Num só ano, a área construída da Terra aumentou 1,7% (e fez disparar as emissões)

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A descarbonização do sector da construção está a perder fôlego na pior altura possível, quando à crise climática se somam as crises energética e da habitação. Em 2024, a área global de edifícios aumentou 1,7%, atingindo 273 mil milhões de metros quadrados, e as emissões operacionais subiram 1%, para 9,9 gigatoneladas de dióxido de carbono (CO₂), estima um relatório das Nações Unidas.

O aumento do edificado num só ano equivale a acrescentar área “de quatro vezes o tamanho de Berlim ou duas vezes o tamanho de Nova Deli”, afirmou Oliver Rapf, director executivo do Buildings Performance Institute Europe, durante uma conferência de imprensa virtual organizada pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP, na sigla em inglês).

Todos os dias, o mundo ganha 12,7 milhões de metros quadrados de área construída estimada, num crescimento impulsionado sobretudo por economias emergentes como a Índia. A escala do sector ajuda a explicar o impacto: edifícios e construção representam cerca de 37% das emissões globais, 28% do consumo global de energia e quase 50% da extracção mundial de materiais.

O retrato traçado no Global Status Report for Buildings and Construction 2025-2026, relatório elaborado pela UNEP em parceria com a aliança GlobalABC, mostra que o esforço climático no sector está longe de ser suficiente. Se, por um lado, a eficiência energética melhorou, a rápida expansão do parque edificado continua a anular parte desses ganhos, num contexto em que a construção cresce mais depressa do que a descarbonização.

Entre 2015 e 2024, as emissões operacionais aumentaram 6,5%. Entre 2015 e 2024, as emissões operacionais aumentaram 6,5%. No mesmo período, a área construída cresceu 20% e a procura de energia 11%, com o relatório a sublinhar que, sem ganhos de eficiência, o aumento do consumo teria sido muito maior.

“Nós realmente temos de reverter esta tendência crescente de emissões no sector”, alertou Hanane Hafraoui, consultora sénior da UNEP para questões climáticas, durante a conferência de imprensa. “A tarefa agora é saltar dos compromissos para a prática, das ambições climáticas para melhores casas e condições de vida para as pessoas.”

As mensagens‑chave apontam três razões para a estagnação actual: a construção a superar a velocidade a que a energia se torna mais limpa, a lentidão das renovações do edificado e a persistência dos combustíveis fósseis, sobretudo no aquecimento e na preparação de refeições.

Também falta de ambição política aparece como bloqueio. Em Janeiro de 2026, “nenhum” país incluía uma estratégia extensa para edifícios e construção nas suas metas climáticas, conhecidas por NDC, sigla em inglês para Contribuições Nacionalmente Determinadas. No entanto, esse nível de detalhe já esteve presente em rodas anteriores das NCD, mas, entretanto, este tipo de ambição voltada para o edificado esmoreceu.

Clima e acessibilidade

A associação entre clima e acessibilidade atravessa o documento. A ideia‑chave é que casas eficientes e de baixo carbono reduzem emissões e protegem as famílias de facturas elevadas e voláteis, tornando a habitação mais barata de manter ao longo do tempo. “A habitação e a acção climática” podem ser desenhadas “em conjunto”, defendem as mensagens‑chave, com ganhos simultâneos para a redução de emissões e para a qualidade de vida.

No documento, defende-se que fechar o “fosso” entre habitação e clima implica priorizar soluções para famílias de baixos rendimentos, melhorar planeamento urbano, usar materiais de forma mais inteligente e apostar em desenho passivo e tecnologias “comprovadas” que garantam acessibilidade ao longo do ciclo de vida dos edifícios.

Oliver Rapf sublinhou a importância dos materiais naturais — madeira, barro ou até resíduos de milho — nas estratégias de descarbonização do sector. Cerca de 8% de todas as emissões mundiais de CO2 resultam da produção e do comércio de betão, de acordo com o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). O cimento constitui, depois da água, a substância mais utilizada na Terra.

“A habitação e a acção climática não são prioridades concorrentes; quando desenhadas em conjunto, reforçam-se”, escreve Martin Krause no prefácio do relatório. Para o responsável da UNEP, os desafios actuais apoiam-se no seguinte tripé: emissões carbónicas, acessibilidade e resiliência climática.

“À medida que as ondas de calor se tornam mais intensas e frequentes, os edifícios constituem a nossa primeira linha de protecção”, lembrou Krause na conferência de imprensa virtual.

O relatório sustenta que a acção climática nos edifícios pode reduzir contas de energia, melhorar condições de vida e reforçar a resiliência a impactos climáticos, ao mesmo tempo que corta emissões. “Os edifícios podem tanto perpetuar riscos climáticos como proporcionar condições de vida mais seguras, saudáveis e acessíveis”, afirma Inger Andersen, directora executiva da UNEP, citada no documento.

Em 2024, as energias renováveis forneceram 17,3% da energia final consumida nos edifícios, “muito abaixo” do necessário para uma trajectória de emissões líquidas zero. Para alinhar com esse caminho, a quota de renováveis terá de subir para 46% até 2030, sublinha o relatório, que destaca o potencial da produção local, como a energia solar em telhados, tanto para descarbonização como para reduzir a exposição a choques de preços da energia.

Há, contudo, sinais de melhoria: desde 2015, a intensidade energética global dos edifícios diminuiu 8,5% e as certificações de construção “verde” quase triplicaram. A expansão do edificado também não foi acompanhada por um aumento proporcional do consumo, com o relatório a salientar que, na última década, a área construída cresceu 20% e a procura de energia aumentou 11%, num trajecto em que a eficiência ajudou a travar o crescimento das emissões.

O relatório quantifica ainda a distância entre a ambição e a execução em termos financeiros: depois de um investimento de 236,5 mil milhões de euros em eficiência energética em 2024, seria necessário elevar o esforço para um total de 5,1 biliões de euros — o equivalente a cerca de 509 mil milhões de euros anuais — para alinhar o sector com uma trajectória de emissões líquidas zero.

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