Albatrozes, freiras, pardelas e painhos podem estar a ser empurrados para áreas cada vez mais pequenas do oceano. E, quando a água salgada aquece depressa, estas aves marinhas são obrigadas a voar para cada vez mais longe. A conclusão é de um estudo publicado esta semana na revista científica Nature Climate Change.
“Quanto mais distantes forem os futuros espaços adequados, mais difícil será para as aves marinhas, especialmente aquelas que não são boas voadoras de longa distância, alcançá-los. Como resultado, estas aves enfrentam um risco maior de extinção à medida que o planeta aquece rapidamente”, explica ao Azul Jorge Avaria-Llautureo, primeiro autor do estudo e investigador da Universidade de Reading, no Reino Unido.
Os autores analisaram mais de 120 espécies da ordem Procellariiformes – um grupo de aves marinhas adaptadas a viagens consideráveis –, cruzando árvores evolutivas, registos paleoclimáticos e dados históricos da temperatura do oceano. O objectivo foi perceber como mudaram, ao longo de milhões de anos, as áreas de distribuição e as deslocações destes animais marinhos, conhecidos por passarem longos períodos em alto-mar.
A conclusão do estudo mostra que, ao contrário de muitas espécies ectotérmicas – como os peixes, cuja temperatura corporal depende do ambiente –, as aves procelariiformes não apresentam redução da massa corporal em ambientes mais quentes. Os autores descobriram que, quando a temperatura subiu rapidamente num passado distante, estas aves responderam ao aquecimento planetário “encolhendo” a área de distribuição geográfica e fazendo deslocações mais longas até zonas com condições adequadas.
“Uma área de distribuição a encolher significa que algumas zonas passam a ficar demasiado quentes ou demasiado frias, ultrapassando as condições climáticas que as aves conseguem tolerar para sobreviver e reproduzir-se”, explica Jorge Avaria numa resposta enviada ao Azul. Nessa situação, “voar para longe das zonas de origem torna-se o factor-chave para encontrar novos habitats com condições ideais”.
Olhar para trás para ver o futuro
Ao incorporar no estudo dados sobre aves do passado, os investigadores descobriram ainda que o ritmo de aquecimento pesa mais do que a temperatura em si. “A taxa de mudança climática local é muito mais importante do que a sua direcção”, lê-se no artigo da Nature Climate Change. Por outras palavras, não importa tanto se aquece ou arrefece, mas sobretudo quão depressa as mudanças acontecem. Entre as espécies analisadas, a taxa de mudança de temperatura, por si só, explica 35% da variação do tamanho das áreas de distribuição.
“As aves marinhas já sobreviveram a mudanças climáticas drásticas no passado, mas nunca a um ritmo tão acelerado como o que observamos hoje. A história mostra-nos que, quando as temperaturas sobem rapidamente, estas aves não conseguem adaptar-se fisicamente. Em vez disso, são obrigadas a abandonar partes do seu habitat e a deslocar-se para mais longe para sobreviver”, observa Jorge Avaria.
O paralelo entre o passado e o presente ajuda a perceber a urgência actual. A equipa de investigadores estima que as aves procelariiformes terão lidado historicamente com uma taxa mediana de mudança térmica de 2,2×10⁻⁵ grau Celsius por década, enquanto hoje o aquecimento do oceano está em cerca de 0,13 grau Celsius por década. A diferença mede-se em várias ordens de grandeza e, portanto, encurta o tempo para as aves procurarem com sucesso futuros habitats toleráveis.
Os autores defendem que estas conclusões têm consequências directas para as políticas ambientais. “A conservação tem de fazer mais do que proteger os locais onde as aves marinhas vivem hoje. Também precisamos de salvaguardar as novas áreas para onde poderão ter de se deslocar no futuro”, diz Jorge Avaria, uma vez que as aves estudadas no artigo enfrentam um risco maior de extinção à medida que o planeta aquece rapidamente.
Em cenários climáticos futuros – como é habitual, os autores consideraram projecções até 2100 –, a vida de várias espécies surge bastante dificultada ou virtualmente impossível. Os modelos de distribuição de espécies indicam que, num cenário de forte aquecimento, mais de 70% das espécies deverão “encolher” a área de distribuição, sendo que as que mais superfície perdem são também as que tendem a deslocar-se mais para sobreviver.
Espécies que ocorrem em Portugal
O artigo identifica quatro espécies com risco real de extinção nesse cenário: a freira-das-galápagos (Pterodroma phaeopygia), o painho-de-Jouanin (Bulweria fallax), a pardela-de-Newell (Puffinus newelli) e o painho-de-Elliot (Oceanites gracilis).
No que toca a outras aves com ocorrência em Portugal, os resultados também não são encorajadores. Os dados encontrados para a freira-da-madeira (Pterodroma madeira), espécie endémica que nidifica numa área muito restrita do arquipélago homónimo, ilustram bem os desafios que as aves marinhas têm pela frente se não houver um corte drástico de emissões de gases de efeito de estufa.
Num cenário muito pessimista (conhecido formalmente como cenário RCP 8.5), em que os países continuam a queimar combustíveis desenfreadamente, a freira-da-madeira poderá ver a sua área de distribuição contraída em mais de 95%. Trata-se de um risco de extinção “extremamente elevado”, sendo que qualquer hipótese de sobrevivência desta espécie dependerá da capacidade de dispersar para outros locais adequados.
Nem tudo são más notícias: o painho-de-ventre-branco (Pelagodroma marina) integra um grupo restrito de aves felizardas. “É muito interessante notar que os nossos modelos indicam que a Pelagodroma marina alarga a sua área de distribuição em ambos os cenários climáticos previstos para 2100. A Pelagodroma marina pertence ao pequeno grupo de espécies (menos de 30% do total das espécies analisadas) que não reduzem as suas áreas de distribuição”, afirma Jorge Avaria. O painho-de-ventre-branco está presente no Atlântico e pode ser observado em mar alto junto à costa continental e nos dois arquipélagos de Portugal.
Num contexto em que o oceano aquece a um ritmo muito superior ao do passado, Jorge Avaria defende que as áreas marinhas protegidas no Atlântico Norte, como as que rodeiam os Açores e a Madeira, não podem ser vistas como soluções fixas para espécies móveis como a cagarra (Calonectris diomedea).
“A conservação tem de fazer mais do que proteger os locais onde as aves marinhas vivem hoje; também precisamos de salvaguardar as novas áreas para onde poderão ter de se deslocar no futuro”, alerta Jorge Avaria, acrescentando que isso “implica passar de zonas de conservação estáticas para ‘corredores migratórios’ que antecipem para onde estas aves serão obrigadas a mover-se até 2100”.
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