O choque cultural de ser brasileiro

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Brasil e Portugal, estou em um lugar privilegiado. Vivi as realidades das duas culturas e os choques que elas geram. No uso cotidiano, falar em choque cultural descreve o desconforto e a ansiedade que uma pessoa sente quando em contato com uma cultura que avalia radicalmente diferente da sua.

O busílis da questão está mais na cultura do que no choque. A palavra cultura é esquiva. Circula associada a produtos agrícolas em expressões como “cultura da soja” tanto quanto aos modos de preencher o tempo de ócio, na dobradinha “cultura e lazer”. Além disso, para muitos, cultura está associada a civilização e a um poder intelectual. Ter cultura é distinguir-se dos demais.

Já para os gregos, a cultura se relacionava à formação do ser humano por meio do conhecimento e da busca pela excelência intelectual. Isso fazia com que o ser humano quanto mais poder tinha, mais se afastava dos trabalhos manuais. O privilégio estava na atividade intelectual.

Construir sociedades escravocratas não é, dessa perspectiva, uma atividade produtora de cultura. Ainda mais se são sociedades agrícolas ou extrativistas. Não há tempo – nem interesse – em burilar o pensamento. A cultura está sempre lá, no outro lado, junto à metrópole, onde se pensam e decidem os futuros.

À colônia cabe receber a cultura alheia e tentar adaptar-se a ela, o melhor que puder, mesmo sabendo de antemão que não é a sua cultura, não foi produzida ali, trata-se de uma tentativa condenada ao fracasso. Essa atitude educa: ensina que não se pode fazer nada sem negar quem se é e aceitar que mesmo assim ainda não se será suficiente. O sotaque, o jeito de sentar, de mexer nos talheres, de perguntar, algo sempre vai trair e dizer que não se está à altura.

Stuart Hall (1932–2014) vai em outra direção ao definir cultura em O Trabalho da Representação como o conjunto de “formas e processos sociais através dos quais as significações são geradas, circuladas e trocadas”. A falarmos em sociedades colonizadas, o que efetivamente é cultura é o vasto leque de elementos que se entretecem e revelam o que essa sociedade desenvolve como sendo seu e representando-a.

Inclusive a sua sensação de não estar à altura do outro, esse outro no além-mar. Olívia Guedes Penteado (1872–1934) era neta dos barões de Pirapitinguy, pertencendo ao melhor da aristocracia brasileira. Usou muito de sua posição social e fortuna para apoiar artistas e intelectuais. A ela também se atribui a frase “Quando começo a achar as vitrines do Mappin interessantes, está na hora de voltar para Paris”. O Mappin Stores era a mais sofisticada loja de departamentos de São Paulo (inaugurada em 1913). Para a elite paulistana culta, quando o Brasil pudesse parecer sofisticado era um sinal de alerta que já se estava provinciano demais e precisava-se urgentemente de uma temporada em Paris para recuperar o refinamento.

Identidades

A cultura é um sistema de significados compartilhados possibilitando-nos interpretar o mundo e assim construir nossas identidades. São Paulo estava destinada a não ser Paris, não apenas porque ela é uma realidade diferente, mas porque ela representa outras coisas que Paris nunca significou. Mas a cultura não é homogênea. É um espaço de tensões e conflitos no qual diferentes grupos disputam os seus significados e interpretações, influenciando as relações de poder na sociedade. Assim, São Paulo não ser Paris é a própria condenação à sua inferioridade.

Bem cantava Amália Rodrigues: “Lisboa, não sejas francesa, com toda a certeza, não vais ser feliz”. Isso porque a felicidade não está nas tensões sobre quem é mais culta, mas no conhecimento da identidade que essa cultura totalmente diferente da outra produz. Mas “o inferno são os outros”, nos lembra o filósofo. Por exemplo, o funk e o balé convivem no mesmo espaço. Ambos carregam significados que ajudam a criar identidades — e, ao mesmo tempo, essas mesmas identidades também transformam e recriam esses significados. É sempre uma mão dupla a da cultura. Mas o funk e o balé não são valorizados da mesma forma.

A cultura é um processo sempre dinâmico e, por isso mesmo, conflituoso e complexo. Ela continuamente se abre para o outro, gerando os diálogos marcados por tensões, troca de valores e jogos de poder. A formação cultural brasileira resulta do encontro — e conflito — entre matrizes indígenas, africanas e europeias e, mais recentemente, dos muitos povos emigrados para cá.

Ao mesmo tempo a Europa nos olha e nem sempre se vê. Essa ausência no espelho é nomeada como exotismo. Cultura exótica é aquela que não aparece na nossa identidade. É uma nomeação preconceituosa, sem dúvidas, mas que transmite segurança. O choque cultural está sempre naquilo que vemos no outro, mas não enxergamos em nós, no nosso próprio espelho. Chama-lo exótico é um modo de justificar essa ausência.

A cultura brasileira não unificou homogeneamente todas as suas diferentes realidades. O encontro entre essas diferenças, pela interação e pela fusão, tem originado interessantes hibridismos culturais que, por sua vez, são a gênese de novas realidades culturais. Assim nasceu o quindim, o samba, o pensamento de Paulo Freire, a narrativa de Clarice Lispector, o rap indígena de Katú Mirim ou o projeto social “Na ponta dos pés” que faz com que meninos e meninas do Complexo do Alemão estudem balé.

Arendt, Hannah, em Entre o Passado e o Futuro, afirma que a substância da cultura é “constituída por aquilo que sobrevive ao tempo mortal e, portanto, pela própria memória da humanidade”. Essas palavras permitem-nos indagar: o que é permanente nessa realidade sempre conflitante entre tantas realidades culturais distintas em permanente interação?

Impermanência

A estabilidade das culturas brasileiras, assim mesmo, no plural, reside na sua própria impermanência: o que permanece são a resiliência e o processo de transformar, de dialogar, de adaptar. A responsabilidade ética exige o constante diálogo entre o ato de mudar e a preservação dessas transformações, tanto legado para a posteridade, como ponto de partida para novas transformações. Exige também a coragem para não desistir. O Brasil ancora-se na capacidade de se fixar no movimento: um exercício ousado de existência e resistência que converte o passado em potência contínua de renovação do mundo comum.

Nesse sentido, o Brasil tem algo a ensinar à Europa. A Europa nunca mais será a mesma depois da chegada de todos os milhares de imigrantes que ela tem recebido. E isso não é necessariamente ruim. A senhora Penteado refletia um modo de ver o mundo que era dominante na sua época, mas que está vivo hoje em pensamentos como “Voltem para a vossa terra!”. Traduz o desejo de que há um melhor inatingível numa Paris imaginária. Mas não há. Mas não há.

Resta-nos, então, construir a partir do que somos. Temos de o fazer a partir da realidade da mudança. Construir e criar permanências, mas também abrir-se ao novo que vem. O choque cultural surge, muitas vezes, do nosso próprio preconceito de não acreditar que o Mappin não será nunca Paris, mas será o que ele puder ser, na sua realidade diferente. E ser diferente não é ser exótico, é apenas ser outro.

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