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Há livros que não entram em nossa vida pela via da informação. Eles chegam como espelhos, atravessam defesas, deslocam certezas e nos colocam diante de zonas internas que, muitas vezes, passamos anos evitando. Mulheres Que Correm Com Os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, pertence a essa categoria. Não se trata apenas de uma obra sobre mitos, contos e arquétipos. Se trata de uma travessia pela memória psíquica das mulheres, por aquilo que foi silenciado, domesticado, interrompido ou adaptado em nome da aceitação.
Ao longo da vida, muitas mulheres aprendem a negociar a própria presença. Aprendem a medir a voz, a conter o desejo, a pedir licença para existir, a suavizar opiniões, a transformar intuição em dúvida e cansaço em virtude. Esse processo nem sempre ocorre de modo consciente. Ele se instala em pequenas concessões, em frases herdadas, em expectativas familiares, em modelos de amor, trabalho, maternidade, sucesso e aparência. Com o tempo, a mulher pode se tornar eficiente para o mundo e estrangeira para si mesma.
A força do livro está justamente em devolver linguagem a esse afastamento. Quando Clarissa Pinkola Estés fala da mulher selvagem, não está convocando uma fantasia de ruptura sem consequência, tampouco uma ideia romântica de liberdade. Ela se refere a uma dimensão psíquica ligada ao instinto, à criatividade, à percepção, ao corpo e à capacidade de reconhecer o que nutre e o que adoece. Na clínica, vejo muitas mulheres sofrerem não por falta de inteligência, coragem ou capacidade, mas por terem perdido contato com esses sinais internos.
A cultura costuma ensinar a mulher a desconfiar de si. Se ela sente demais, é exagero. Se recua, é medo. Se deseja, é ambição. Se impõe limite, é dureza. Se escolhe silêncio, é frieza. Essa gramática social produz uma cisão entre aquilo que se vive por dentro e aquilo que se permite demonstrar. O resultado pode aparecer como ansiedade, culpa, exaustão, ressentimento ou sensação de vazio. Por trás de muitos sintomas, existe uma pergunta que ainda não encontrou espaço para ser formulada: em que momento deixei de me escutar?
Ler, nesse sentido, pode ser um gesto de retorno. Não porque a literatura ofereça respostas prontas, mas porque certas narrativas criam uma fresta por onde a consciência entra. Um conto, um mito ou uma imagem simbólica podem acessar lugares que a explicação racional não alcança. A história fala em outra língua. Ela contorna a defesa, toca a memória, organiza o caos e permite que uma experiência íntima seja reconhecida sem exposição direta. Por isso, muitas vezes, uma página consegue nomear aquilo que uma pessoa levou anos para admitir.
Mulheres Que Correm Com Os Lobos permanece atual porque toca em um conflito que atravessa gerações. A mulher contemporânea conquistou espaços, ampliou possibilidades e acumulou funções, mas nem sempre recebeu autorização psíquica para habitar a própria potência sem culpa. A cobrança mudou de forma, não desapareceu. Hoje, se espera que ela produza, cuide, realize, deseje, conduza, sorria, acolha e ainda preserve equilíbrio. O excesso se disfarça de autonomia, enquanto o corpo tenta avisar que alguma parte foi deixada para trás.
A leitura do livro pode provocar desconforto porque convida a uma revisão de pactos internos. Quem fui para ser aceita? O que abandonei para caber? Quais desejos transformei em ameaça? Que tipo de amor me ensinou a diminuir? Essas perguntas não precisam ser respondidas com pressa. Ao contrário, pedem tempo, silêncio e elaboração. A pressa costuma ser inimiga da escuta. A consciência precisa de espaço para amadurecer sem se transformar em cobrança.
Por isso, escolhi abrir uma conversa sobre essa obra em um clube do livro pela internet, com participação sem custo. O encontro será realizado no dia 17/05, às 17h no Brasil e às 21h em Portugal. Não é necessário ter o exemplar, nem ter feito leitura prévia. No grupo, compartilharei o conteúdo de todos os contos e, no dia do encontro, conversaremos sobre um deles sob a perspectiva arquetípica e junguiana. A proposta nasce menos como atividade de leitura e mais como espaço de elaboração, no qual a literatura serve de ponte entre símbolo, história pessoal e consciência.
Há algo de reparador em reunir mulheres em torno de um texto que fala de instinto, perda, retorno e criação. Em uma época em que tantas conversas se fragmentam em respostas rápidas, a leitura propõe outro ritmo. Ela exige presença. Pede permanência. Convoca uma atenção que não busca apenas consumir conteúdo, mas produzir sentido. Talvez esse seja um dos gestos mais necessários do nosso tempo: recuperar a capacidade de permanecer diante de uma ideia até que ela nos transforme.
A psicologia nos ensina que ninguém se reconstrói apenas pela vontade. A mudança exige linguagem, vínculo, repetição, elaboração e corpo. Exige reconhecer padrões, mas também acolher a história que os formou. Nesse percurso, livros podem funcionar como instrumentos de espelhamento. Eles não substituem a terapia, não ocupam o lugar da escuta clínica, não prometem cura. Ainda assim, podem abrir portas. E há portas que, uma vez abertas, modificam a maneira como atravessamos a vida.
Talvez o convite mais profundo de mulheres que correm com os lobos seja o de recuperar uma aliança antiga com aquilo que sabemos antes mesmo de conseguir explicar. A intuição não é capricho. O incômodo não é fraqueza. O desejo não é ameaça. O limite não é ruptura. Quando uma mulher volta a escutar esses sinais, ela não se torna outra pessoa. Ela se aproxima de si. E, nessa aproximação, começa a reconhecer que sua voz não precisa ser inventada, apenas desenterrada.
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