Nas salas de espera, nas filas, nos transportes ou enquanto aguardamos pelo elevador, sacamos quase automaticamente do telemóvel. Não o fazemos apenas para ver uma notificação. Fazemo-lo muitas vezes como quem puxa de uma arma em legítima defesa contra o vazio.
O gesto tornou-se tão banal que quase deixou de ser visível. No entanto, talvez diga mais sobre o nosso tempo do que estamos dispostos a admitir.
Durante muito tempo, a relação com a tecnologia pareceu simples. Havia os dispositivos e havia os utilizadores. Os algoritmos operavam nos bastidores: sugeriam conteúdos, filtravam informação, registavam hábitos. Pareciam ferramentas externas. Hoje a situação parece diferente.
O problema já não é apenas a tecnologia que nos observa, mede e recomenda. É o facto de termos começado a pensar, escolher e agir como se também nós tivéssemos de funcionar segundo a mesma lógica.
É dessa inversão que nasce aquilo a que chamo egoritmo.
Não se trata de um conceito técnico. É apenas uma imagem crítica para pensar o momento em que certas lógicas algorítmicas deixam de actuar apenas nos dispositivos e começam a infiltrar-se nos comportamentos.
Isso vê-se nos gestos mais simples. Ensaiamos o que vamos dizer antes de falar. Editamos as palavras antes mesmo de as pensar. Procuramos o filtro certo, a imagem certa, o ângulo certo. Aos poucos, começamos a aplicar às emoções a mesma lógica de selecção e edição que aplicamos às fotografias.
Não estamos apenas mais ocupados: estamos pré-ocupados.
O tempo chega muitas vezes preenchido antes de ser vivido. Até o tempo livre começa a ser medido em função da produtividade. Vivemos tão apressadamente que a hesitação parece um erro. Mas talvez seja precisamente nela que o pensamento ainda encontra tempo para se demorar.
O humano persiste nos desvios. Na pausa. No silêncio. Na palavra imperfeita. Porque não vive na perfeição da resposta, mas no intervalo entre o impulso e a palavra. Talvez por isso a intolerância ao vazio, à lentidão e à falha seja um dos sintomas mais discretos do nosso tempo.
O problema agrava-se quando esta lógica passa do comportamento para os afectos. Fomos levados a acreditar que é preciso gostar primeiro de nós próprios para só depois conseguir gostar dos outros. Mas muitas vezes é precisamente através da relação com o outro que aprendemos a reconhecer aquilo que somos.
Ainda há quem ame por conta própria. Mas muitos de nós já começam a amar por conta de outrem, gerindo relações como se até o amor tivesse prazo de validade.
Não delegamos apenas às máquinas tarefas e decisões. Começamos também a entregar-lhes a nossa atenção, o nosso tempo e, por vezes, a nossa própria solidão. As máquinas simulam o afecto e a escuta. Mas continuam a ser apenas uma presença sem presente.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja resistir à tecnologia. Seja, antes, resistir à tentação de nos tornarmos compatíveis demais com ela.
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