O mito da retenção de talentos

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Ninguém quer ser retido — e, ainda assim, as empresas continuam obcecadas em fazê-lo.

O conceito de “reter talentos” tornou-se um dos grandes objectivos das organizações e um suposto factor crítico de sucesso. Mas a própria expressão levanta um problema: ninguém gosta de ficar retido, nem no trânsito.

Se aplicarmos a ideia a outras relações, o desconforto torna-se evidente. Que diríamos de “reter amigos” ou “reter maridos”? Soa estranho — e é. Ainda assim, no contexto organizacional, normalizámos esta linguagem sem grande questionamento.

Mesmo que muitas vezes “reter” seja usado como sinónimo de “cuidar”, a verdade é que as palavras moldam a forma como pensamos e como agimos. E “reter” sugere controlo sobre algo que, na prática, não controlamos. O talento não se retém.

Talvez o problema comece precisamente na linguagem. Quando falamos em “reter”, colocamos o foco na permanência a todo o custo, em vez da qualidade da experiência. E isso muda tudo: transforma relações que deviam ser voluntárias em objectivos de controlo — ainda que subtil.

Pessoas são livres. Ficam se quiserem — e apenas enquanto fizer sentido para elas. Quando essa vontade desaparece, qualquer tentativa de retenção não resolve o problema: apenas o adia.

Em qualquer relação, pessoal ou profissional, quando uma das partes já não quer ficar, insistir em segurá-la é prolongar o inevitável. Mais cedo ou mais tarde, a decisão será tomada. É apenas uma questão de tempo e, muitas vezes, de coragem.

Esse tempo tem um custo. Para a organização, que abdica de uma equipa verdadeiramente comprometida. E para a pessoa, que adia uma mudança que já sabe que quer fazer. Ninguém ganha, todos perdem.

Então, o que podem fazer as organizações? O mesmo que fazemos em qualquer relação que queremos manter: cuidar, com consistência e intenção. Não com discursos inspiradores em páginas institucionais, mas com acções concretas.

  • Valorizar a aprendizagem, investindo no desenvolvimento;
  • Respeitar a vida pessoal, criando espaço para ela;
  • Cuidar da saúde e do bem-estar;
  • Garantir condições reais para um bom desempenho;
  • Criar oportunidades de crescimento;
  • Escutar — verdadeiramente — as pessoas.

No prática, é simples: fazer o melhor possível por quem escolhe estar.

E se, ainda assim, alguém quiser seguir outro caminho? Cabe-nos respeitar, desejar o melhor e seguir em frente. Próximos, talvez, mas não juntos.

E para quem se sente “retido” e adia a decisão de sair: se não se sentem valorizados, se não estão entusiasmados, se acreditam que podem ser mais felizes noutro contexto, talvez não faça sentido esperar mais. A vida que estão a adiar é a vossa.

No fim, a ideia é simples, embora difícil de aceitar: as pessoas não se retêm. Escolhem ficar. Ou não.

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