O legado de Abril: democratizar o conhecimento, fortalecer a democracia

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No dia em que celebramos a liberdade conquistada pela Revolução dos Cravos, importa revisitar o significado profundo desse legado e reconhecer que a democracia não se esgota na realização de eleições livres nem no funcionamento regular das instituições. A democracia é, antes de mais, um sistema vivo que depende da confiança, da participação e da capacidade crítica dos cidadãos, e essa capacidade está intimamente ligada ao acesso ao conhecimento.

A liberdade conquistada em Abril criou as condições para o debate e para a construção coletiva do futuro. Mas, num mundo profundamente moldado pela ciência e pela tecnologia, essa liberdade exige hoje uma dimensão adicional: exige que os cidadãos tenham acesso a conhecimento fiável, compreensível e escrutinável, capaz de sustentar decisões informadas num contexto de crescente complexidade.

Vivemos num paradoxo difícil de ignorar. Nunca produzimos tanta informação, nunca tivemos tanto acesso a dados científicos e nunca a circulação do conhecimento foi tão rápida e abrangente. No entanto, essa abundância não se traduziu automaticamente em maior clareza ou melhor compreensão. Pelo contrário, assistimos a uma crescente dificuldade em distinguir entre evidência e opinião, entre ciência e pseudociência, entre rigor e narrativa. A democratização tecnológica da informação não garantiu, por si só, a democratização do conhecimento.

É neste contexto que a ciência aberta assume um papel que vai muito além do domínio académico e se afirma como um verdadeiro pilar democrático. Democratizar o conhecimento científico significa torná-lo acessível, transparente e compreensível para a sociedade. Significa também reconhecer que o conhecimento, sobretudo quando informa políticas públicas e decisões coletivas, não pode permanecer encerrado em espaços técnicos ou institucionais.

O alargamento do acesso ao conhecimento tem uma importância profunda para a democracia, porque ajuda a reduzir desigualdades no acesso à informação e a reforçar as condições de participação informada. Quando o conhecimento é opaco ou inacessível, acentuam-se as distâncias entre quem detém a informação e quem é afetado pelas decisões que dela decorrem. Quando o conhecimento é partilhado de forma clara e responsável, cria-se a possibilidade de uma participação mais informada, de um escrutínio mais efetivo e de um debate público mais sólido.

No entanto, a democratização do conhecimento não é, por si só, suficiente. O acesso não garante compreensão, e a transparência não elimina a possibilidade de distorção. Sem literacia científica, sem um esforço continuado de comunicação clara, a informação pode ser mal interpretada, descontextualizada ou instrumentalizada. A democratização do conhecimento exige, por isso, não apenas abertura, mas também tradução, contextualização e envolvimento ativo da sociedade.

Foi precisamente esta relação entre pensamento crítico, literacia científica e vulnerabilidade democrática que Carl Sagan (um dos mais influentes divulgadores de ciência do século XX) analisou em The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark (1995). Nessa obra, Sagan alertou para o risco de uma sociedade altamente dependente da ciência e da tecnologia, mas incapaz de compreender os seus princípios fundamentais e, por conseguinte, incapaz de exercer um escrutínio informado. A sua reflexão parte de uma preocupação central: quando o conhecimento científico deixa de ser compreendido, aumenta a vulnerabilidade à crença acrítica e à sedução de explicações simples para problemas complexos.

A metáfora da ciência como uma “luz na escuridão” mantém hoje uma relevância particular, não apenas como forma de iluminar o desconhecido, mas como condição para que essa luz seja partilhada, compreendida e utilizada de forma crítica. Para Sagan, a ciência não era apenas um processo de produção de conhecimento, mas também uma forma de pensar, assente na verificação e no escrutínio crítico, indispensável a uma cidadania mais informada e a sociedades democráticas mais robustas.

Décadas depois, esta advertência revela-se especialmente atual num ambiente digital que transformou profundamente a produção e o consumo de informação, onde esta circula frequentemente mais depressa do que é validada. Neste contexto, a incerteza inerente ao processo científico pode ser confundida com ausência de conhecimento sólido, e a opinião tende a adquirir o mesmo estatuto da evidência, contribuindo para uma erosão progressiva das fronteiras entre conhecimento e perceção e colocando desafios diretos à qualidade do debate público e à robustez das decisões democráticas.

Perante este cenário, a transparência científica deixa de ser apenas uma boa prática e torna-se uma exigência democrática. Democratizar o conhecimento é criar condições para um escrutínio informado, reforçar a confiança nas instituições e aproximar a ciência da sociedade, sobretudo perante desafios complexos e muitas vezes invisíveis.

O legado de Abril adquire, assim, uma nova camada de significado. A liberdade conquistada não é estática nem garantida, e a sua preservação exige uma adaptação contínua às condições do presente. Num mundo saturado de informação, essa preservação depende cada vez mais da capacidade de distinguir entre conhecimento e ruído, entre evidência e perceção, entre ciência e desinformação.

Defender a democracia hoje implica, inevitavelmente, defender a integridade, a transparência e a acessibilidade do conhecimento. Implica investir na ciência aberta, mas também na sua comunicação, tradução e partilha, na sua integração na esfera pública e na sua contribuição para a democratização do conhecimento. Implica reconhecer que o conhecimento não é apenas um recurso técnico, mas um bem público essencial.

O legado de Abril ensinou-nos que a liberdade se constrói e se defende. No presente, essa defesa passa, de forma incontornável, pela democratização do conhecimento e pela capacidade de garantir que a ciência permanece acessível, compreensível e relevante para todos. Só assim será possível sustentar uma democracia que não seja apenas formalmente livre, mas substantivamente informada e resiliente.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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