No Parlamento, André Ventura afirmava com vigor que o “25 de Abril cumpre-se e nós vamos cumpri-lo”, tentando despir o partido da capa de herdeiro do regime anterior. Contudo, quando a retórica dá lugar à governação local, o cravo parece murchar antes de tempo.
O caso de Albufeira é o exemplo mais flagrante desta “dieta de liberdade”. Se na anterior legislatura o concelho vibrava com um concerto de Luís Represas e uma agenda cultural que dignificava os 50 anos de democracia, o executivo agora liderado por Rui Cristina optou pelo minimalismo institucional. Reduzir a celebração da data fundadora da nossa democracia a um hastear de bandeira de 15 minutos às 09h30 é mais do que contenção orçamental. É um esvaziamento simbólico.
Não é um caso isolado. Em São Vicente, na Madeira, a agenda municipal para este 25 de Abril ignora a Revolução dos Cravos, preferindo destacar uma “Corrida pelo Autismo”. Ninguém questiona a nobreza da causa social, mas a substituição deliberada da memória histórica por eventos desportivos apolíticos revela uma tentativa de normalizar o esquecimento. É o “cumprir Abril” através da omissão.
Curiosamente, é no Entroncamento que encontramos a exceção que confirma a regra da desconfiança. Ali, o executivo do Chega parece ter compreendido que governar para todos exige respeitar a história de todos. Com exposições sobre a censura e a figura de Humberto Delgado, o município demonstrou que é possível ser fiel a uma linha política sem tentar apagar o dia em que os portugueses recuperaram a voz.
Este contraste dentro do próprio partido levanta uma questão: qual é o verdadeiro Chega? O que celebra a liberdade ou o que a remete para um plano secundário e burocrático?
Esta gestão autárquica “a meio gás” alinha-se com as posições de André Ventura, que frequentemente tenta desviar o foco do 25 de Abril para o 25 de Novembro. Ao propor esta última data como o “verdadeiro dia da liberdade”, o partido tenta reescrever a hierarquia dos valores democráticos, alimentando uma polarização que apenas serve para fraturar a memória coletiva.
É legítimo perguntar: como pode um partido que reclama para si o título de “única alternativa” ter tanto receio de celebrar o momento em que a alternativa se tornou possível? O 25 de Abril não pertence a uma fação política, mas a um povo que, em 1974, conquistou o direito de votar, inclusivamente no Chega.
A democracia não se faz apenas de rituais obrigatórios por lei. Faz-se de cultura, de debate e de ação popular. Quando uma câmara municipal elimina os momentos de celebração pública, está a dizer aos seus munícipes que aquela data é um incómodo administrativo, e não uma conquista civilizacional.
Se o respeito deve ser bidirecional, como tanto apregoa a direita parlamentar, então o respeito pela história de Portugal e pelas conquistas de 1974 deveria ser o ponto de partida de qualquer executivo. Limitar o 25 de Abril ao som do hino nacional, enquanto se esvaziam as praças, é uma forma subtil de dizer que a liberdade, afinal, é algo que preferiam ver guardado na gaveta.
A história ensina-nos que a erosão dos direitos começa muitas vezes pelo silenciamento dos símbolos. Em Albufeira e São Vicente, o silêncio deste ano foi ensurdecedor. Resta saber se os eleitores vão aceitar que a “limpeza” prometida comece, afinal, pela limpeza da nossa memória comum.
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