainda tem valor — sem te perderes no processo.

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