O estranho processo de exportação da palavra resiliência para a alma humana

0
5

“A resiliência é uma palavra bizarra” — é precisamente uma das frases mais emblemáticas e provocadoras do livro Nos viés sur la brèche, da autoria do filósofo Jean-Philippe Pierron. E esta bizarria aconteceu, na sua opinião, a partir do momento em que este vocábulo foi exportado da área da engenharia para o domínio da psicologia.

Segundo constata este filósofo, antes de se tornar um termo da psicologia, designando a capacidade de ultrapassar choques traumáticos, esta palavra pertencia ao vocabulário da engenharia, correspondendo à capacidade de um metal resistir ao choque provocado pelas tensões.

A posição defendida por Jean-Philippe Pierron é que, enquanto esta palavra pertenceu ao universo da física e da mecânica, tudo estava no devido lugar. A interpelação surge desde a altura em que, através de um estranho processo de exportação, a palavra resiliência passou a designar aquilo que resiste, nas nossas vidas, aos choques e à deformação.

Esta estranha exportação leva Pierron a questionar o sucesso da generalização da palavra resiliência à alma humana, apresentada como uma metáfora positiva para a superação do infortúnio que, mais tarde ou mais cedo, pode atingir as nossas vidas. Porque, na verdade, tal como salienta, existe o infortúnio. Existe a infelicidade. Existe o mal. E também existe o insuportável.

Perante a crueza desta realidade, associa o resultado deste processo de exportação a uma fábula. E responsabiliza a fábula da resiliência por nos levar a acreditar que a existência do trauma se pode solucionar, desde que sejamos capazes de acionar um botão para que a força da tensão cesse de se exercer sobre as nossas almas.

Daí que o sucesso da fábula da resiliência resida exatamente no conforto que nos transmite, levando-nos a crer que, depois de um drama, podemos sempre recuperar, de acordo com a velha máxima de que aquilo que não nos mata, pelo contrário nos torna mais fortes.

Esta fábula encoraja um heroísmo assente na ideologia do bem-estar, de acordo com a qual será considerado resiliente alguém que, em vez de se deixar derrotar pelo infortúnio, ultrapassou o trauma com uma grandiosidade que relacionamos com a dignidade moral. Mas há um senão.

E o senão da fábula da resiliência é que nem todos são heróis. Confrontado com esta circunstância, o adversário desta fábula é a vítima do insuportável que não conseguiu superar o seu infortúnio. E, se aquele que supera o trauma se torna um herói, o que pensar daqueles que não o conseguem?

Esta dissonância não é uma questão de somenos importância: é precisamente esta incapacidade que nos remete para possibilidade de nos deixarmos perturbar e desestabilizar pelo infortúnio, experienciando na pele a vulnerabilidade e a fragilidade que o desgosto convoca. Diante da morte de um ser amado, não estamos defronte um problema teórico a resolver, mas sim diante de um mistério perturbador e aterrorizador para o qual não temos resposta.

Perante situações extremas como esta, a valorização da resiliência não será uma forma de negar a existência do insustentável, procurando apagar rapidamente os traços negros do desgosto para que possamos reerguer-nos rapidamente e recomeçar do zero? É Jean-Philippe Pierron quem lança esta questão, antes de afirmar que, bem pelo contrário, não é possível fazer tábua rasa do sucedido, apagando os acontecimentos, as doenças ou os traumas que transformaram as nossas vidas de forma radical.

É por esse motivo que coloca em causa o próprio conceito de recuperação ou superação do trauma enquanto possibilidade de reconstituição de um estado inicial, sem perdas, sem alterações. E isto por uma razão muito simples: pura e simplesmente, porque uma vida não é uma barra de metal. Após um drama, existe como que uma reconfiguração interna na alma humana que está longe de corresponder a um regresso ao seu estado inicial.

Nas pessoas, as deformações exteriores traduzem-se sempre em reconfigurações íntimas. Para aqueles que passam pelos acontecimentos, as forças mecânicas exercidas sobre as suas almas correspondem a eventos biográficos. Longe de representarem um parêntese nas nossas vidas, as doenças graves, as perdas e outros acontecimentos traumáticos inauguram uma nova era, uma outra fase, depois da qual continuamos a existir, embora jamais sejamos os mesmos.

É por este motivo que o conceito de resiliência ignora frequentemente a premente necessidade de invenção que cada ser humano necessita de convocar para fazer face aos revezes da existência. Mas esta capacidade criativa não se destina a lutar contra o insuportável.

Esta força criativa é precisamente aquela que nos permite viver a partir do insustentável.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com