O capital emocional dos pobres

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Há um tipo de riqueza que não cabe nos modelos económicos nem nas previsões do Eurostat. Uma riqueza que não se declara no IRS, mas que suporta mais lares do que qualquer fundo europeu de coesão. Chamam-lhe resiliência. Ainda assim, é um nome fraco para tanta alquimia emocional: o pobre não sobrevive, ele reinventa-se enquanto toma o pequeno-almoço com pão do dia anterior e um sorriso que já devia ter expirado.

É que o pobre tem um talento quase místico para extrair sentido onde só há ausência de sentido e isto, meus senhores, é uma competência transversal que daria para liderar equipas de alta performance, caso o mundo valorizasse o invisível.

Enquanto os economistas debatem o conceito de capital humano, o pobre debate consigo mesmo se a conta da luz pode esperar mais um dia ou dois, enquanto segura firme a dignidade, porque quem não tem cão, caça com gato.

Mas, atenção, meus caros: se o gato for bravo, ainda rosna à EDP. Diz o povo que quem espera, desespera. Mas o pobre já aprendeu a esperar, com estoicismo romano e uma pontinha de sarcasmo doméstico, porque sim, o humor é também um mecanismo de sobrevivência, e quem não tem pão ri com o nariz torcido para não chorar de estômago vazio.

Há muito de filosofia nos corredores húmidos dos prédios sociais afinal, casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. O pobre pratica uma ética da interdependência que faria Kant repensar os seus imperativos. Porque aqui é simples: não deixar ninguém para trás, mesmo quando estamos todos encalhados.

E há ainda quem ache que os pobres são emocionalmente instáveis como se fosse possível manter um chacra alinhado com 500 euros por mês, uma casa fria e um vizinho que ouve techno às três da manhã.

Não confundamos desordem emocional com excesso de realidade, porque a única vibração que o pobre sente é a do frigorífico a tentar sobreviver em modo económico.

O capital emocional dos pobres não é líquido. É sólido, quase mineral moldado por anos de contenção, de perdas sucessivas e de pequenas vitórias que passam despercebidas a quem mede sucesso em likes e dividendos.

É este capital não declarado que sustenta linhas de produção, escolas, centros de saúde, transportes públicos e ainda encontra força para ouvir os desabafos da prima que tem burnout por trabalhar demais num cowork com vista para o Douro.

Diz-se que o povo é sereno, mas a verdade é que o povo é, sobretudo, paciente. E a paciência, quando organizada, torna-se perigosa porque é nela que germina a consciência. E a consciência, quando desperta, já não volta a dormir em colchão velho com molas partidas.

E se algum dia este capital emocional entrasse em greve, não seriam as bolsas a cair seriam as máscaras. Colapsava-se tudo: desde o infantário até ao hospital, desde o supermercado até à fábrica.

Porque o pobre, quando pára de fingir que está tudo bem, revela um país inteiro que nunca esteve.

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